10/04/2021 às 15h04min - Atualizada em 10/04/2021 às 15h04min

ARTIGO: "Professores e estudantes da UEPG investigados pelo regime militar", por José Augusto Leandro

Detidos por autoridades militares, alguns até mesmo foram presos por supostas ações contrárias ao novo regime

Por José Augusto Leandro
Foto: Wikimmedia Commons
Na obra 'As universidades e o regime militar', Rodrigo Patto Sá Motta aponta uma primeira onda repressiva desencadeada por militares contra professores e estudantes universitários que se iniciou logo após o golpe de 1964 (MOTTA, 2014a). O Ato Institucional nº 5 (AI5), baixado em fins de 1968, marcaria outra onda repressiva, com muitos expurgos de docentes das universidades públicas brasileiras a partir de 1969.

O historiador sugere que, no momento do golpe, cerca de 20 a 30 mil pessoas foram detidas, porém a maioria foi solta em seguida. “Não há como saber com precisão quantos universitários e professores figuraram na lista de presos, mas o número deve ter sido expressivo”, afirma Motta (2014a, p. 18).

De fato, elementos indesejáveis aos olhos dos novos detentores do poder – sobretudo os inúmeros nacionalistas que apoiavam as pautas reformistas de João Goulart – deveriam ser repelidos e, se possível, enquadrados na Lei de Segurança Nacional, de 1953. Neste contexto, “as universidades foram um dos alvos principais do projeto modernizador autoritário da ditadura”, uma vez que elas possuíam importante papel “na preparação de elites administrativas, de tecnólogos e cientistas, mas também por sua importância política, como formadoras de lideranças intelectuais” (MOTTA, 2014b, p. 83).

Perseguições a professores e estudantes das universidades ocorreram de Norte a Sul do País, em diversas instituições educacionais, sobretudo por agentes do Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de espionagem criado pelo regime militar em junho de 1964 (MATHIAS, ANDRADE, 2012, p. 542). Na primeira onda repressiva pós-golpe, muitos estudantes foram presos, assim como alguns professores universitários. Entre os docentes, houve demissões naquele momento, todavia elas se tornariam mais comuns a partir de 1969. Fato é que, após o golpe, docentes e discentes das universidades e faculdades públicas viram-se enredados burocraticamente em múltiplas sindicâncias e inquéritos determinados pelo Exército. Muitos passaram a ter suas vidas marcadas pelo medo da perseguição política e pelo temor da perda dos direitos civis; professores ‘abandonaram’ suas carreiras na educação superior, estudantes ‘desistiram’ de seus cursos superiores e alguns até mesmo deixaram o país em exílio ‘voluntário’.

Em Ponta Grossa, também ocorreram perseguições a professores e estudantes de faculdades que formariam a UEPG a partir de 1970. Detidos por autoridades militares, alguns até mesmo foram presos por supostas ações contrárias ao novo regime e suas condutas foram consideradas como ‘subversivas’. Seus nomes constam da montagem de Inquérito Policial Militar (IPM) no ano de 1964. O arrolamento que segue foi extraído de documento “Relatório” enviado ao Serviço Nacional de Informações (SNI), em outubro de 1964, a partir dos autos de IPM realizado para sondagem de supostas atividades “subversivas” no ambiente universitário da cidade de Ponta Grossa. O referido documento foi elaborado porque os dados dos “acusados” deveriam ser encaminhados para autoridade superior que daria “solução” sobre possível enquadramento dos nominados na Lei nº 1.802, de 1953, a Lei de Segurança Nacional (DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO, 1953, p. 273).

MIECESLAU ADOLFO CELINSKI – “Cirurgião Dentista e professor da Faculdade de Farmácia e de Odontologia da cidade de Ponta Grossa. Esteve na Polônia, em viagem de recreio, por ser a pátria de seus antepassados. Acusado de fazer comentários a respeito do sistema socialista na Polônia. Nada foi apurado."

SAUL JOÃO CHEMIN – “Estudante de Direito da Faculdade de Direito de Ponta Grossa, pertencia à Frente Nacionalista de Ponta Grossa, onde exerceu o cargo de 2º Secretário (…) Participou do pichamento da cidade, quando da vinda do dep. federal ARMANDO FALCÃO a Ponta Grossa. Era assinante do jornal 'Novos Rumos'."

AROLDO ANTONIO GLOMB – “Estudante de Direito da Faculdade de Direito de Ponta Grossa. Fazia parte da Frente Nacionalista de Ponta Grossa e assinou um manifesto de repulsa à vinda do deputado federal ARMANDO FALCÃO a Ponta Grossa."

RAYLTSON VITORICUS NERIA GUILHERME – “Estudante de Direito da Faculdade de Direito de Ponta Grossa. Era interessado pela propaganda da UNE e sempre procurou agitar a Faculdade de Filosofia por questões de aumento de anuidade escolar.”

RENAN MACIEL BRASIL – “Bancário e estudante de Direito da Faculdade de Ponta Grossa.”

ADILSON LUIZ CARNEIRO BAGGIO – “Estudante da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Ponta Grossa, participou de vários Congressos estudantis organizados pela UNE…”

JOAQUIM CESAR MASCARENHAS – “Estudante da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ponta Grossa.”

JOÃO DE ALENCAR BARBOSA – “Estudante da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Ponta Grossa. Colocou propaganda da UNE nas paredes do Diretório durante o período revolucionário.”

BENJAMIN MANDELMANN – “Comerciário e estudante da Faculdade de Direito de Ponta Grossa.”

LUIZ CARLOS CUNHA ZANONI – “Estudante da Faculdade de Direito de Ponta Grossa. (…) Foi membro da Diretoria da Frente Nacionalista de Ponta Grossa (Vice-Presidente). Foi um dos responsáveis pela conferência de POLÍBIO BRAGA na Faculdade.” [1]

JOSÉ KANAWATE – “Advogado e comerciante (…).  Fazia parte do Partido Acadêmico Nacionalista (…)"

EDMAR LUIZ COSTA – “Funcionário Público Federal. Jornalista, Radialista e Estudante.”

JOÃO CASILLO – “Estudante da Faculdade de Direito de Ponta Grossa. (…) Manteve contato com os dirigentes do CPC no Rio. (…). Tentou coagir o Diretor da Faculdade de Direito para apresentação do filme 'CINCO VEZES FAVELA'. Foi preso na Rádio Sant’Anna durante o movimento revolucionário.”

TARCISIO TOMAZ MAZUREK – “Estudante da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ponta Grossa. (…) Era interessado pela propaganda da UNE, sempre procurou agitar as assembleias estudantis.”

NILO FIDELIS BICHARA – “Nada foi apurado de subversivo contra o mesmo.”

FERNANDO NEWTON BITTENCOURT FOWLER – “Funcionário Público (…) Nada foi apurado de subversivo contra o mesmo (…), como Diretor da Faculdade de Direito de Ponta Grossa.”

SARMENTO DE LIMA MORGADO – “Comerciante. (…) Introduziu-se no meio universitário para desenvolver e fomentar o CPC.” [2]

CIRCE FERREIRA DE OLIVEIRA – “Estudante da Faculdade de Farmácia e Odontologia de Ponta Grossa, participou dos ensaios do CPC.”

ANTONIO DO AMARAL BRAGANÇA – “Nada foi averiguado…”

PEDRO CHAVES, ALVARO ROCHA, BAYARD RACHCEWSKI OSMA E AMAURI FADANI – “Não foram ouvidos por serem de Curitiba, onde houve inquérito semelhante e por ser de parecer que nada há que incrimine os acadêmicos BAYARD RACHWSKI OSNA e AMAURI FADANI quanto a atividades subversivas em Ponta Grossa, exceção feita ao senhor PEDRO CHAVES, que foi referenciado no presente Inquérito como atuante no Congresso de Quitandinha…”

Décadas de 1970 e 1980

Como exemplo de perseguição a professor da UEPG na década de 1970, com base na nova Lei de Segurança Nacional de 1967 (DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO, 13/03/1967, p. 2993), tem-se notícia sobre ANTONIO JOAQUIM DANTAS. Ele era titular da cadeira de Direito Constitucional da Faculdade de Direito e há menção de seu nome em ficha do SNI em que foi anotada a seguinte passagem, em data de 13 de outubro de 1977: “O professor ANTONIO JOAQUIM DANTAS, em suas aulas, tem afirmado categoricamente que a Nação não pode ser governada por uma classe e muito menos por uma minoria. Comentou o referido professor que a mocidade não deve ficar apática e precisa despertar para essa situação. O nominado responde Sindicância no âmbito da Universidade (…)."

Sobre PÉRICLES DE HOLLEBEN MELLO, que passou a integrar o corpo docente do Departamento de Geociências da UEPG em finais da década de 1970, há registros produzidos no SNI em que se anota, para o ano de 1977, ser ele “estudante de Engenharia em Curitiba” e que “participava ativamente do movimento estudantil”, com “presença em Ponta Grossa”. Ainda para este ano, registrou-se que “durante a I Assembleia Geral Metropolitana de Estudantes, realizada em 11 Mai 77, o nominado leu panfleto subversivo, sendo fotografado na oportunidade.”   Anotação de 1979 em sua ficha registra que era “membro da Cooperativa de Artes de Ponta Grossa – COOPARTE”, que editava a publicação 'O Boletim'.

Para ADERBAL DE HOLLEBEN MELLO anotou-se, em documento da Secretaria de Segurança Pública do Paraná, produzido em 10 de novembro de 1980 e enviado ao SNI, que “o fichado” fazia “parte do Departamento de Publicações do Jornal ‘Baluarte’, Órgão de Informações e Divulgação do DCE da UEPG/PR, e teve sua 1ª Edição em 03/80. Nesta Edição, [constava] um artigo intitulado 'A UPE VEM AÍ'."

Ainda no mesmo documento acima mencionado, para “levantamento de antecedentes”, foram anotadas informações sobre RAUL JOSÉ SOZIM, da UEPG. Registrou-se ter ele assinado “uma nota de Apoio ao Movimento Grevista, organizado pelos estudantes daquela localidade, sendo divulgada pela ADUPG e Associação que congrega os professores da Univ. de Ponta Grossa.”

Por fim, no ano de 1982, em data de 13 de maio, a Agência Curitiba do SNI produziu um documento no qual foram listados os estudantes que compunham o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UEPG. Eles faziam parte da chapa “Semeando”, eleita para o biênio 1981-1982 : JOSMAR DE SOUZA PANTALEÃO (Presidente); LUIZ EDUARDO GOLDMAN (Vice-Presidente); JOSIANE DE FÁTIMA WAMBIER (1ª Secretária);  JOÃO CARLOS CHIBINSKI FORTES (2º Secretário); SÉRGIO KAMOTSU BOMURA (1º Tesoureiro); e ARLETE ALVES DOS SANTOS (2ª Tesoureira).

No documento produzido pela Agência Curitiba, registrou-se que o DCE divulgava suas ideias por meio do jornal “BALUARTE”, de “linha agressiva, dedicada a matérias nitidamente contestatórias ao governo”. Ainda foi anotado que, dos diretores citados, apenas JOSIANE DE FÁTIMA WAMBIER possuía antecedentes no SNI por “ter participado do 33º Congresso da UNE, no período de 12/15 NOV. 81, em CABO FRIO/RJ, além de figurar como editor responsável pelo ‘BALUARTE’."

FONTES

BR DFANBSB V8.MIC, GNC.NNN.84005289 – atividades subversivas no meio estudantil de ponta grossa pr. – Dossiê – ARQUIVO NACIONAL, Rio de Janeiro.

BR DFANBSB V8.MIC, GNC.NNN.80000696 – Antonio Joaquim Dantas e outros. – Dossiê – ARQUIVO NACIONAL, Rio de Janeiro.

BR DFANBSB V8.MIC, GNC.NNN.82002635 – diretoria do dce fuepg ponta grossa pr. – Dossiê – ARQUIVO NACIONAL, Rio de Janeiro.

DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO. Seção 1 – 7/1/1953. Disponível < aqui > Acesso em:  03 abr. de 2021.

DIÁRIO OFICIAL DA UNIÃO – Decreto-Lei nº 314, 13/3/1967. Disponível < aqui >  Acesso em: 07 abr. 2021.

REFERÊNCIAS

KORNIS, Mônica Almeida. Centro Popular de Cultura. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro  Online. Fundação Getúlio Vargas, 2020.  Disponível < aqui >.  Acesso em: 08 abr. 2021.

MATHIAS, Suzeley Kalil; ANDRADE, Fabiana de Oliveira. O Serviço de Informações e a cultura do segredo. Varia História, dez. 2012, vol. 28, nº 48, p.537-554.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. As Universidades e o Regime Militar: cultura política brasileira e modernização autoritária. Rio de Janeiro: Zahar, 2014a.

MOTTA, Rodrigo Patto Sá. Universidades, ditadura e cultura política. INTERSEÇÕES [Rio de Janeiro] v. 16 n. 1, p. 69-89, jun. 2014b.

Notas

[1] Políbio Braga foi presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES) entre os anos de 1962 e 1963.

[2] “O Centro Popular de Cultura (CPC) foi constituído em 1962 no Rio de Janeiro, então estado da Guanabara, por um grupo de intelectuais de esquerda em associação com a União Nacional dos Estudantes (UNE), com o objetivo de criar e divulgar uma “arte popular revolucionária”. O núcleo formador do CPC foi formado por Oduvaldo Viana Filho, pelo cineasta Leon Hirzsman e pelo sociólogo Carlos Estevam Martins” (KORNIS, 2020).

JOSÉ AUGUSTO LEANDRO é professor associado do departamento de História da UEPG

Artigo originalmente publicado no site da UEPG (aqui) e republicado mediante autorização. 

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