14/04/2021 às 14h56min - Atualizada em 14/04/2021 às 14h56min

CRÔNICA: "Vidas frágeis", por Érica Busnardo

Tonho juntou um pouco de sua vida guardada na velha casa de madeira, acordou a mulher, arrumou os filhos, e partiu junto com outras pessoas atrás de uma utopia

Por Érica Busnardo
Foto: Reprodução

Seu nome é Tonho. E só. O Antônio da Cruz ficou para trás, assim como o motivo que o fez ingressar na vida mambembe. À frente, somente a preocupação com a sobrevivência, dia a dia. Recorda bem do convite recebido para largar a casa alugada de madeira, dois cômodos, tendo como piso a terra batida, na periferia da pequena cidade, já saturada de opções para a subsistência. O vislumbre de um parco pedaço de terra, onde pudesse plantar o milho, o arroz, o feijão, o fez retornar à sua infância. Pobre também, porém digna.

Lembra do pai preparando a terra com arado puxado por boi. Levava algum tempo para semear e mais outro para que os primeiros brotos da plantação surgissem. Era uma família grande, sete filhos, pai, mãe e mais uma tia muda, mais velha que a mãe e que havia sido preterida por outra moça quando estava de casamento marcado. Desde então, vivia amargurada, rancorosa com a vida. Decidiu que nunca mais falaria. Talvez por esse motivo o menino lhe contava a vida e sobre o futuro que o esperava. Sonhava ser igual ao pai, poder cultivar seu canto e casar-se com a filha da vizinha. A tia muda o escutava e, para ele, era o que bastava. Ser ouvido.

Tinha um cachorro grande que acompanhava a ele e aos irmãos até a escola. O cão já estava velho e era rodeado de moscas que lhe pousavam sobre as feridas no lombo. O vira-lata sentava-se em frente ao portão e só se levantava quando a campainha da escola anunciava o fim das aulas. Então, lá iam os meninos e o animal. A mãe acreditava que o cachorro os protegia das mazelas do mundo.

Tonho juntou um pouco de sua vida guardada na velha casa de madeira, acordou a mulher, arrumou os filhos, e partiu junto com outras pessoas atrás de uma utopia. A memória traiçoeira só o faz lembrar-se disso. Sua vida parou aí. Assim como o sonho de se tornar como o pai. Não sabe há quanto tempo entoa cantos de protestos e palavras de ordem. Nunca entendeu o significado daquilo tudo. Somente faz coro com os companheiros.

A voz de Tonho é fraca diante da multidão. Ninguém mais o escuta. Ninguém mais o protege. A vida se resumiu aos frágeis pedaços de madeiras que sustentam a lona preta do seu barraco. Tão frágeis quanto a sua vida.

ÉRICA BUSNARDO é jornalista e escritora. Clique aqui para participar da campanha de financiamento de seu livro de estreia, que conta com ilustrações do artista plástico e também jornalista Sebastião Natálio.  


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