14/04/2021 às 15h55min - Atualizada em 14/04/2021 às 15h55min

​"Cautela", destaca vice-reitor da UEPG, Everson Krum, sobre compra de vacinas por empresas

Na visão de Krum, possibilidade pode enfraquecer plano nacional de imunização, embora seja uma saída devido à apatia governamental

Da assessoria
Foto: Divulgação
Para o professor e vice-reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Everson Krum, a possibilidade das empresas comprarem vacinas contra a covid-19 para  o enfrentamento do problema no Brasil deve ser vista com cautela no atual cenário. O projeto de lei que permite tal compra foi aprovado pela Câmara dos Deputados e tramita no Senado - para Krum, que foi diretor do Hospital Universitário (HU-UEPG) por 8 anos, a medida pode enfraquecer o Plano Nacional de Imunização.

O professor destaca que, neste momento, há uma escassez mundial da vacina, até mesmo para os grupos de risco. "Há dificuldades de governos de países ricos e emergentes em conseguir imunizantes neste momento", explica Everson. Para o docente da UEPG, uma alternativa seria a união do empresariado para a ampliação da planta industrial brasileira.

"O problema brasileiro não é falta de estrutura para vacinar, mas sim falta de vacina. Por isso, uma união nacional do empresariado seria fundamental para ampliar nosso parque industrial para a produção dos imunizantes e insumos", lembra Everson. O docente da UEPG cita como exemplo a dificuldade dos Institutos Butantan e FioCruz, responsáveis por produzir vacinas no Brasil, para conseguir o ingrediente farmacêutico ativo (IFA), essencial para produção de vacinas. "Há outros institutos estaduais que com investimentos financeiros, poderiam ser grandes produtores de insumos e produtos, como o TecPar que já produz a vacina contra raiva", lembra Everson.

O projeto que trata da possibilidade de empresas comprarem vacinas por contra própria prevê que a aquisição é permitida desde que as companhias doem uma quantidade similar ao Sistema Único de Saúde (SUS) - o texto ainda será analisado no Senado Federal. "Foi uma reação do Legislativo Brasileiro à demora na aquisição de imunizantes, sendo que desde meados de 2020 já havia ofertas das indústrias farmacêuticas em programar entregas para este momento que vivemos agora", argumenta o professor.

"Infelizmente não houve ação para a compra de vacinas e agora estamos no final da fila. Como resultado, diversas entidades civis organizadas estão diretamente negociando com laboratórios, ainda sem aprovação, gerando discussões conceituais acirradas quanto ao papel do SUS e favorecimentos a determinados grupos", sinaliza Everson.

Everson Krum ressalta ainda que a lei abriria brechas para que vigaristas com falsas promessas de vacinas possam atuar no Brasil, algo parecido com aquilo que aconteceu em Minas Gerais. "Além disso, essa medida desorganiza o Plano Nacional de Imunização que tem sido liderado pelo Ministério da Saúde. É preciso pensar nesse efeito também", pondera.

Problemas em todo o mundo

Krum salienta ainda que o Ministério da Saúde tem encontrado dificuldades para finalizar os contratos de aquisição de imunizantes por indisponibilidade de produção mundial. "A União Europeia exige o recebimento das vacinas compradas e até agora não recebidas por atraso na produção e isso ocasiona um retardo na imunização da população daquele continente, com somente cerca de 5,6% de vacinados com a 1ª dose", lembra. Nos Estados Unidos, devido ao atraso em entregas, o Governo interveio nas Indústrias Jansen, transferindo parte da produção para outra gigante Merck. Tudo com o objetivo de acelerar a produção e a vacinação.

Everson cita ainda um levantamento da Universidade de Duke que aponta o Brasil como o sexto maior comprador de vacinas no mundo, com 370 milhões de doses compradas (e outras 208 milhões com opção de compra negociada). "Mas temos que lembrar que o Brasil é um continente, um país muito grande com realidades diversas e isso acaba sendo representado nos números", diz.

Investimento em ciência

Para Krum, a situação deveria ser usada como "oportunidade" para que o Governo Federal trace um Plano de Ação para desenvolvimento e investimentos em áreas estratégicas de ciência e tecnologia ligadas ao SUS e à Saúde. "Vemos agora a importância de investimento público em saúde e apoio ao Sistema Único de Saúde. Essas duas peças são fundamentais para que outros países estejam na nossa frente no combate à pandemia", destaca Krum.

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