17/04/2021 às 16h55min - Atualizada em 17/04/2021 às 16h55min

POESIA: "Tarefas de casa", por Miguel Sanches Neto

Leia 17 haicais inéditos do escritor, professor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

Por Miguel Sanches Neto
Foto: Luciane Navarro
Gênero de poesia marcado pela concisão e pela postura contemplativa diante do mundo, o haicai surgiu no Japão, por volta do século XVII. No Paraná, o gênero floresceu como frondosa cerejeira, espalhando pétalas por todos os cantos. Nomes consagrados da literatura do estado, como Paulo Leminski, Alice Ruiz e Helena Kolody, foram destacados praticantes e divulgadores da poesia de três versos. Com o escritor, professor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Miguel Sanches Neto, não foi diferente. Conhecido pelos romances históricos, Sanches Neto também teceu diversos poemas dentro do gênero asiático, chegando a publicar um volume inteiramente dedicado ao haicai, ‘Abandono’ (2003). A seguir, o escritor radicado em Ponta Grossa publica 17 haicais inéditos, que devem integrar o livro ‘O poeta sem casa’, ainda sem previsão de lançamento. 


1.
A família longe
A casa súbito
se encolhe



2.
Na mesma rua mas
em planetas distintos
– os vizinhos 



3.
Único par de sapatos
todo embolorado
Isso é ser solitário



4.
Marcando um livro
que nunca terminei
O endereço não sei de quem



5.
Tantos cadernos preenchidos
O escritor nunca acaba
as tarefas de casa



6.
A mãe queria tanto
ter ido ao enterro da filha
para fazê-la dormir



7.
Alto da serra
Para si mesmas
as flores se embelezam 



8.
Estranho jardim
Plantamos afetos
e nascem espinhos



9.
Restos de domingo
Catadores de latinhas
na colheita de alumínio



10.
– Por que sempre levas
livros para a cama?
– Eles também têm insônia



11.
Canteiro de jasmins
A rua inteira perfumada
por meu jardim



12.
Primeiras visitas do ano
Passeando pelo quintal
casal de pirilampos



13.
No pinheiro grosso
ninguém repara
Floriu o ipê roxo



14.
Em uma edição cara
leio o poeta
que não tinha casa



15.
Há décadas nos conhecemos
O cobertor de casal
ainda é o mesmo



16.
O mel silvestre
que passo na torrada
Primavera concentrada



17.
Abrindo a caixa de correio
voou a correspondência
Uma borboleta

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