13/02/2021 às 11h24min - Atualizada em 13/02/2021 às 11h24min

Crônica: "Aqui, até inferninho tem fila para idoso", por Luiz Fernando Cheres

O primeiro sintoma de envelhecimento foi a troca de planos para o futuro por planos a serem realizados imediatamente. Se demorar muito — eu imaginava —, quando isso acontecer, estarei velho

Por Luiz Fernando Cheres
Foto: Reprodução / Pexels
A desgraça foi percebida há uns três anos, e só agora eu tenho coragem de contar.

Banco lotado, pedi à mocinha uma senha para o atendimento no guichê de caixa. Rápida, ela me entregou o papel; contudo, quando olhei, percebi o engano.

— Moça, desculpe-me, eu não tenho direito ao atendimento como idoso.

Olhos surpresos, ela sorriu, deu uma piscadinha e cochichou:

— O banco tá fervendo de gente, use essa senha, ninguém vai perceber mesmo.

Devo ser o único no mundo a reclamar dessa gentileza da menina. Noutro dia, voltei ao banco e novamente ganhei a senha preferencial. Fui reclamar, mas ela se antecipou:

— Ruga, barrigona e esse cabelo, quem vai desconfiar?

— Meu cabelo branco, moça?

Ela foi de uma sinceridade comovente:

— Parece rabo de quati.

Enquanto aguardava chamarem minha senha de dinossauro, lembrei que, na juventude, como quase todos os rapazes saudáveis, eu me achava imortal. Mais ainda, eu me imaginava um piazão eterno. O futuro era distante, inatingível. Na verdade — diferente das paisagens de uma estrada —, o tempo passa em nossas vidas e nem percebemos.

E, caminhando pela vida, o jovem conhece pessoas, se encanta, se desencanta e certo dia se casa. Aí vêm os filhos, com suas fraldas, chupetas e malas de responsabilidades. Nessa época, aprendemos a não tomar o último iogurte da geladeira. Vai que a criança quer…

Revendo o passado, lembro que meu primeiro sintoma de envelhecimento foi a troca de planos e sonhos para o futuro longínquo por sonhos e planos a serem realizados imediatamente. Se demorar muito — eu imaginava —, quando isso acontecer, estarei velho.

Eu não sabia, mas já era velho.

Nem tinha 40 anos e me tornei calouro de Direito na UEPG. Na matrícula, os veteranos recepcionaram os novos com uma espécie de trote invertido, e éramos aguardados por uma mesa repleta de guloseimas. Isso sem falar nos abraços, no afeto. Porém, para mim, a atenção foi redobrada, afinal era raro um senhorzinho entrar na universidade. Como se vê, a velhice é relativa: nos meus 18 anos, um quarentão era velho; agora, aos 58, o quarentão é praticamente um bebê.

Eu ainda me achava novo, e era isso o que importava. Ao menos até chegarem as dores nas pernas, a vista cansada, e sumirem a vontade de beber todas, o riso fácil, a despreocupação, os heroicos fios do cabelo de quati. Por fim, a cereja do bolo: surge, do nada, um início de surdez.

Por delicadeza, podem me chamar de jovem, mas eu sei, estou no bico do corvo.

Sou velho, e isso tem algo de bom. Ser chamado de vovô por lindas vozes infantis é delicioso. O chato é não conseguir erguer as crianças no colo, sem que eu fique o resto da semana com dor nas costas. Ser convidado para dar opinião na qualidade de “pessoa experiente” é bom. O triste é escutar que estou ultrapassado nisso ou naquilo; e principalmente ouvir que, considerando a idade, não estou tão caduco assim.

Eu ruminava tais ideias com os olhos fechados, quando senti alguém tocar no meu ombro. Era o gentil vigilante da agência.

— O senhor está bem?

— Sim.

— Tem certeza?

— Claro.

— Se precisar de alguma coisa, fale. Uma ligação para algum neto, para algum responsável…

Nisso, para sorte do maldito vigilante, a jovenzinha do caixa chamou o meu número de senha. O atendimento foi perfeito, educadíssimo. Por querer trocar um cheque, fiquei com receio de que ela pedisse minha identidade. Mas o valor era baixo, a funcionária já me conhecia de vista e não pediu documento nenhum.

Devo ter cara de um velho quati honesto.

Tentando recuperar os fiapos da juventude, naquele dia aceitei o convite de uns amigos para uma cervejinha no boteco, à noite. Lá pelas tantas, por sugestão de um deles, fomos conhecer um local novo, recentemente inaugurado. Confesso que há anos não tenho saído muito, mas o ambiente me pareceu bem “suspeito”, embora estivesse entupido de jovens.

Fui comprar fichinhas para bebida. Eu não poderia ter feito coisa pior.

A fila era longa e lenta, mas me apareceu o mais solícito dos funcionários de casas noturnas do Brasil, e o bonito veio perguntando se eu não preferia ser atendido no balcão ao lado, antes dos outros.

— Isso seria furar fila! — eu disse.

— Negativo! Com essa idade, o senhor tem preferência!

Então isso aqui é igual ao banco! Pois juro, nunca entrarei na fila de ancião para comprar a ficha da cerveja em casas noturnas, boates, inferninhos e afins!

LUIZ FERNANDO CHERES é escritor, autor de Um Beijo Longe dos Lábios e Amar não é Preciso. Ocupa a Cadeira nº 11 na Academia de Letras dos Campos Gerais.

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