21/04/2021 às 12h37min - Atualizada em 21/04/2021 às 12h37min

​Cresce número de ponta-grossenses que buscam ajuda psicológica em razão da pandemia

Conversamos com três psicólogas e uma paciente para saber o que está tirando o sono do ponta-grossense em tempos de pandemia

Por Lucas Couto
Foto: Freepik
Forte, resistente e com muito controle sobre as emoções, Eunice Ribeiro poucas vezes fez com que os filhos a vissem chorar. Mas, assim como grande parte da população, a moradora do Jardim Gianna, em Ponta Grossa, viu esse autocontrole escapar pelas mãos durante a pandemia. O grande número de mortes, a mudança drástica na rotina e os impactos na economia estão fazendo os ponta-grossenses procurarem cada vez mais ajuda psicológica. 

Desde que a COVID-19 foi declarada como pandemia mundial, a falta de ar, a palpitação e a sensação de sufocamento se tornaram constantes no cotidiano de Eunice. Os efeitos do período resultaram em um diagnóstico de ansiedade e síndrome do pânico. "Eu nunca senti nada parecido, mas, com a pandemia, eu sentia medo de tudo, e isso acabou desencadeando todos esses sintomas", conta.

Relatos como o de Eunice se tornaram rotina no consultório da psicóloga Bianca Gomes. Bianca afirma que, desde meados de março do ano passado, quando a pandemia começou, o número de pessoas que a procuram aumentou, sendo a principal queixa a dificuldade em lidar com o momento. "A angústia e a incerteza fazem com que as pessoas tenham uma maior percepção dos seus sentimentos. A pandemia as tirou do automático, fazendo com que percebessem que as coisas não estavam bem", explica.

O medo foi uma das sensações que mais consumiram dona Eunice no período em que começou a sentir as crises. Além do medo, a psicóloga Adriana Gomes menciona que uma das principais queixas dos pacientes é a falta de esperança. Adriana observa que as pessoas esperavam por uma solução rápida que não veio e que essa frustração afetou diretamente a saúde mental. "Eles sentem que as suas vidas estão em suspensão. Falam sobre a falta de perspectiva a curto prazo e sobre um medo absurdo de morrer ou perder pessoas próximas", explica.

Eunice relata que as dores de estômago, desmaios e falta de ar surgiram à medida que o vírus se alastrava. O que se confirma nas observações realizadas por Dayane Machado, também psicóloga, nos atendimentos. Dayane comenta que o ambiente e o contexto atuais têm levado muitas pessoas a desenvolverem doenças emocionais. "Além do aumento da procura, há pacientes já demonstravam uma melhora expressiva em 2019 e que voltaram a desenvolver os sintomas com a pandemia. Alguns chegaram até a ser acometidos por novas comorbidades de ordem emocional", revela.

Relações

Cada uma das profissionais tem uma percepção própria sobre como a pandemia tem afetado a vida social e as relações dos pacientes com familiares e amigos. Para Bianca, a nova rotina intensificou o nível de estresse das pessoas, pois muitos se adaptaram acreditando que seria algo temporário, e, quanto mais se dedicam a essa adaptação, mais se desgastam, visto que estão se obrigando a lidar com um estado de coisas que está se tornando definitivo. "As pessoas perceberam a fragilidade da vida. Já não conseguem mais fazer planos. Nem passar um final de semana com a família podem mais", detalha.

Na visão de Adriana, a pandemia agravou os extremos no convívio familiar, deixando as pessoas fragilizadas e expostas a conflitos. Home office, aulas remotas e confinamento intensificaram o convívio, revelando as diferenças. Além disso, muitos se sentem sozinhos e desamparados por conta das medidas de restrição. "Alguns sentem muita falta dos encontros familiares. Outros, com a pandemia, tiveram dificuldades financeiras, perderam emprego… Tudo isso aumenta a tensão na família", avalia.

Dayane observa também que a pandemia não faz distinções. Independente da classe social, escolaridade e idade, as pessoas tiveram a vida revirada. O fato de muitas terem perdido parentes próximos faz com que as suas experiências com a ausência sejam mais difíceis. "O luto durante a pandemia, devido a todas as restrições que foram impostas, faz com que as pessoas tenham muitas dificuldades de lidar com as perdas. Tem sido, para muitos, um momento muito difícil de ser elaborado", conclui.

COMO ENFRENTAR A PANDEMIA 

A seguir, as psicólogas oferecem conselhos práticos e simples para amenizar os efeitos da pandemia sobre a saúde mental

Dayane Machado 


– Busque ajuda especializada. Lembre-se de buscar um profissional com formação e expertise na área da saúde mental. Psiquiatra e psicólogo são as melhores opções;

– Pratique exercícios físicos. Encontre uma modalidade que te traga prazer e satisfação;

– Faça coisas de que você gosta. Programe e invista um tempo longe de telas e afaste-se dos noticiários repetitivos;

– Não se preocupe com coisas que não dependem de você. Às vezes ficamos sobrecarregados e irritados porque estamos pensando e planejando coisas que não dependem apenas de nós e que dificilmente vamos conseguir controlar.

Bianca Gomes 


– Tenha consciência de que esse momento é novo para todos. Você não está sozinho. Tudo isso pode ser considerado uma oportunidade para aprender e não uma fonte inesgotável de estresse;

– Seja flexível nesse período. É um momento intenso e incomum. Estar aberto para modificações nos afazeres e na rotina pode ajudar a passar por esse tempo com maior tranquilidade;

– Observe os seus sentimentos e as suas necessidades do momento. É impossível fugir dos sentimentos e emoções. Na tentativa de evitar, o corpo e a mente respondem e demonstram de alguma forma o esgotamento.

Adriana Gomes 


– Procure organizar uma rotina. Tenha horário para acordar, para fazer as atividades domésticas, para ajudar os filhos nas atividades escolares e para realizar as atividades profissionais. Isso traz uma sensação de segurança e controle;

– Pratique alguma atividade física, mesmo que seja em casa. Isso faz bem para o corpo e ajuda a estimular a produção dos hormônios do bem-estar, que fazem bem à mente;

– Abuse da criatividade e procure fazer algo diferente, seja uma receita nova, um artesanato, um livro diferente, uma coreografia de dança com o cônjuge e/ou com as crianças… Uma das necessidades humanas é de desafio e novidade;

– Desenvolva a empatia genuinamente, oferecendo tempo de qualidade para o outro, importando-se e colocando-se à disposição para escutar e ajudar a quem você ama.

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