19/02/2021 às 09h49min - Atualizada em 19/02/2021 às 09h49min

Artigo: A universidade que a pandemia criará, por Miguel Sanches Neto

A juventude digital é a marca da universidade em situação pandêmica. E este é um grande legado, que reestruturará o processo de ensino-aprendizagem

Por Miguel Sanches Neto
Foto: Aline Jasper / UEPG
Na estrutura complexa que é uma universidade, em que há uma convivência de múltiplas gerações, desde os professores decanos até adolescentes de 17 anos que estão entrando nos cursos, o domínio de novas tecnologias sempre foi um problema a ser vencido. Muitos de nós, professores, somos apegados a metodologias tradicionais, nas quais nos formamos, e que mantemos vivas porque elas cumprem um papel formador seguro. Mas isso criava uma distância tanto com os professores mais jovens ou mais inquietos quanto com nossos alunos.

O fato é que a universidade com estas temporalidades em conflito sofreu uma súbita aproximação. Com a pandemia, a necessidade de ministrar aulas remotamente obrigou o corpo docente de nossas instituições a buscar ferramentas tecnológicas contemporâneas para continuar desempenhando o seu trabalho. E isso, que causou instabilidade em um primeiro momento, porque exigiu de todos uma reflexão sobre o seu próprio fazer pedagógico, teve um impacto impensável em uma situação de normalidade. Cada um buscou se inserir nas tecnologias, mudou suas estratégias de ensino, repensou seus conteúdos, reformulou seus planos de aula e redefiniu programas a partir das particularidades dos novos suportes.

Nunca antes ocorreu na história da civilização um esforço de várias gerações de se comunicarem com os jovens e seus ambientes digitais quanto nesta época de pandemia. Com isso, somos todos, hoje, no meio universitário, contemporâneos de nossos alunos. Esta juventude digital é a marca da universidade em situação pandêmica. E este é um grande legado, que reestruturará o processo de ensino-aprendizagem e que terá consequências benéficas a curto prazo.

Uma destas mudanças está na superação da distância entre as universidades do interior e as dos centros econômicos. Os fóruns e outras formas de encontros acontecem em um espaço virtual que não está mais limitado geograficamente. E o professor, antes figura solitária no quadrilátero de seu espaço de ensino, conta agora com a possibilidade de convocar a contribuição de outros profissionais, tanto do meio acadêmico quanto do mundo profissional, e isso é outro ganho substancial não só por trazer conteúdos novos, mas por desfazer a ideia de um professor que domina sozinho uma visão sobre um tema. As aulas se fizeram mais colaborativas, colocando os alunos em uma experiência de multiplicidade de visões.

Outra questão positiva das aulas remotas foi permitir que nossos alunos, antes com horário fixo, pudessem construir seus planos de estudo, o que beneficia principalmente quem trabalha, agora menos prejudicado pela cobrança da presença física em sala de aula.

Também merece destaque o exercício de autonomia da aprendizagem, rompendo com um paternalismo conteudístico focado na matéria “passada” pelo professor, o que transfere o centro do processo todo para a capacidade do indivíduo de buscar por conta própria o conhecimento.

Não são pequenas estas mudanças, que levarão a uma outra universidade no pós-pandemia, muito mais dinâmica e muito mais inclusiva, se conseguirmos fornecer equipamentos e internet (tal como estamos conseguindo) a alunos economicamente mais fragilizados. Seremos, com certeza, uma universidade híbrida, em que a presença de professores e de alunos estará mais vinculada a atividades práticas, a encontros para debates e a momentos de criação coletiva. O modelo de aulas teóricas focado no “dono” do saber sofrerá uma superação, para fazer cada vez mais do professor universitário uma espécie altamente qualificada de coach, alguém que orienta processos individuais de aprendizagem.

Não se pode pensar, portanto, as atividades de ensino na universidade na mesma perspectiva dos níveis de ensino anteriores. As aulas remotas chegaram para ficar como uma forma ativa de autonomia formativa. Ainda estamos nas fases iniciais desta atualização pedagógica, que começou forçada, mas que continuará espontaneamente, pois vamos ajustar estas possibilidades antes impensáveis para construir cursos com uma nova configuração programática e com um novo calendário, muito mais flexível.

MIGUEL SANCHES NETO é escritor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

Notícias Relacionadas »