24/04/2021 às 14h47min - Atualizada em 24/04/2021 às 14h47min

CRÔNICA: "A descoberta de nosso endereço no universo", por Renato van Wilpe Bach

Há vários superaglomerados de galáxias já identificados, mas, pela primeira vez, identificamos o nosso próprio endereço, aquele do qual somos parte

Por Renato van Wilpe Bach
Foto: Pexels
Laniakea, “universo imensurável” em havaiano, é um conceito relativamente novo para a ciência, definido apenas em 2014, a partir de dados coletados de oito mil galáxias próximas à Via-Láctea. Trata-se da descoberta, assombrosa, do verdadeiro formato do universo ao nosso redor. Estranhamente, só há pouco tempo o assunto chegou à imprensa leiga e às redes sociais.

Um somatório de vários avanços tecnológicos possibilitou essa compreensão avançada, multidimensional, da estrutura da vizinhança cósmica: telescópios de vários tipos, inclusive orbitais, avanços em supercomputadores e análise de megadata, cooperação científica internacional.

Galáxias são conjuntos enormes de estrelas, ou melhor, de sistemas solares, que se estendem por centenas de milhares de anos-luz (a nossa, chamada de Via-Láctea, tem 150 mil anos-luz de diâmetro e 400 bilhões de estrelas, por exemplo). A evolução dos instrumentos óticos com que observamos o universo nos permite estimar um número similar de galáxias no universo (200 bilhões), ilustrando a magnitude de números e distâncias com que os astrônomos e astrofísicos lidam em seus estudos, quase inconcebíveis para nós, leigos. 

Subindo essa escala, precisamos imaginar, então, que podem haver aglomerados de galáxias, que, quando concentrados, podem formar ainda superaglomerados, estruturas gigantescas que ocupam vastidões do espaço conhecido. 

Laniakea é um dos dois superaglomerados identificados em 2014 pela equipe da Universidade do Havaí, sendo o outro chamado de Perseu-Peixes. O que os diferencia? O sentido do movimento das galáxias, inverso, em cada um dos superaglomerados direcionado ao seu próprio ponto de atração, apelidado de Grande Atrator. Há vários superaglomerados já identificados, mas, pela primeira vez, identificamos o nosso próprio endereço, aquele do qual somos parte. 

Obviamente apenas triscamos o vasto conhecimento que poderá advir desta descoberta. Trata-se do que alguns chamariam de “ciência pura”, sem objetivo prático imediato, voltada apenas para a compreensão do universo, coisa que o leigo pode achar uma grande bobagem, mas que é definitivamente a matéria bruta de que é feita a ciência. 
É da observação racional do mundo e do universo, fragmentada, incompleta, por vezes levando a resultados intrigantes, desafiadores ou até incompreensíveis, que se constrói o conhecimento humano, para o bem ou para o mal. Do estudo, apenas teórico por décadas, das propriedades do átomo, obtivemos no século XX, por exemplo, tanto uma arma de destruição maciça (a bomba atômica) quanto uma fonte de energia limpa e sustentável (a energia nuclear, tão incompreendida quanto segura e de pouco impacto ambiental) – algo com que Dalton, Bohr ou Rutherford não conseguiriam sequer imaginar. 

Não podemos prever que tipo de benefício nos trará o mapeamento do universo próximo, quando apenas começamos a conhecê-lo. Mas nos entregamos, rendidos, à ideia de imensidão que se revela, absolutamente desnorteante, assustadora, por entregar nossa mísera pequenez. 

Um dia, talvez, de posse deste “mapa”, possamos nos aventurar, corajosamente, indo onde ninguém jamais esteve, como fizeram os nossos antepassados ao cruzarem oceanos infinitamente menores, ou os nossos contemporâneos que pisaram na lua ou passam temporadas em órbita da Terra. Para tanto, antes de tudo, precisamos aprender a não nos destruir. 


P.S. A pandemia tem mostrado que o conhecimento científico não vem de graça nem instantaneamente, muito menos traz consigo verdades irrefutáveis. A ciência não é perfeita, inclusive, nem mesmo se realizada com esmero e honestidade. Mas é a melhor ferramenta que temos para observar, aprender e transformar a realidade.

RENATO VAN WILPE BACH é médico, professor e escritor residente em Ponta Grossa

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