26/04/2021 às 20h45min - Atualizada em 26/04/2021 às 20h45min

Estátua de PG pode ter inspirado capa de clássico do heavy-metal. Será?

Depois de falar com várias fontes, conseguimos conversar com a única pessoa que poderia desvendar o mistério

Por Rafael Guedes
Foto: Reprodução / NCG.news
Fãs de heavy-metal e pessoas ligadas às artes plásticas no município de Ponta Grossa já conhecem a lenda. Conta-se que a estátua que estampa o álbum 'Angels Cry', lançado em 1993 pelo cultuado grupo brasileiro de power-metal Angra, tenha sido inspirada em uma estátua que enfeita um túmulo localizado no cemitério São José, na região central da cidade. 

A artista visual e professora de desenho Rute Yumi, moradora de Ponta Grossa, conta que foi uma aluna que lhe chamou a atenção para o assunto. "Há duas possibilidades. Alguns dizem que a estátua do álbum e a estátua de Ponta Grossa seriam réplicas de um mesmo modelo, e outros dizem que o grupo veio para a cidade, conheceu a estátua e se inspirou nela", conta.

Em geral, as opiniões se dividem entre essas duas opções. No entanto, uma pessoa que trabalha no cemitério, que prefere não se identificar, traz uma nova luz à questão. Em conversa com o 'NCG', essa pessoa conta que, "mais ou menos na década de 90" – justamente na época do lançamento do disco –, um grupo de "metaleiros" de uma "banda importante" realmente esteve no cemitério e tirou fotos exatamente da tal estátua. 

"Eles estavam todos de preto e eram cabeludos. Teve até uma agitação aqui por causa da visita dos artistas. Eles subiram nos túmulos próximos para tirar fotos da estátua, fizeram poses", relata a testemunha, que não sabe dizer o nome do grupo nem a data exata que ele veio a Ponta Grossa. 


Relação 

Para deixar tudo ainda mais intrigante, o guitarrista ponta-grossense Nhanha Anhaia, da banda Shadow Mask, observa que o primeiro vocalista do Angra, André Matos, morto em 2019, tinha uma relação muito profunda com o município.

Apesar de acreditar que tudo não passe de um "mito", Anhaia lembra que Matos veio a Ponta Grossa por volta de 1991 – cerca de dois anos antes do lançamento de 'Angels Cry', portanto – com a sua primeira banda, o Viper. Além disso, o vocalista voltaria à cidade várias vezes naquela década, já com o Angra. 

Parceiro de Matos no Viper, o jornalista e guitarrista Felipe Machado, em conversa com o 'NCG', não confirma nem desmente a possível inspiração local para a capa do álbum. "Lembro muito de Ponta Grossa. Tocamos muitas vezes aí. Mas, em relação a essa questão da capa, eu não sei informar", observa. 

De qualquer forma, as inúmeras passagens de Matos pela cidade, seja com o Viper, com o Angra ou em carreira solo, mostram que Ponta Grossa não era desconhecida para o cantor e para os demais integrantes da banda. Muito pelo contrário.  


Diferenças 

Uma parte dos fãs do grupo, no entanto, defende que a estátua que inspirou a capa é uma que se encontra no Cemitério da Consolação, na cidade de São Paulo (SP) (veja abaixo).

Rute discorda. Com o seu olhar apurado de artista, ela observa que a inclinação do corpo e do rosto está diferente na estátua de São Paulo. Na opinião da professora, a estátua de Ponta Grossa é muito mais semelhante à estátua da capa. "Mas pode ser bairrismo meu", brinca. 

Vale notar ainda que, na estátua de São Paulo, a figura está com uma das pernas levemente dobradas, enquanto na estátua da capa e na de Ponta Grossa ela está com as pernas retas. Veja: 



Compare: 


A solução

Depois de falar com várias fontes, a reportagem do 'NCG' finalmente conseguiu conversar com a única pessoa viva que poderia desvendar o mistério: o artista plástico Alberto Torquato, criador da capa de 'Angels Cry' e de muitos outros clássicos do heavy-metal. 

Torquato explica que a estátua da capa não foi baseada nem na estátua de Ponta Grossa, nem na estátua do Cemitério da Consolação, mas, sim, em uma estátua localizada no cemitério São Paulo, situado na rua Cardeal Arcoverde, na capital paulista. 

Segundo o artista, ele se baseou em fotografias tiradas pelo próprio André Matos, que pediu para que a origem das fotos nunca fosse revelada, a fim de evitar "comentários bobos". "O anjo de Ponta Grossa é muito parecido. Talvez seja do mesmo autor do anjo que está no cemitério São Paulo", conclui Torquato. 

Mistério aparentemente resolvido. Frustrante tanto para o 'team' Cemitério da Consolação quanto para o 'team' Ponta Grossa. Mas uma questão ainda persiste: qual será aquela "banda importante" de "metaleiros" que tirou fotos justamente daquela estátua no cemitério São José, em Ponta Grossa, "mais ou menos na década de 90"? 


Choro dos anjos 

Lançado em 1993 no Japão e em 1994 no resto do mundo, o álbum de estreia do Angra, 'Angels Cry', é considerado um dos trabalhos mais importantes do heavy-metal. Gravado na Alemanha entre julho e setembro de 1993, o álbum traz a faixa "Carry On", até hoje a música mais conhecida do grupo. 

Um dos sites mais rigorosos do mundo da música, o americano 'All Music Guide' (AMG) deu ao álbum nada menos que quatro (o máximo é cinco) estrelas. Na crítica, o AMG afirma que o trabalho é uma "brilhante exibição de power-metal progressivo"; que a voz de André Matos é "incomparável"; e que o grupo é formado por músicos "anormalmente talentosos". 

Independente de a capa de 'Angels Cry' ter sido inspirada em uma estátua de Ponta Grossa ou não, o álbum é uma obra-prima que merece ser usufruída por todas as pessoas boas do ouvido. Confira:



 
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