27/04/2021 às 08h45min - Atualizada em 27/04/2021 às 08h45min

CRÔNICA: “Boas-vindas na UEPG”, por Miguel Sanches Neto

Escritor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) inicia série de crônicas sobre a sua trajetória na instituição

Por Miguel Sanches Neto
Foto: Divulgação
O Pequeno Auditório do Campus Central estava cheio, mais de uma centena de professores e professoras assumiam naquele primeiro de março de 1993 vagas efetivas na Universidade Estadual de Ponta Grossa. Para nos receber, apareceu o engenheiro civil Roberto Frederico Merhy, vice-reitor, figura agradável, boa conversa, um verdadeiro conquistador. 

Esperávamos as boas-vindas. 

Na mesa, a equipe de gestão.

Eu me sentei na última poltrona, todas eram de um design moderno que dava algum glamour ao local, e ouvi a informação meio constrangido. O concurso não tinha autorização do governo e seríamos contratados como professores temporários, até a regularização das vagas.

O silêncio no auditório foi grande. 

Todos estávamos ali em um começo de vida. Eu tinha 28 anos, acabara um mestrado em Letras na Universidade Federal Santa Catarina, e Juliana, minha amada companheira desde a adolescência, saíra de uma escola particular onde lecionava por diminuição do número de alunos. Deixáramos Curitiba, nossa casa recém-construída num bairro distante, Barreirinha, na rua Professor Leonardo Cobbe, e estávamos de mudança para Ponta Grossa, onde não contávamos com nenhum conhecido.

– Alguma pergunta? – o vice-reitor queria concluir rapidamente a reunião.

Os novatos, com medo de exposição, preferiram não se manifestar. Não teríamos perdas, pois à época, o professor efetivo raramente recebia o adicional de Dedicação Exclusiva e os colaboradores ganhavam o mesmo valor.

Então me levantei. 

Há algum efeito cênico no ato de se levantar para que haja uma efetiva tomada da palavra.

– Pensei que essa universidade fosse séria. Coloquei à venda minha casa para vir para cá, para ocupar uma vaga de professor efetivo.

O Presidente da Comissão de Concursos, professor Daniel Albach Tavares, ex-reitor (1978-1983), com quem eu já tinha tido pequenos atritos e de quem me tornaria grande amigo, virou-se para mim – estava sentado na primeira fileira – e me olhou com raiva.

O professor Merhy falou então que ele mesmo era do Rio de Janeiro, e fora bem-recebido na cidade, que não me preocupasse, a instituição era séria, sim. Ele garantia que nós, que passamos num concurso público, não teríamos diminuídos os nossos direitos. Que eu vendesse minha casa em Curitiba. Era agora professor da instituição.

Foi assim que começou o meu primeiro dia de trabalho na UEPG, universidade à qual hoje posso servir como reitor, com a missão de honrar uma história construída por gerações.

MIGUEL SANCHES NETO é escritor, professor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) 

Notícias Relacionadas »