27/04/2021 às 11h07min - Atualizada em 27/04/2021 às 11h07min

CRÔNICA: "O xixi do imperador", por Rogério Lima

Meu dedo correu o mapa, tocando em pontos prováveis nos quais o imperador poderia ter feito xixi

Por Rogério Lima
Foto: Reprodução
O imperador D. Pedro II visitou a Província do Paraná em 1880. Sua Alteza e a imperatriz Tereza Cristina desembarcaram em Paranaguá. Depois foram a Antonina e Morretes antes de subir a serra rumo a Curitiba. Da capital, a comitiva imperial seguiu para Campo Largo. Mas é depois de completar a subida da Serra de São Luiz do Purunã, nos contrafortes da Escarpa Devoniana, já nos Campos Gerais, que começa a parte mais deslumbrante da visita do imperador à Província.

Mês de maio, outono chuvoso, neblina suspensa e a lama atolando os rodados das carruagens. Nas cabines, imperador e imperatriz, bem como demais nobres da comitiva, vestiam seus camisolões brancos de algodão a fim de evitar respingos em seus trajes. Vez por outra, estimulados pelos solavancos das estradas, as paradas serviam para um salutar esticar de pernas e um alívio para as bexigas, nobres e plebeias.

Dias após ler sobre a visita do imperador, ouvia “Trilhos Urbanos”, música de Caetano Veloso, quando ele canta: “No cais de Araújo Pinho / Tamarindeirinho / Nunca me esqueci / Onde o imperador fez xixi...”. Indaguei meus cadarços do tênis: ─ Onde o imperador fez xixi aqui, nos Campos Gerais?

Com o mapa em mãos, fui traçando com a ponta dos dedos o trajeto da comitiva pelas antigas estradas da Província. De Campo Largo até a localidade de Tamanduá, a possibilidade era de a parada ter sido próxima à antiga capela. Porém, o imperador profanaria as cercanias do templo religioso, mesmo com sua urina real? Talvez a primeira parada para o alívio dos membros da comitiva tenha sido nas imediações da portentosa ponte de pedra sobre o rio dos Papagaios, local mais aprazível para Sua Alteza desfazer-se do líquido retido na bexiga.

Meu dedo correu o mapa, tocando em pontos prováveis nos quais o imperador poderia ter feito xixi. Na passagem do rio Tibagi entre Palmeira e Ponta Grossa? Antes ou depois de cruzar o rio Pitangui, entre Ponta Grossa e Carambeí? Logo após a recepção em Castro, nas proximidades da Chácara Bailly? Na ida à Lapa, na passagem da corredeira do Caiacanga, em Porto Amazonas?

Nenhum registro nos diários de viagem, nenhuma plaquinha indicativa.

A dúvida e a decepção remetem a questionamentos outros, embora ainda fisiológicos, sobre os alívios de Sua Alteza. Não fosse pela profusão do banal xixi, aqui e ali, com o devido perdão à escatologia, os locais em que o cocô imperial foi ao solo mereceriam ou não placas de identificação para a visitação pública como atrativos dos Campos Gerais?

ROGÉRIO LIMA é empresário, redator e radialista residente em Palmeira 

Esse texto faz parte do projeto 'Crônicas dos Campos Gerais', promovido pela Academia de Letras dos Campos Gerais (ALCG). Para participar, clique aqui

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