29/04/2021 às 07h45min - Atualizada em 29/04/2021 às 07h45min

CRÔNICA: "O vulcão da Vila Cipa", por Mário Sérgio de Melo

Um belo dia, os dois professores receberam telefonema de um morador da cidade relatando um estranho fenômeno: brotava fumaça e fogo da terra, parecia um vulcão

Por Mário Sérgio de Melo
Foto: Freepik
Aconteceu há tempos, há mais de vinte anos, talvez mais de trinta. Quem contou o caso foi um dos atuais decanos do departamento de Geociências da UEPG, e quem contou a ele foram dois professores já aposentados há mais de dez anos. 

Conta-se que, um belo dia, esses dois professores, geógrafos, receberam telefonema de um morador da cidade relatando um estranho fenômeno: brotava fumaça e fogo da terra, parecia um vulcão, mas era mais calmo, fumegava lentamente, não era dado a erupções, explosões e derrames de lava, como os vulcões que se viam na TV. 

Então os dois professores, intrigados, muniram-se de enxadas, cavadeiras, cordas, trenas, termômetro, bússola, martelo e até um extintor de incêndio e partiram para investigar o insólito acontecimento. O local ficava próximo ao Arroio Olarias, nos fundos da Vila Cipa. Lá chegando, logo encontraram o eufórico morador, que não parava de falar e fazer perguntas:

─ Onde estão os repórteres? Vocês são mesmo da universidade? O vulcão pode explodir? Vou ter de mudar-me daqui com a família?

Enfim, dirigiram-se ao local do suposto vulcão, a duas centenas de metros da casa do morador. De fato, à distância, no meio da quiçaça queimada, de uma cavidade no chão vertia um rolo de densa fumaça. Chegando mais perto, via-se dentro da cavidade, que não tinha mais que um braço de profundidade visível, o rubor das brasas de um fogo bem entranhado e bem alimentado.

Os geógrafos entreolharam-se incrédulos, mas logo se recompuseram, começaram a investigar o local e a tentar entender a razão daquele enigma. Notaram que já estavam na planície aluvial do Arroio Olarias e que, quando batiam forte os pés no chão, este tremia e produzia um baque surdo. Definitivamente, não se tratava de um solo firme.

Resolveram escavar um pouco e logo deram com um sedimento negro, finíssimo, leve e pegajoso. Examinaram-no com atenção, e deduziram tratar-se de turfa, um material orgânico comum nos fundos de vale. Então, perguntaram ao morador como acontecera o fogo que queimara a quiçaça onde estavam. Ele relatou que alguns dias antes, durante uma tempestade, um raio caíra por ali, e apontou o que sobrara de uma árvore, partida e carbonizada.

Os geógrafos voltaram a entreolhar-se, agora seus semblantes tinham substituído o ar de incredulidade pelo arisco brilho da revelação. Provavelmente aquele raio não queimara só a árvore e a quiçaça, mas iniciara também a combustão da turfa do solo, um poderoso combustível. Esse era um fenômeno relativamente comum, a combustão da turfa deflagrada por causas naturais. Já fora relatado em várias ocasiões e em vários locais do mundo.

Não chegava a ser notícia tão alarmante como um vulcão. Não ia sair nos jornais da cidade.

MÁRIO SÉRGIO DE MELO é escritor, geólogo, professor aposentado do departamento de Geociências da UEPG e membro da Academia de Letras dos Campos Gerais

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