04/05/2021 às 11h33min - Atualizada em 04/05/2021 às 11h33min

​ARTIGO: Brasil, a terra dos homens cordiais, por Daniel Frances

Muito falada e pouco compreendida, a expressão “homem cordial” não se refere à virtude, mas expressa exatamente o contrário

Por Daniel Frances
Foto: Reprodução
Tanto se fala nesta expressão, “homem cordial”, e em outras similares, como “homens de bem”, que às vezes me dá certa “gastura”, como diria o bom cidadão do Nordeste, onde morei durante 12 anos. “Gastura” designa um mal-estar que se generaliza porque não curtimos uma comida, e acabou virando um termo mais genérico. Está lá no dicionário do grande Aurélio Buarque de Holanda: 

GASTURA (s.f.): Sensação de mal-estar físico que causa náuseas, arrepios etc., pelas mais diversas razões (atrito de objetos, visão de coisa desagradável etc.). Ex.: “a professora arranhou o giz no quadro, e veio a gastura na hora.”

Sérgio Buarque de Holanda, primo de Aurélio, cunhou a expressão “homem cordial” em uma das mais importantes obras da literatura sociológica do país, ‘Raízes do Brasil’ (1936), para definir certo tipo de brasileiro. Nesta obra, o pai do cantor e compositor Chico Buarque explica que a cordialidade não é sinônimo de gentileza, mas, sim, uma propensão histórica à informalidade, em oposição à ética e à civilização que, seguindo as análises da legalidade racional (Max Weber), formaram a sociedade brasileira e outras mais.

O homem cordial tinha como traços a hospitalidade, a generosidade e a expansividade, necessárias e características da vida rural no período do Brasil colônia. A expressão, porém, não se refere à virtude em si, à característica dos bons modos, mas expressa exatamente o contrário. O homem cordial é manipulador, clientelista, paternalista, abraça até os seus inimigos, tem todos no limite dos seus olhos e os manipula ao seu bel-prazer, conservando-se sempre o patrão e poderoso. 

O homem cordial, segundo Sérgio Buarque de Holanda, precisa expandir o seu ser na vida social, precisa estender-se na coletividade. Não suporta o peso da individualidade, precisa “viver nos outros”. O homem cordial é, portanto, um artifício, um ardil psicológico e comportamental que está encrustado em nossa formação enquanto povo. Ele se senta ao seu lado no ônibus, ele está nos gabinetes, no poder, ele construiu o Brasil do “homem de bem”, que mata e é inocentado, que emprega e submete, que constrói atrás de sua sala o harém onde possui e domina as funcionárias. Ah, família Klein e Casas Bahia, não sei por que me lembrei de vocês... 
 
O homem cordial e de bem tem uma certa psicopatia que lhe impede de imaginar a perda da posição, o dia seguinte sem a sua existência. Vive negando o óbvio e convencendo os seus de que a ciência é falha e a vacina é maldita. O homem cordial lhe aperta a mão todos os dias. O seu sorriso amarelo, sem graça e cheio de frases politicamente incorretas, se perpetua. O mundo dele precisa de você, pois sem você a cordialidade morre. Você é a peça central da engrenagem. Ou se entrega ao seu abraço ou lhe vira as costas e muda a história deste país e do nosso futuro.

DANIEL FRANCES é historiador e psicanalista 

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