06/05/2021 às 07h44min - Atualizada em 06/05/2021 às 07h44min

ARTIGO: A importância econômica, social e cultural do rock para PG, por Daiani Martins

A cena cultural desenvolve o município social e economicamente, abrangendo diversos setores em prol de uma mesma causa

Por Daiani Martins Machado
Foto: Divulgação
“Temos fome, fome de tudo. Fome, fome do mundo. Assim eu sou, um saco sem fundo. Assim eu vou, sem medo do escuro”. Com esse trecho, a banda ponta-grossense Cadillac Dinossauros entoa o refrão da música “Fome”, do álbum de mesmo nome lançado em 2016. Pode parecer provocação, e é. As pessoas realmente têm fome de tudo. De comida, diversão e cultura. E a cena musical do rock em Ponta Grossa também sente essa fome e produz o alimento, pois promove não apenas a cultura, mas auxilia no desenvolvimento social e econômico do município.
 
Ponta Grossa, com os seus mais de 300 mil habitantes, é considerada uma cidade repleta de belezas naturais, atrativos turísticos e muita cultura. Durante todo o ano, é possível participar de eventos capazes de envolver diferentes públicos e que promovem o contexto cultural local. Mas não apenas isso. A cena cultural desenvolve o município social e economicamente, abrangendo diversos setores em prol de uma mesma causa. Entre elas, é possível citar a cena rock’n’roll da cidade, composta não apenas pelos músicos, mas também por produtores, profissionais de apoio técnico, pelo comércio, pela mídia e pelo público.
 
A cena é tão reconhecida e relevante que tem o seu próprio festival, o Sexta às Seis. O evento é realizado no Parque Ambiental, localizado ao lado do Terminal Central, permitindo que todos que passam pelo espaço possam conferir os shows sem pagar nada. Além deste, pode-se mencionar o Festival de Música, os eventos promovidos pelos motoclubes e as apresentações em bares e demais estabelecimentos. É a cena acontecendo, mostrando-se, promovendo a cultura e a socialização, e também movimentando a economia. A criatividade e os talentos individuais, portanto, são motores para o desenvolvimento de uma sociedade.
 
Pode-se dizer, então, que as bandas são empresas, pois nelas é possível encontrar os quatro elementos jurídicos da atividade empresarial: recursos humanos, capital, insumos e tecnologia. Esses elementos se dispõem entre as atividades dos músicos, permitindo que eles possam realizar os seus trabalhos com o auxílio de outros profissionais, como equipes de apoio da banda, agências de publicidade, assessorias de imprensa, técnicos de som, produtores, profissionais de logística, entre outros.

O marketing também se faz importante para as bandas, que precisam se aproveitar de diferentes meios de comunicação para fidelizar e angariar o público. Com a queda na compra de mídias físicas (CDs, discos) e o aumento no consumo digital, os músicos reconhecem a necessidade de terem os seus trabalhos no mundo virtual, nas plataformas de música, nas redes sociais. Aliar a tecnologia às atividades criativas potencializa não apenas a produção, mas também a distribuição, possibilitando o acesso a um maior número de pessoas. E ainda há de se mencionar o fato de essas bandas gerarem receita. Os shows, os produtos (camisetas, canecas, adesivos, chaveiros, cervejas etc), os editais de fomento e, também, o retorno das visualizações nas plataformas digitais são fontes de arrecadação financeira dos artistas.

 
Entre os exemplos que reúnem os elementos de atividade empresarial, está o trabalho realizado pela banda West Hill em seu novo álbum, ‘Rock’n’Bubble’. Preocupados com a divulgação do material, os músicos procuraram uma equipe de apoio, que realizou a distribuição nas plataformas digitais, fez um planejamento de conteúdo para as redes sociais, organizou as publicações para engajar os fãs e inscreveu a West Hill em editais promovidos pela Fundação Municipal de Cultura (FMC). Ainda, a banda procurou um serigrafista local para a confecção de suas camisetas, que passam a ser comercializadas em uma loja famosa de artigos de rock’n’roll do município. Logo, a iniciativa é capaz de movimentar a economia local, promove a interação entre / com a própria cena e com a sociedade em geral, e propicia a interação entre diferentes setores.
 
Entretanto, a população nem sempre reconhece a importância da cena nos seus mais diversos aspectos. Cabe às iniciativas pública e privada viabilizarem ações que demonstrem esse significado de que a cultura é uma forma de promoção social. Eventos como o Sexta às Seis são fundamentais para que os músicos apresentem os seus trabalhos, mas ainda falta na comunidade a percepção de que essa atividade é um trabalho que requer esforços como qualquer outro. Os artistas não trabalham apenas no período que estão no palco. São horas de estudo, de ensaio, recursos empregados para a compra de equipamentos e instrumentos, investimentos em marketing, transporte etc. À vista disso, a educação cultural, a conscientização da sociedade se faz por meio de ações que promovam os talentos individuais e que façam com que todos percebam a importância desses profissionais.
 
Cachê não se negocia. É o preço calculado pelo profissional criativo para cobrir os seus gastos, pagar as suas contas e ter uma porcentagem para guardar. Ao pagar para assistir a um show de uma banda de rock autoral da cidade, o público está não apenas incentivando um músico, mas remunerando-o pelo seu trabalho e fazendo parte da cena e da Economia Criativa. Compartilhar o vídeo novo de um artista que você conhece auxilia-o a levar o seu trabalho para outros públicos. Participar de uma 'live' do músico que não pode fazer shows é contribuir para o seu engajamento nas mídias e, consequentemente, atingir mais pessoas. A colaboração entre diferentes setores, a educação e conscientização social, a organização e o planejamento das bandas sendo vistas como empresas são pontos capazes de fazer com que a cena do rock em Ponta Grossa não se mantenha apenas viva, mas que ultrapasse os limites do município.
 
DAIANI MARTINS MACHADO é formada em Comunicação Social – Jornalismo (UEPG) e Direito (UEPG), especialista em Direito Digital e Compliance, mestre em Ciências Sociais Aplicadas (UEPG) e consultora em Economia Criativa, Comunicação/Divulgação e Propriedade Intelectual para artistas.

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