07/05/2021 às 14h48min - Atualizada em 07/05/2021 às 14h48min

ARTIGO: Por que é necessário priorizar pessoas com comorbidades?, por Elisangela G. Montes

Mais de 17 milhões de pessoas com doenças preexistentes começam a ser vacinadas a partir deste mês em todo o Brasil

Por Elisangela Gueiber Montes
Foto: Reprodução
Recentemente, o estado do Paraná recebeu a primeira remessa para que os grupos de pessoas com comorbidades passem a ser vacinados contra a COVID-19. Segundo a Agência de Notícias do Paraná, o estado possui 1.328.677 pessoas com comorbidades, gestantes e puérperas, todos de 18 a 59 anos. O estado também conta com 400.682 pessoas com deficiência permanente grave. O objetivo é vacinar de forma gradativa toda essa população-alvo, como forma de reduzir complicações e óbitos relacionados à doença entre essas pessoas.

No entanto, alguns questionamentos têm surgido sobre a real necessidade da vacinação prioritária para esses grupos. Muitos indagam sobre a existência de maiores riscos de agravamento da doença nesses indivíduos e sobre os possíveis motivos para que ocorram complicações.

Como forma de resposta a esses questionamentos, é possível citar dados fornecidos pela Secretaria de Estado da Saúde (Sesa). Segundo o boletim epidemiológico do último dia 5 de maio, 63% das hospitalizações relacionadas à doença são de pacientes que apresentaram algum fator de risco ou comorbidade. Além disso, chama a atenção outro dado no mesmo boletim, no qual se observa que 78% dos óbitos confirmados no estado até o momento foram de indivíduos com um ou mais fatores de risco associados. Dentre esses óbitos, as três condições mais frequentes foram: doença cardiovascular crônica, em 44,7% dos indivíduos; diabetes mellitus, em 29,94%; e obesidade, em 11,8%.

Dentre as patologias que podem ser consideradas de risco para a COVID-19 e que colocam alguns indivíduos no grupo prioritário para a imunização neste momento, algumas estão envolvidas com complicações relacionadas a um acréscimo no processo inflamatório da doença, o que pode resultar em maior formação de coágulos e risco de trombose. Essas complicações podem agravar o quadro de pessoas com diabetes, doenças cardiovasculares e obesidade, por exemplo. 

Outras situações, como a quimioterapia em pacientes com câncer, o uso de corticoides em altas doses em pacientes com doenças reumáticas, ou ainda imunodeficiências como a AIDS podem comprometer a resposta imunológica do indivíduo, de forma a predispor a um agravamento da doença pelas dificuldades que o sistema imune encontraria ao combater o vírus. Além disso, esses fatores também podem provocar infecções secundárias, causadas por bactérias, que podem surgir de forma simultânea à COVID-10. Pessoas que passaram por transplante de medula ou de órgãos estão igualmente predispostas ao mesmo tipo de suscetibilidade, pois utilizam medicação que pode reduzir a resposta à infecção.

Dessa forma, tendo em vista os riscos de agravamento da doença em cada uma das situações, por determinação do Ministério da Saúde e seguindo o Programa Nacional de Imunização, mais de 17 milhões de pessoas com doenças preexistentes começam a ser vacinadas a partir deste mês em todo o Brasil, conforme tabela ao fim deste artigo.

Existe uma orientação para que pessoas deste grupo, que são atendidas pela rede particular de saúde, tenham em mãos, no momento da imunização, uma comprovação de sua comorbidade. No Paraná, o Conselho Regional de Medicina (CRM) disponibilizou, em seu site, uma declaração de comorbidades, que deverá ser preenchida pelo médico e entregue ou encaminhada aos pacientes que assim o solicitarem e que estejam dentro dos critérios estabelecidos para a vacinação prioritária. Já os pacientes cadastrados e atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) têm a sua situação clínica comprovada no sistema.

É importante salientar que as pessoas que fazem parte do grupo com comorbidades devem manter as doenças de base controladas e realizar acompanhamento constante com o médico, tanto antes quanto depois da imunização. 

Vale lembrar também que, mesmo com a imunização desse grupo nesta fase, deve ser levado em conta que o período mínimo para a imunidade efetiva, após a vacinação, acontece em 14 a 21 dias depois da aplicação da segunda dose da vacina. Dessa forma, mesmo vacinados, esses indivíduos deverão continuar a manter as demais medidas preventivas, como o uso de máscara, a lavagem frequente das mãos e o distanciamento social.

ELISANGELA GUEIBER MONTES é doutora em Ciências Farmacêuticas, especialista em Microbiologia e Imunologia, e professora-adjunta do departamento de Análises Clínicas da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

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