10/05/2021 às 11h49min - Atualizada em 10/05/2021 às 11h49min

CRÔNICA: O caderno de dez matérias, por Miguel Sanches Neto

Talvez esta tenha sido a maior vitória de minha vida. Enfim, um emprego, depois de anos de incertezas profissionais

Por Miguel Sanches Neto
Foto: Acervo pessoal
A primeira coisa que fiz ao voltar a Curitiba foi comprar um caderno universitário de dez matérias, apontar meus lápis, retirar na Biblioteca Pública do Paraná os livros indicados na bibliografia e começar a organizar cada um dos temas. Nesta tarefa de ler obras teóricas, buscando nelas a compreensão do literário, há uma realização intelectual de natureza íntima. Gosto de ver o caderno coberto, pacientemente, com as palavras que nascem de uma reflexão pessoal. 

Foram semanas de trabalho solitário no quarto que me servia de biblioteca. Assim, quando vim para a prova escrita do concurso da UEPG, trazia apenas o caderno, enquanto outros candidatos portavam vários volumes. 

Sorteado o tema, tínhamos meia hora para consulta, tempo suficiente para eu ler mais uma vez os meus apontamentos.

Depois, praticamente os reproduzi de memória no papel almaço com pauta.

Os concorrentes eram professores universitários experientes, que vinham de instituições particulares. Três candidatos foram aprovados na avaliação escrita e tínhamos que estar em Ponta Grossa para o sorteio do ponto da prova didática. Depois disso, era escasso o tempo para preparar a aula. Como morava em Curitiba e não tinha carro, pedi emprestado o de meu cunhado para participar do sorteio e voltar logo e me preparar para a outra avaliação.

O tema da prova era poesia lírica e escolhi abordar a heteronímia de Fernando Pessoa. Foi a primeira aula que preparei na vida para um público universitário e, quando chegou a minha vez, a sala estava cheia de professores e alunos, o que aumentou a pressão sobre o jovem mestre.

Segui a análise do conceito de lirismo cênico em Pessoa e, quando já não tinha mais o que dizer, concluí, preenchendo os últimos dois ou três minutos da aula que devia ser de cinquenta.

– Eu teria mais questões para explorar em tema tão vasto, mas acabou meu tempo. Agradeço a atenção. Etc. e tal.

– Bem, não vejo problema se você falar um pouco mais – disse um dos avaliadores.

– Obrigado, professor. Mas prefiro seguir o regulamento.

Como não tinha mais nada a dizer, e aquela frase era apenas um fecho, forcei o fim. Nos corredores, alguns professores do Departamento de Letras Vernáculas, que não eram da banca, me procuraram para dizer que a aula tinha sido muito boa.

Voltei para casa de ônibus, indo a pé para a rodoviária, pois já sabia o caminho. Dois foram aprovados. A segunda colocada com nota bem abaixo da minha.

Talvez esta tenha sido a maior vitória de minha vida. Enfim, um emprego, depois de anos de incertezas profissionais. 

Estava na minha casa na Barreirinha, organizando a vida para a mudança imediata – era fevereiro, eu tinha que entregar a documentação para assumir em março – quando alguém bateu palmas. Fui atender de chinelas e bermuda. Era a segunda colocada, com o marido, à época com um alto cargo no Governo do Estado, depois de ter sido deputado estadual não reeleito.

– Podemos falar com você?

Eu os recebi na sala simples de nossa casa de bairro, Juliana ao meu lado.

– Viemos aqui ver se vai desistir da vaga – disse minha concorrente.

Ju e eu estávamos desempregados.

– Tenho filhos em idade escolar, sou mais velha que você. Se eu não entrar neste concurso, nunca mais entrarei – ela argumentou.

Ficamos constrangidos, mas não pude praticar aquele ato de renúncia. 

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