17/05/2021 às 12h02min - Atualizada em 17/05/2021 às 12h02min

CRÔNICA: Truco, pato! Seis milhos!, por Renato van Wilpe Bach

Jogo onde a bufonaria tem seu papel, tanto quanto a sorte ou a inteligência, o truco desaparece em Ponta Grossa, incapaz de competir com as telas dos eletrônicos

Por Renato van Wilpe Bach
Foto: Reprodução
Quando criança, achava que o truco era do mal. 

Era o jogo da gritaria, dos socos na mesa, que começava, sempre, bem depois do almoço, quando os humores etílicos começavam a sobrepujar a plenitude pós-prandial dos adultos reunidos na chácara do Mayr Facci (1927-2015), lenda do basquete brasileiro, que sempre chamei de tio (era casado com a prima de minha mãe, a queridíssima tia Evelyn). 

Era lá que o “lado holandês” de minha família se reunia para as grandes festas, primos e primas, tios e tias, até as novas gerações (a minha inclusa). Se existe uma característica típica dos Facci, aliás, é a hospitalidade: as festas eram imbatíveis. 

Meu avô não gostava do truco, tampouco os tios e tias holandeses. Achavam histriônico, vulgar, mas se divertiam com a pantomima dos que jogavam, sem preconceito. Já nós, crianças, nessas horas estávamos na piscina ou jogando bola nos gramados em volta dela, e muitas vezes confundíamos as blagues com brigas, e éramos orientados a não nos intrometermos. 

Jogávamos Sjoelbak, o boliche de mesa holandês, com meu avô Jacobus van Wilpe (1905-1986) e seus irmãos e cunhados; jogávamos pebolim com os filhos do Mayrzão, mas não me lembro de jogar truco na chácara. 

Também me escapa à memória onde aprendi a jogá-lo. Sei que, ao entrar no curso de Medicina da Universidade Federal do Paraná (UFPR), logo virei habitué das “Disciplinas de Truco”, obrigatórias, cujas aulas, absolutamente informais, animavam a famosa rampa das Ciências Biológicas, no Centro Politécnico. 

O truco me acompanhou por décadas, mesmo em locais inesperados, como o Rio de Janeiro ou Manaus, onde morei. Sempre achava um parceiro. Nunca parei de jogar – exceto desde que voltei a Ponta Grossa, há 15 anos. 

O truco, verdadeiro patrimônio cultural da América Latina, é um popular jogo de cartas, de origem europeia (Espanha ou Itália?), trazido ao Brasil pelos imigrantes dos séculos XIX e XX. Aqui espalhou-se pelo sul, no contato dos paulistas com os gaúchos castelhanos, e pelas Minas Gerais, dando origem às duas modalidades mais jogadas no país, a “paulista” e a “mineira”, diferenciadas por minúcias que cabe ao leitor, se quiser, decifrar. 

Trata-se de um jogo de vaza, jogado por dois ou mais jogadores, sempre em número par, em que as cartas são paulatinamente descidas à mesa, com vencedores a cada rodada. A ordem das cartas diverge de outros jogos, subindo do quatro ao três, exclusas as cartas de oito a dez. A cada rodada, vira-se um trunfo aleatório, que valerá mais que o três, variando sua força dependendo do naipe. 

Uma rodada simples vale um ponto; pede-se o “truco” e ela valerá três pontos. O desafiado poderá sempre “fugir”, ou aumentar a aposta para seis, nove ou 12 pontos – geralmente aos gritos, batendo-se na mesa, com a teatralidade que me assustava na infância. 

Parece apenas mais um jogo de cartas, banal à primeira vista, mas se iguala ao pôquer na junção de sorte, estratégia e malícia, podendo-se, inclusive, blefar. Um jogo rico de possibilidades, onde a bufonaria tem seu papel, tanto quanto o sucesso na “mão” ou a inteligência, e onde (os paulistas e os profissionais que não me ouçam!) é permitido até “roubar”, desde que passe despercebido. Ou seja, uma aventura. 

Em torno do truco se construiu, no Brasil, toda uma cultura: termos, gírias, vocabulários, clubes, lendas e histórias. Era figura comum nos bares, nas universidades, nas rodas de amigos. 

Uma boa dupla de truco é como um casamento que deu certo, onde o casal (maior) se comunica pelos olhares, por gestos combinados e únicos, invisíveis aos olhos dos adversários. 

Uma boa roda de truco se joga com amigos; amizades e inimizades, não raro, são feitas e refeitas durante o jogo. 

Há 15 anos de volta aos Campos Gerais, imaginava encontrar aqui, ainda, muitos praticantes do velho folguedo. Ledo engano: fora dos clubes e ligas, o truco fenece, incapaz de competir com as telas, os eletrônicos, os videogames. Já não há mais sinal das rodas animadas que surgiam, espontaneamente, nos churrascos e festas, na faculdade. 

Há toda uma geração que o desconhece, que jamais experimentou a sensação maravilhosa de berrar “Truco, pato!” ou de retrucar “Seis milhos!” na orelha de quem o desafiou. Uma pena, pois, para muito além do preconceito com jogos de azar, o truco é um jogo social, que desenvolve o espírito e as amizades, não envolve apostas em dinheiro e é praticado apenas pelo prazer. 

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RENATO VAN WILPE BACH é médico, escritor e professor  

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