17/05/2021 às 15h53min - Atualizada em 17/05/2021 às 15h53min

ARTIGO: Efeito da pandemia: seria o começo da Geração Ivermectina?, por Bruno Minozzo

Não existe pílula mágica para os problemas do corpo ou da mente. Existe a correta. E essa definição somente pode ser dada pelas evidências científicas

Por Bruno Minozzo
Foto: Divulgação
Os anos 1920 foram emblemáticos na história da humanidade. O mundo, impulsionado pelos Estados Unidos da América, estava no seu auge econômico e o american way of life se tornava, de fato, um estilo de vida desejado. No entanto, em 1929, veio a maior crise já vivenciada pelo capitalismo. Muitas pessoas perderam o emprego e faliram, o que fez com que grande parte delas desenvolvesse sérios problemas emocionais. Diante da situação, e aliado ao avanço das técnicas médicas de diagnósticos, surgiram centenas de milhares de pessoas com depressão grave.

Promovido por essa nova necessidade em saúde e diante de um novo cenário que despertava interesse pelo seu potencial mercadológico, foi lançado, no final dos anos 1980, o medicamento Prozac®, que introduziu o ativo Fluoxetina na área da psiquiatria. O resultado alcançado foi além do esperado e, em pouco tempo, o Prozac® se tornou campeão em vendas e criou uma legião de “adeptos”, conhecida como “Geração Prozac”. 

Passando para o contexto atual, no final de 2019 foram registrados os primeiros casos de infecção pelo novo Coronavírus (COVID-19) na China. Em meses, uma crise humanitária se espalhou pelo planeta numa pandemia viral com antecedentes pouco conhecidos. Mais que urgentemente, iniciou-se uma busca desenfreada por medicamentos e vacinas, já que não se dispunha de medida terapêutica efetiva.

Dessa forma, muitos grupos de pesquisa, com pressa em divulgar resultados de seus estudos, publicaram informações preliminares e sem o pragmatismo necessário para se tornarem políticas públicas em saúde. Como resultado, em muitos países, incluindo o Brasil, houve incentivo para o uso de medicamentos ainda sem comprovação. 

Embalados pela cloroquina, logo diversos outros medicamentos ocuparam lugar de destaque como candidatos a solução para a COVID-19. Assim, nascia o popular “kit-covid”, composto de hidroxicloroquina, azitromicina, nitazoxanida, corticoides e, entre outros, a “coqueluche” da vez: a ivermectina. 

Com base em dados obtidos em laboratório, a ivermectina passou a ser usada como “bala de prata” na contenção do avanço da pandemia, principalmente no cenário ambulatorial. Por outro lado, muitas questões farmacológicas e terapêuticas foram ignoradas quando dessa transposição. Além disso, questões políticas, fake news e o baixo letramento em saúde da população reforçaram o crescimento de grupos apoiadores do seu uso. 

Então, vamos aos fatos. Qual é o estado da arte em que nos encontramos hoje sobre a efetividade da ivermectina no combate à infecção? Sem titubear, as recomendações são unânimes: não serve como terapia, quer seja como preventivo ou como tratamento, independente da fase e da gravidade da infecção, devendo ser usada apenas no contexto de ensaios clínicos controlados e randomizados.

Mas, então, por que a droga ainda continua a ser prescrita e usada? Essa é uma pergunta complexa de ser respondida e, com certeza, as raízes desse problema estão cravadas numa terra seca que representa a falta de incentivo e de apoio à ciência no Brasil. Como resultado, é mais fácil encontrar por aí quem já tenha tomado comprimidos de ivermectina para COVID-19 do que quem não o tenha feito. E, infelizmente, essa atitude não serviu para desafogar hospitais e unidades de atendimento dos casos de coronavírus. Mais ainda: essa forma de lidar com a pandemia abre precedentes para o mau uso dos medicamentos, quando, mesmo a ciência mostrando os caminhos, ainda assim terapias inefetivas são sustentadas. 

Nesse contexto, estaríamos diante da criação de uma nova geração, a da ivermectina? Se sim ou se não, é possível tirar algumas conclusões: não existe pílula mágica para os problemas do corpo ou da mente. Existe a correta. E essa definição somente pode ser dada pelos achados de evidências geradas por estudos clínicos.

A Geração Prozac® continua. Mas e a Geração Ivermectina, que rumo tomará?

BRUNO MINOZZO é doutor em Ciências Farmacêuticas


*Texto com conteúdo independente, sem conflito de interesse
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