17/05/2021 às 20h12min - Atualizada em 17/05/2021 às 20h12min

ARTIGO: Esboço da controversa figura de Vicente Machado, por Josué Corrêa Fernandes

O político Vicente Machado, que dá nome à principal avenida de Ponta Grossa, deixou marcas indeléveis na história do Paraná e que ainda hoje levantam polêmicas e aguçam o interesse de pesquisadores

Por Josué Corrêa Fernandes
Foto: Reprodução
Um nome que sugere profundas reflexões na história do Paraná é o de Vicente Machado da Silva Lima, que, a partir do advento da República até a data de sua morte, comandou a ala situacionista no estado. Esse homem público tem muito a ver com a cidade de Ponta Grossa, porque foi aqui, na última década do Império, que ele se estabeleceu, vendo nascer os filhos e surgindo para a vida pública ao conquistar o primeiro de três mandatos de deputado provincial pelas hostes do Partido Liberal, após malograda tentativa de se eleger vereador. 

Antes de se lançar na política, foi juiz municipal e de órfãos, e superintendente regional da educação (1884-1885). Ao deixar a magistratura, abriu escritório de advocacia na cidade, especializando-se em causas criminais. O seu nome é celebrado até hoje nas principais avenidas das cidades mais antigas do estado, como acontece, inclusive, com a Princesa dos Campos. Durante cerca de 17 anos, após o advento da República, Machado conseguiu se equilibrar na tênue gangorra do poder, distribuindo, a seu gosto, as cartas do arriscado jogo político.

Percuciente no auscultar as trovoadas e relâmpagos do mundo político-eleitoral, ferrabrás  barulhento quando a ocasião e a populaça o exigiam, Vicente Machado não pode ser definido como um simples demagogo ou como um aventureiro de ocasião: antes de qualquer coisa, era homem inteligente, de força de vontade, que não se abalava com acontecimentos adversos e que, urdindo, conspirando, passando por cima de alianças e de antigos companheiros, sempre achava o caminho certo que conduzia às fontes inebriantes do poder.

 
“Machado era um homem inteligente, de força de vontade, que não se abalava com acontecimentos adversos e que, urdindo, conspirando, passando por cima de alianças e de antigos companheiros, sempre achava o caminho certo que conduzia às fontes inebriantes do poder”

Sob a sua liderança, não permitiu que forças oposicionistas operassem com desenvoltura e liberdade, malgrado posições firmes adotadas por Generoso Marques dos Santos, João de Menezes Dória e outros poucos adversários que tiveram a ousadia de enfrentar os métodos intransigentes e, muitas vezes, arbitrários do antigo magistrado de Ponta Grossa.

Fala-se muito, por exemplo, que Machado foi um dos grandes precursores da República no Paraná e que, de viseira erguida, assumiu publicamente essa condição, ainda quando declarar-se republicano era algo pejorativo e chistoso. Alude-se, por igual, à manifestação que o mesmo teria feito da tribuna da Assembleia Provincial, declarando, sem reservas, as suas ideias republicanas. Tudo isso, porém, não encontra apoio na leitura serena e isenta dos anais da Casa Legislativa do Paraná.

Vicente Machado deve ser considerado, sem sombra de dúvida, como um dos políticos paranaenses de maior envergadura, principalmente por seu desempenho à frente do governo estadual. No entanto, como homem público que foi desde a juventude até a morte prematura, aspectos existem de sua vida e de sua personalidade que autorizam exame mais acurado, isento, objetivo, até para que sejam reescritos episódios ainda cobertos pela película da intolerância e do sectarismo. Por isso, não pode haver perplexidade quando se conclui, sob o filtro inexorável do tempo, que Machado, a par de inegáveis dotes de inteligência e de espírito de liderança, alinhavou sentimentos subalternos que não se mostravam comuns aos homens públicos da época. Falto de coerência e de lealdade muitas vezes, pusilânime em momentos cruciais e prepotente no exercício da autoridade, não foi o administrador exemplar, o político de diálogo e muito menos o salvador da República no estado do Paraná.

 
“Falto de coerência e de lealdade muitas vezes, covarde em momentos cruciais e prepotente no exercício da autoridade, não foi o administrador exemplar, o político de diálogo e muito menos o salvador da República no estado do Paraná”

Três fatos que envolvem Vicente Machado deixam algumas interrogações sobre o seu modo de proceder. O primeiro evoca a sua atuação como advogado de defesa no caso da morte da jovem carioca Corina Portugal, ocorrido em Ponta Grossa no mesmo ano da Proclamação da República. Assassinada com requintes de crueldade pelo marido Alfredo de Campos, ela é pranteada até hoje pela comunidade princesina, que nela enxerga uma intermediária de suas preces e anelos. 

Como defensor do uxoricida, Machado levantou a tese inicial de que o crime fora motivado em face de adultério de Corina com o médico e seu opositor político João de Menezes Dória. Em função disso e açulados por ele, um grupo de pessoas expulsou da cidade o também deputado provincial e suposto amante. Pouco depois, o pai de Corina, médico no Rio de Janeiro, desmontava a esdrúxula tese, apresentando cartas que lhe foram enviadas pela filha e nas quais ela denunciava seguidas ameaças de morte por parte do marido que era viciado em jogo, bebidas e meretrizes. 

 
“Como defensor do assassino de Corina Portugal, Machado levantou a tese inicial de que o crime fora motivado em face de adultério de Corina com o médico e seu opositor político João de Menezes Dória. Em função disso e açulados por ele, um grupo de pessoas expulsou da cidade o também deputado provincial e suposto amante”

Dr. Dória, que também era jornalista, defendeu-se através de jornais de Curitiba, demonstrando que nunca tivera nada com Corina e que tudo decorria de uma montagem para atingi-lo politicamente. O delito se deu no primeiro semestre de 1889, e o julgamento pelo júri popular aconteceu já sob o regime republicano, que, no Paraná, tinha em Machado e em Eduardo Marques de Campos, irmão do assassino, duas das principais lideranças. E, em Ponta Grossa, já tinha havido a natural debandada de importantes chefes políticos locais em direção ao novo regime e aos novos detentores do poder. Vários deles, inclusive, participaram como julgadores dos dois júris de Alfredo de Campos, que, absolvido, veio a se suicidar num quarto de hotel de São Paulo. Mas na cidade, ao longo de quase 140 anos, permaneceu íntegra a veneração por Corina, vítima de 32 punhaladas e mulher ultrajada pela decisão dos jurados e pela infâmia levantada pelo defensor.

O segundo fato diz respeito à participação de Vicente Machado na guerra civil federalista, que ocorreu entre os anos de 1893 e 1895. O presidente do estado, nessa época, era o castrense Francisco Xavier da Silva, que, dando-se por enfermo, transferiu o governo a Machado, que era o seu vice e que integrava as fileiras dos ‘pica-paus’, ou florianistas. Os ‘maragatos’ (revolucionários) haviam invadido o estado a partir do litoral e, comandados por Gumercindo Saraiva e pelo próprio dr. João de Menezes Dória, agora com a patente de coronel, avançavam em direção a Curitiba. Vicente Machado, no comando do governo, lançou proclamação no sentido de que haveria resistência com o sacrifício da própria vida e que as autoridades não arredariam pé da capital. Um dia depois, em 18 de janeiro de 1894, o contrário ocorreu: temeroso com o avanço dos adversários, Machado e os seus companheiros abandonaram Curitiba, deixando-a acéfala e, pela estrada do Assungui, fugiram em direção a São Paulo. 

 
“Vicente Machado, no comando do governo, lançou proclamação no sentido de que haveria resistência com o sacrifício da própria vida e que as autoridades não arredariam pé da capital. Um dia depois, o contrário ocorreu: temeroso com o avanço dos adversários, Machado e os seus companheiros abandonaram Curitiba”

Por ironia do destino, quem então assumiu o governo do Paraná foi, justamente, João de Menezes Dória, que, cinco anos antes, fora expulso de Ponta Grossa por Vicente Machado e seus correligionários. Essa obscena retirada, mais os fuzilamentos do Barão do Serro Azul e de outras cinco pessoas na Serra do Mar (atribuídos ao comandante militar da praça), constituem nódoa inapagável na história da guerra federalista.

Por fim, há o comportamento de Vicente Machado como senador, depois de terminado o conflito entre ‘maragatos’ e ‘pica-paus’, com a vitória das forças oficiais. Em 1895, logo que assumiu o Senado Federal, ele passa a manter seguidas polêmicas, principalmente com o representante do estado do Amazonas, Barão de Ladário, oficial reformado da Marinha e único militar a ser ferido por ocasião da proclamação da República, fiel que se mostrara ao velho imperador. Emergindo de uma eleição que também deixou dúvidas quanto à sua legitimidade, Machado trazia na fronte o estigma da falta de lealdade porque, embora vice-governador e ao mesmo tempo deputado integrante da Assembleia Legislativa, não concordara em ceder a vaga da disputa ao “legendário da Lapa”, coronel Joaquim Correia de Lacerda, candidato natural à Câmara Alta, homem que, na Revolução Federalista, enquanto o governador em exercício debandava às pressas de Curitiba, ficara, estoicamente, na arena de sacrifícios em que se transformara o célebre Cerco, lutando com bravura ao lado do general Gomes Carneiro e de outras figuras emblemáticas. 

 
“Travestido em salvador da República, inobstante a ação dos verdadeiros mártires que enfrentaram as cargas de cavalaria dos maragatos em Tijucas e na Lapa, o insaciável Machado adentrou ao Senado arrotando valentia e se opondo às tentativas de pacificação ensaiadas pelo primeiro presidente civil, Prudente de Morais”

O destemido coronel Lacerda, frente ao incidente, fora, então, obrigado a disputar a vaga como candidato da dissidência, perdendo, por óbvio, para o régulo que contava com o apoio explícito do “Monge de Castro” (Francisco Xavier da Silva) aboletado na presidência do Paraná e de toda a extensa rede de bajuladores, então dominando os principais postos e os poucos colégios eleitorais do estado. Operando livremente à míngua de adversários do quilate de Generoso Marques, Menezes Dória, Emygdio Westphalen, então exilados na Argentina; travestido em salvador da República, inobstante a ação dos verdadeiros mártires que enfrentaram as cargas de cavalaria dos maragatos em Tijucas e na Lapa, o insaciável Machado adentrou ao Senado arrotando valentia e se opondo às tentativas de pacificação ensaiadas pelo primeiro presidente civil, Prudente de Morais, que assumira depois de Floriano e que desejava, com urgência, a pacificação e a concórdia, depois do conflito no qual morreram cerca de 15 mil pessoas.

Ora se voltava contra o projeto de anistia, à guisa de considerá-lo limitado, ora insurgia-se contra meros vocábulos usados pelo general Inocêncio Galvão nas tratativas de paz com o general Joca Tavares, representante dos rebeldes, demonstrando nítida má vontade para com a iniciativa de apaziguamento proposta por Prudente. No parlamento paranaense, na contramão dos esforços de paz, fala, então, em pena de morte para os revoltosos e se enfurece quando Domingos Virgílio do Nascimento, republicano do grupo de Paranaguá, num ato de independência e ousadia, apresenta projeto anulando decreto firmado por Machado e que aposentara compulsoriamente os desembargadores do Tribunal de Justiça do Paraná por suposta conivência com os rebeldes. Na sequência, malgrado a radical posição de Machado, a anistia proposta por Prudente de Morais veio a ser aprovada, desarmando os espíritos e iniciando o longo caminho da reconciliação.

 
“As marcas que deixou são indeléveis e, ainda hoje, suscitam polêmicas e aguçam o interesse de pesquisadores e historiadores, porque, efetivamente, não se trata de uma pessoa comum, mas de um líder forte”

Eleito presidente do estado em 25 de fevereiro de 1904, enfrentou a célebre questão do Contestado, que uniu todos os paranaenses ao seu redor, inclusive o arqui-inimigo João de Menezes Dória, evitando que as pretensões territoriais de Santa Catarina se alastrassem por demais na região oeste do estado. Em 1906, ficou gravemente enfermo e foi à procura de recursos na Europa, passando o governo para o seu vice, dr. João Cândido Ferreira. No dia 3 de março de 1907, com apenas 47 anos de idade, Vicente Machado faleceu.

As marcas que deixou são indeléveis e, ainda hoje, suscitam polêmicas e aguçam o interesse de pesquisadores e historiadores, porque, efetivamente, não se trata de uma pessoa comum, de um homem público sem brilho próprio, mas de um líder forte, de inteligência marcante e verbo incendiário, que, a seu modo, desempenhou relevante papel na história do Paraná.

JOSUÉ CORRÊA FERNANDES é formado em Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), juiz de Direito estadual aposentado, ex-subprocurador do estado do Paraná e ex-secretário de Assuntos Jurídicos da Prefeitura de Ponta Grossa em três gestões. No âmbito literário, foi um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais (ALCG) e membro do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (IHGPR) e da Academia Maçônica de Letras (AMA). É autor de diversos livros sobre a história do Paraná e dos Campos Gerais

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