18/05/2021 às 16h17min - Atualizada em 18/05/2021 às 16h17min

Cinco perguntas para Douglas Taques Fonseca

Presidente da ACIPG fala sobre o governo de Elizabeth Schmidt, a crise do transporte coletivo, a questão do pedágio, a independência política da entidade e o governo Bolsonaro

Da redação
Foto: Divulgação
Empresário, produtor rural, dono de uma bagagem marcante possibilitada pelos seus 73 anos de vida, Douglas Taques Fonseca preside, pela segunda gestão consecutiva, a Associação Comercial, Industrial e Empresarial de Ponta Grossa (ACIPG). “Briguento”, como ele próprio se define, o “seu Douglas” é um ícone do conservadorismo local, apoiador ferrenho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e destemido debatedor dos assuntos que movimentam o município e a região. Entrevistado desta semana do portal NCG, o ruralista fala sobre o governo de Elizabeth Schmidt, a crise do transporte coletivo, a questão do pedágio, a independência política da ACIPG e o governo Bolsonaro. 

A ACIPG, em suas várias gestões, sempre teve uma posição crítica e independente em relação aos políticos e às administrações públicas municipais. Como o senhor analisa o governo da prefeita Elizabeth Schmidt? Onde o senhor acha que ela está acertando e errando?

A Elizabeth começou com muita boa vontade. Nós entendemos que ela está querendo fazer uma administração diferenciada. No caso da COVID-19, muitas pessoas criticam ela pela instabilidade de uma hora mandar fechar tudo e em outra mandar abrir. Não concordo com esse tipo de crítica, porque, quando se fala em Coronavírus, pouco se sabe o que deve ser feito. Ninguém acertou até hoje. Por isso, acho que ela se saiu bem, fazendo o que todo mundo fez. 

 
“O único problema [do governo Elizabeth Schmidt] é que muitas pessoas da administração antiga foram mantidas, e acho que isso não é bom. Tem que trocar e fazer uma mexida mais categórica”

O único problema e inconveniente é que muitas pessoas da administração antiga foram mantidas, e acho que isso não é bom. Tem que trocar e fazer uma mexida mais categórica. Mas ela bateu o pé em algumas coisas bem erradas, que estavam acontecendo, e fez que não acontecessem mais. Aqui na associação, tivemos um problema muito sério, porque nas áreas do Distrito Industrial foi aprovado um condomínio de residência. Isso é um absurdo. Quando se faz um Distrito Industrial, se faz longe da cidade, pois tem cheiro desagradável, barulho, movimento de caminhão e uma série de fatores que não combinam com cidade. 

Não pode ser permitida a construção de residência num raio perto, porque, no futuro, as residências vão começar a ser incomodadas pelas indústrias e isso vai gerar piquete e abaixo-assinado. Mas, então, as áreas vão ficar perdidas? Não. Coloca nessas faixas as indústrias menores, que não poluem e não geram problema de barulho, servindo como um amortecimento. Sai da área residencial, passa por indústrias tranquilas e vem as indústrias pesadas. Quando foi aprovada a Lei, por interesses particulares de empresários, que inclusive deu muita briga, permitindo condomínio residencial ao lado do Distrito, nós cobramos, e ela, imediatamente, cancelou tudo e acatou a nossa ideia, entre tantas outras.

 
“De forma alguma queremos pautar o que a prefeita tem de fazer, mas gostaríamos que, quando o assunto envolvesse o comércio e a indústria, ela, pelo menos, trocasse uma ideia conosco”

Estamos com um bom relacionamento com a prefeita, por enquanto, e vamos torcer para que ela continue assim, nos ouvindo e conversando conosco. De forma alguma queremos pautar o que a prefeita tem de fazer, mas gostaríamos que, quando o assunto envolvesse o comércio e a indústria, ela, pelo menos, trocasse uma ideia conosco, para não termos problemas no futuro.

O senhor falou de decisões tomadas pela prefeita, em função da pandemia, e uma delas foi o ‘lockdown’, que agravou o problema enfrentado pelo transporte público. Na sua opinião, qual seria a melhor forma de resolver esta crise definitivamente?

Essa crise é resultado de problemas que vêm se arrastando há pelo menos 20 anos, e agora essa crise explodiu. A Viação Campos Gerais [VCG] sempre forçou uma passagem de ônibus acima do que deveria, com custo muito alto, e, por incrível que pareça, a Lei do transporte coletivo é um absurdo. A remuneração da VCG é dada em cima de uma porcentagem do custo da passagem, então, quanto mais caro for a passagem, mais eles ganham. Nós entendemos que eles nunca fizeram muita questão de diminuir o custo da tarifa, porque aí estariam trabalhando contra eles mesmos. 

 
“A Lei do transporte coletivo é um absurdo. A remuneração da VCG é dada em cima de uma porcentagem do custo da passagem, então, quanto mais caro for a passagem, mais eles ganham”

Já houve muitas brigas envolvendo o transporte gratuito. Alguns beneficiários merecem, há pessoas com necessidades, com problemas de locomoção, e pessoas muito idosas. Mas aí entrou uma politicagem de vereadores e foi inventado um monte de gratuidade. Isso culminou com a questão da roleta, que foi colocada nos ônibus, na qual teria que dispensar os cobradores. Mas passou uma Lei na Câmara, e o vereador, querendo fazer média com o cobrador, decidiu que não podia dispensá-lo. Então, veja que absurdo, põe a roleta, não precisa mais de cobrador, mas tem que manter cobrador na folha de pagamento sem fazer nada. 
 
“Uma sugestão [para resolver a crise do transporte coletivo] é dispensar cobradores e diminuir as gratuidades. Não cortar todas, porque algumas se justificam”

Recentemente, teve a situação em que a Prefeitura mandou parar o transporte por um período, e, de verdade, houve um prejuízo muito grande. O resultado é que a VCG ficou inviabilizada de tocar, com a passagem cara e com muito menos gente para andar de ônibus. Uma sugestão é dispensar cobradores e diminuir as gratuidades. Não cortar todas, porque algumas se justificam. Mas é uma injustiça quando você dá uma gratuidade e as outras pessoas têm de pagar por isso. E, com essa pandemia, o pessoal aprendeu que tem outras alternativas, que substituem com vantagem o ônibus. Os trabalhadores das empresas têm feito vaquinha para pegar Uber ou para ir de carona com o funcionário que tem carro.

Na planilha, consta um monte de itens. Entre eles, tem uma taxa para a VCG poder demitir funcionários. São as provisões, que devem ser feitas por Lei. Essas provisões foram pagas uma vida inteira por pessoas que andaram de ônibus. No entanto, a empresa esteve conversando conosco e nos comprometemos a ajudar, indo na Câmara para reaver a Lei que proíbe dispensar os cobradores. Eles dispensam e nós fazemos pressão junto à Prefeitura para diminuir as questões da gratuidade. Mas alegaram que não podiam dispensar funcionário, porque não tinham dinheiro. O custo seria em torno de R$ 4 milhões, outros disseram que seria de R$ 6 milhões, mas esse dinheiro seria aquele que já vem sendo recebido há anos, que deveria estar guardado. Mas eles gastaram um dinheiro que não era deles. Isso é apropriação indébita. Não sou advogado, mas tenho noção das coisas.

 
“Daqui para a frente, não só em Ponta Grossa, mas em geral, o transporte coletivo, que se tornou um problema sério, vai ter que ter parte subsidiada pela Prefeitura e pelo Governo do Estado”

E tem outras coisas erradas. Tem bairro longe, com dois ou três funcionários dentro do ônibus. Podia colocar um micro-ônibus naquele horário. Mas, para a empresa, andar de transporte vazio não é problema. A Prefeitura também tem que evitar aprovar condomínio muito longe da cidade, porque fulano tem terreno longe e fez loteamento. Aí tem que colocar linha de ônibus, luz, e isso gera muito custo.

Daqui para a frente, não só em Ponta Grossa, mas em geral, o transporte coletivo, que se tornou um problema sério, vai ter que ter parte subsidiada pela Prefeitura e pelo Governo do Estado, como já é feito em São Paulo, Curitiba e em tantas outras cidades, porque ele não se viabiliza do jeito que está hoje.

Como o senhor concilia a sua independência política com os governos municipal e estadual, sendo presidente de uma das associações mais atuantes no Paraná? Pessoalmente falando, o senhor se vê como situação ou oposição a esses governos?

A ACIPG não é sindicato, que só busca defender os interesses de seus associados, renovação de salário e uma série de benesses para os seus trabalhadores. A ACIPG é a maior entidade de Ponta Grossa nessa área. Não brigamos só pelo interesse do comércio e da indústria, nós brigamos também pelo interesse da comunidade. Por exemplo, um aeroporto para a cidade, o contorno sul e o contorno norte. No nosso estatuto, diz que devemos apoiar as entidades constituídas, quando elas estão fazendo uma administração honesta, e denunciá-las quando estão fazendo coisa errada. Nós aplaudimos prefeitos e governadores quando acertam, e criticamos quando eles erram. Não sou filiado a partido nenhum. Tenho o meu candidato, mas não a associação.  A ACIPG não faz política partidária. Política fazemos no sentido de pedir para o deputado algo para a nossa cidade, mas não podemos ter partido, nem somos direita ou esquerda, situação ou oposição.

 
“A ACIPG não faz política partidária, não podemos ter partido, nem somos direita ou esquerda, situação ou oposição”

Também não podemos ter grupo político. Só queremos que façam a coisa certa. Essa é a função da associação. Sempre levei isso muito a sério. Eu fui presidente da associação entre 1998 e 2002, e agora voltei porque foram atrás de mim. Naquela época, comprei um terreno para fazer a sede para a associação. Na ocasião, um diretor foi contra e pediu demissão. Agora, estamos fazendo a sede da associação naquele terreno, que deve inaugurar até dezembro. O orçamento inicial foi de R$ 17,7 milhões, mas vai passar disso, e não foi utilizado dinheiro público, nem doação de terreno, nem ajuda da Prefeitura, do estado ou do Governo Federal. Não vamos dever nada para ninguém. É uma sede imponente para demonstrar o desempenho de Ponta Grossa. Queremos representar as grandes indústrias que estão instaladas aqui.
 
"Outros presidentes [da ACIPG] queriam ficar de bem com todo mundo, fazer política da boa vizinhança. Quando me chamaram para voltar, queriam um presidente como eu, briguento"

Vários diretores vieram depois de mim e não se preocuparam em fazer uma nova sede, e eram menos agressivos na questão do que era certo e cobrar. Queriam ficar de bem com todo mundo, fazer política da boa vizinhança. Quando me chamaram para voltar, queriam um presidente como eu, briguento, que, quando vê coisa errada, aponta, e coisa certa, aplaude, sem interesse de agradar ou prejudicar alguém e sem interesses próprios. Fiz várias viagens a Brasília e outros locais. Estive em jantares com deputados, os quais paguei, mas nunca trouxe nota para a associação pagar as despesas. Saio tranquilo e faço o meu trabalho.

Um tema que vem sendo bastante discutido, inclusive na ACIPG, é o pedágio. Na visão do senhor, qual seria o modelo ideal de pedágio para a nossa região?

Na minha opinião, o melhor modelo é aquele com o preço mínimo. Então, na concorrência, tem que ganhar a empresa que oferece o menor preço. Aquela história de dizer que a empresa, para ganhar, não pode dar o preço mínimo pelo compromisso de fazer um monte de obras nas estradas, entre outras promessas, não funciona, porque já vimos esse filme. Já pagamos caro à RodoNorte, por 20 anos, para fazer isso, e ela não fez, porque firmou novo acordo com um governo corrupto, que liberou ela de fazer. Tanto que agora a concessionária está sendo obrigada a fazer aquilo que não fez. Contrate uma empresa e, daquele ponto para a frente, aumente um pouco o pedágio. Não cobre caro já em todo trecho pelo fato de que em, seis ou sete anos, terá que ser feita a duplicação. Inclusive, a duplicação poderia ser feita por outra empresa. Dessa forma, quem ganhasse a licitação não precisaria de uma megaestrutura. Você pode pegar uma empresa para administrar a estrada e cobrar pedágio, e outras menores para as obras, dando chance de haver mais participação, gerando mais empregos e assim por diante. 

 
“Na minha opinião, o melhor modelo [de pedágio] é aquele com o preço mínimo. Então, na concorrência, tem que ganhar a empresa que oferece o menor preço”

Essa foi a proposta da associação, e parece que é a que está valendo. Coincidiu exatamente com a aprovada na Assembleia Legislativa do Paraná. Foi feita até mesa redonda pela ACIPG, onde foram colocadas essas questões. Foi disponibilizada para os deputados e secretários a proposta de cobrança por quilômetro rodado, que é o mais justo possível. Só que aí tem que ter uma estrutura, que não se sabe até quanto custaria. Dizem que o valor é alto, até para justificar o que não querem fazer. 

Nos Estados Unidos, existem diversas barreiras pela estrada, as quais você passa perto e o valor começa a ser contabilizado, a chamada barreira virtual. Ela foi aprovada pela Câmara dos Deputados. Quando você sai da estrada, lá na frente, é calculado quantos metros você usou daquela estrada e quanto vai para a sua conta. Se nos Estados Unidos, na Europa e no Chile é viável, por que não aqui? Um dia temos que começar. E, com a aprovação na Câmara, agora a questão é das empresas que já entraram em novos contratos de concessão aplicarem isso.

O senhor foi um dos mentores e patrocinadores de vários movimentos em apoio ao governo Bolsonaro em nossa cidade. O senhor acredita que a CPI da Pandemia pode provocar uma ruptura política no país, talvez até levando ao impeachment do presidente? E como o senhor vê o Bolsonaro nas próximas eleições? Acredita que se reelege?

Eu torço para que ele se reeleja. Às vezes, dá vontade de mandar o Bolsonaro ficar quieto com as entrevistas que ele dá. Eu não concordo com 80% da maneira que ele fala, mas acredito e aprovo 100% do governo dele. Tudo que ele está fazendo é para melhorar e acabar com a corrupção. Tanto que ele está há três anos na presidência e não se fala em corrupção.

Eu não entendo de Lei, não sou jurista, não sei até que ponto essa questão da CPI pode pegar ou não, mas tenho certeza que se, por acaso, alguém começar com história de cassar o Bolsonaro, o povo vai para rua e não vai deixar acontecer. Eu vou ser um deles. Vou fazer passeata e confusão, mas não vamos deixar. Seria o caos. Veja esse Renan Calheiros, dando uma de cara honesto e querendo complicar os outros nas entrevistas. Esse é um dos caras mais safados que existem. É preocupante, mas acho que o Bolsonaro não cai fácil, não. Teria que ter um movimento grande na cidade e no país.

 
“Tudo que o Bolsonaro está fazendo é para melhorar e acabar com a corrupção. Tanto que ele está há três anos na presidência e não se fala em corrupção”

A minha avaliação geral do governo dele é positiva. Por azar, teve essa pandemia, que matou dois anos de qualquer governo. Mesmo assim, nós estamos com um crescimento maior que os Estados Unidos no PIB [Produto Interno Bruto] nesse período, e muito maior que outros países da Europa, graças ao agronegócio.
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