21/05/2021 às 20h33min - Atualizada em 21/05/2021 às 20h33min

CRÔNICA: Para quando falharem os roteiros, por Marco Aurélio de Souza

Um dia, num momento de perturbação inesperada, os seus heróis da infância dizem um ao outro certas verdades mais pesadas do que aquelas que você consegue suportar

Por Marco Aurélio de Souza
Foto: Pexels
Um dia os roteiros de cinema dividem todas as pessoas do mundo entre as boas e as ruins, e você sabe exatamente a posição que deve ocupar no tabuleiro social. Em não havendo um final feliz, presume-se logo que alguma coisa deve estar completamente errada e que é melhor mudar de canal. Seus pais, que parecem maiores e mais fortes do que os deuses do Olimpo, obviamente ocupam um lugar de destaque no desfile dos nobres, e decepcioná-los é um gosto amargo que não dura: tão logo alguma ríspida resposta rompe o véu da sua fantasia infantil, uma conversa rápida sobre a cama é prontamente convocada, desfazendo todos os mal entendidos da convivência. Assim, o almoço da mãe volta a ter o mesmo sabor e a maionese de domingo pode azeitar outra vez a incansável engrenagem familiar. 

Nesse tempo do era uma vez, sufocadas as dúvidas que emergiam aqui e ali, os seus melhores amigos eram somente seus, até o dia que, na escola, o primeiro deles apareceu compartilhando a vista dos dentes com outro amigo pelo corredor. Não com um riso qualquer, mas com aquele jorro de alívio que você julgava ser o único capaz de alcançar, pois era perito na perfuração das tensões – o riso dos cúmplices no crime do conhecimento, que brotava do que por todos era despercebido, exceto por você e seu melhor amigo. Então as frustrações e os ressentimentos te acenam com um pedaço de consolo e dizem: olha, ali está alguém ainda melhor para chamar de seu, vai até lá, mas não assim – seja bem mais do que você já é. De imediato, a sua mente escapa daquele lodo de decepções, ainda que o novo amigo brilhe um pouco menos do que o anterior, ainda que talvez ele seja um sujeito imaginário, com falas emprestadas da ficção. O importante é que os roteiros de Hollywood continuavam te dizendo de que lado da vida você devia estar. 

Um dia, porém, num momento de perturbação inesperada, os seus heróis da infância acabam dizendo um ao outro – como se tudo ao redor estivesse privado da audição – certas verdades mais pesadas do que aquelas que você consegue suportar, e não será possível indagar a nenhum deles o que aquilo significa, porque estão comprometidos com uma briga que não é sua, nem nunca será. Apesar disso, você ainda é alguém para um bocado de gente, e pode escorar o peso daquelas verdades no ombro de um bêbado da praça, rindo com ele do modo que os velhos do seu mundo escolheram para desfiar suas existências fúteis e desgraçadas. Ao voltar para casa, superoxigenado diante do espelho, os fantasmas do banheiro te dizem que não, que você jamais será daquele jeito, pois as verdades ocultas nos bolsos da sua calça jeans são mais bonitas do que aquelas que você vê passar pela janela, nas sacolas dos colonos, no pedigree das madames, nas garrafinhas plásticas dos galãs de academia, nos carros rebaixados que engasgam nas lombadas do centro e tremelicam as vidraças da vizinhança com seu baixo ensurdecedor. Você acredita naquilo, mas meio que sem querer – não porque te pareça algo lógico, indiscutível, mas sim porque precisa acreditar, pois no fundo, bem lá no fundo, já não confia mais na simplicidade dos roteiros da TV.

 
“Ao voltar para casa, superoxigenado diante do espelho, os fantasmas do banheiro te dizem que não, que você jamais será daquele jeito, pois as verdades ocultas nos bolsos da sua calça jeans são mais bonitas do que aquelas que você vê passar pela janela”

Daí você passa a decepcionar os seus pais sistematicamente. E eles te alertam o tempo todo sobre a dimensão imensurável dos seus erros, mas nunca mais te convidam para uma conversa franca e reconciliadora sobre a cama, o que te faz suspeitar que elas nunca foram verdadeiramente francas e reconciliadoras, que você apenas não tinha a estatura certa para se defender, e que o motivo para que aquelas conversas se tornassem cada vez mais raras era somente um: que as desculpas não faziam parte do dicionário da sua família. Então a vida lhe priva justamente das palavras que estão inflamadas na sua língua, e você cala ardendo no fogo daquilo que sente e não consegue dizer. É quando surge a poesia, fina flor do ócio, de dentro das espinhas, do sangue da menstruação ou da gosma das roupas íntimas que, por não lavá-las (como deveria, fosse o mundo um lugar mais justo do que é), você quer jogar fora, envergonhado por sua condição de animal religioso que sonha e deseja. 

O tempo rumina os segundos e teus cabelos ficam mais longos, assim como a barba estampada no seu rosto, que indica tudo aquilo que ficou para trás. Ou talvez sejam os seus peitos que cresceram debaixo da blusa, subitamente desejados pelos homens reais, evidentemente mais assustadores do que aqueles das histórias de princesa que você curtia antes de dormir. Mas você acredita na sua própria honestidade, sabe que ela te conduzirá aos melhores lugares, às melhores pessoas, e faz mais amigos do que consegue manter. Por isso, um dia, quando um deles te liga no meio da noite e você não atende, pois está ocupado demais sendo outra coisa que não um cara legal, isso se torna motivo o bastante para que ele te enxergue somente através dessa distância, vendo em seus olhos um impulso de rapina, vendo em tuas mãos um gesto feio, do estrangulador. E você sente muito, mas precisa aceitar que as coisas sejam assim: ninguém consulta o outro para saber da importância de um desagravo – melhor esquecer e não alimentar ressentimentos, ainda existe muito chão para cobrir com as tuas sementes de comunhão. Dentro de ti, porém, alguma coisa mudou. Parece que na alma, no coração, talvez num órgão mais prosaico e menos simbólico, nalgum lugar importante para aquilo que você queria ser, enfim, algo se quebrou e nunca mais funcionará como antes.

Desse ponto em diante – shame on you, que foi o último a acordar para a vida –, as coisas serão sempre do mesmo jeito: de tempos em tempos, à revelia do que o coração te diz, você vai entrar em certos desentendimentos mútuos, afastando-se de algumas pessoas simplesmente por não saber ser aquele que elas esperavam que você fosse. E, ainda que sem ter consciência disso, cumprirá também esse papel na vida de tantos outros íntimos desconhecidos. E quando formar a sua própria família, finalmente compreenderá que não controla aquilo que ama e restará atônita quando as situações da sua infância se repetirem, agora com o seu rosto confuso preenchendo à revelia essas vestes infames da indiferença e da opressão. E vai lembrar desconcertada daqueles filmes da TV, imaginando de que lado você está na dicotomia dos destinos, se as oposições às vezes explodem até mesmo entre os amantes, em meio a tudo que você quer preservar.

 
“De tempos em tempos, à revelia do que o coração te diz, você vai entrar em certos desentendimentos mútuos, afastando-se de algumas pessoas simplesmente por não saber ser aquele que elas esperavam que você fosse”

Até que um dia os teus colegas de trabalho te observarão como zumbis ressecados, pois a sua temporada de apatia sugou tudo de belo que neles havia. E você vai fugir daquelas brigas longas e fúteis que acontecem por uma xícara de café, procurando nas plantas a serenidade impossível aos seres humanos. Atentas ao teu pranto, as ombrófilas consolarão o teu segredo infantil. E uma vez cansada de toda meditação, longe de tudo e de todos, você escreverá o quanto conseguir, desconfiando da própria sanidade por cultivar tamanha obsessão pelo inútil. Depois disso, sofrerá por ser a única para quem aquelas palavras fazem realmente algum sentido, sem se dar conta de que há muito tempo você não sonda as profundezas de um amigo sem almejar com isso o escambo das dores ordinárias. Máscaras e mais máscaras, apenas isso: os anos se espremem em meio às frestas dessa pretensão monumental de sermos os únicos capazes de sambar de cara limpa na interminável avenida do tempo. Assim, pouco a pouco, você se entrega a um calendário diferente, em que todos os dias se parecem um pouco com uma quarta-feira de cinzas. 

E um grande amigo se vai, porque a morte é inerente à vida. E outro escolhe partir, o que é sempre mais difícil, já que a angústia alheia se escreve em um livro indecifrável. E a distância que você toma de tudo aquilo que moldou o seu caráter começa a emergir no canto dos olhos, que agora sofrem de um desagradável movimento involuntário. E o câncer – ou qualquer outra doença mortal e hereditária – substitui o bicho papão dos armários e o velho do saco das esquinas. E na medida em que a morte vai cifrando os olhos de quem você ama, você reluta, mas aceita que a autodestruição é congênita à realidade das coisas e que o que nos sobra é somente debulhar esse esquivo prazer de estar vivo.

E um dia, enfim, num dia qualquer, talvez numa manhã de terça como essa, em que os compromissos cotidianos parecem pouco importantes diante de um acorde novo no violão, você observará os seus filhos brincando na sala de estar e, com os olhos marejados pelos sonhos improváveis, passará em revista tudo aquilo que viveu e viverá, projetando neles a matéria do vivido, sabendo que o sumo do que somos é sempre pura e misteriosa repetição, mas isso não trará qualquer conforto a quem você se tornou, pois a responsabilidade pelo outro é como o desarme de uma bomba: a fim de rebentar os laços certos na hora exata, será preciso confiar no seu domínio do intuitivo e ter extrema precisão – nunca saberemos se a explosão decorrente da operação deriva de nossa imperícia ou, ao contrário, suportamo-la justamente porque fomos bem-sucedidos na arte de antecipar o movimento dos escombros.

 
“Você observará os seus filhos brincando na sala de estar e, com os olhos marejados pelos sonhos improváveis, passará em revista tudo aquilo que viveu e viverá, projetando neles a matéria do vivido, sabendo que o sumo do que somos é sempre pura e misteriosa repetição” 

Então você buscará uma forma simples de confiar ao seu filho tudo o que aprendeu sobre estar vivo, mas será impossível. E terá uma vontade irresistível de escrever, mas será impedida pelos compromissos inadiáveis da vida adulta. Esqueça, então, o dever de casa por um momento, concentrando tudo o que sente num carinho ao meio dia. Passe a mão, como faço agora, pelos cabelos embaraçados de uma menina que te fala coisas demais. Talvez o seu filho – exatamente como você, durante a aurora da sua autoafirmação –, num gesto brusco e natural de desprendimento, afaste sua mão com certo desdém e, olhando para o vento, você também imagine que tudo o que sabia escorreu pelos dedos em direção à janela, e que a felicidade talvez não esteja assim tão distante do ponto em que já nos encontramos: basta protegermos a solidão daqueles que precisam do nosso colo livre de perguntas, dosando em minúcias a força desse abraço – sim, desse abraço que se abre agora e, num repente, irrompe incontrolável, como um gesto mecânico que subitamente se descobrisse uma ternura descomunal.

MARCO AURÉLIO DE SOUZA é escritor, professor e editor do selo Olaria Cartonera 

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