31/05/2021 às 10h39min - Atualizada em 31/05/2021 às 10h39min

Cinco perguntas para Adail Inglês

Sem papas na língua, o jornalista e analista político Adail Inglês fala sobre a política ponta-grossense, o governo de Elizabeth Schmidt, as eleições estaduais e nacionais de 2022, a CPI da VCG e, é claro, o jornalismo político

Por Rafael Guedes
Foto: André Waiga
A política e o jornalismo sempre se entrecruzaram na história do jornalista e analisa político Adail Inglês. Com 50 anos de profissão no currículo, Adail atuou como comentarista e diretor de redação em diversos veículos de Ponta Grossa, até lançar em 1987 o seu próprio jornal, o ‘Diário da Manhã’, cuja circulação se encerrou em 2008. Eleito vereador em 1973, cometeu várias outras tentativas, durante a década de 90, de ingressar na política, como prefeito e deputado estadual, mas sem sucesso. Desde 2009, o jornalista edita o ‘Blog do Adail’, onde se mantém em evidência comentando os principais acontecimentos da vida pública em Ponta Grossa. Sem papas na língua, Adail fala, na entrevista a seguir, sobre a política ponta-grossense, o governo de Elizabeth Schmidt, as eleições estaduais e nacionais de 2022, a CPI da VCG e, é claro, o jornalismo político.

Talvez pela primeira vez em nossa história, Ponta Grossa tem diversos grupos políticos e ideológicos disputando eleições. Agora, está em formação o grupo da prefeita Elizabeth Schmidt, que continua prestigiando lideranças de fora da cidade, que estão cada dia mais presentes em todos esses grupos. Como o senhor analisa essa miscelânea de grupos no atual cenário político de Ponta Grossa? Quem “manda” realmente na política municipal hoje?

O panorama político da cidade não apresenta nada de novo, pois sempre tivemos diversos grupos políticos e ideológicos. O que sempre faltou, e continua faltando, em nosso panorama político é conteúdo, com a novidade nestes últimos 20 anos de o eleitor ponta-grossense votar por eliminação, e não por preferência. No passado, as candidaturas majoritárias sempre tinham maior representatividade, diferente do que está acontecendo no presente.

Se fizermos um retrospecto dos últimos 30 anos, vamos ter, em 1988, as duas candidaturas mais expressivas a prefeito, do deputado estadual Djalma de Almeida César contra o jovem empresário Pedro Wosgrau Filho, com vitória do Wosgrau. Em 92, as duas candidaturas mais fortes foram do então vice-prefeito Paulo Cunha Nascimento contra o deputado Djalma de Almeida César, com vitória de Paulo Cunha. Já em 96, o quadro começou a se desfigurar, pois naquele ano a cidade teve três de seus quatro deputados estaduais disputando a sucessão municipal – Jocelito Canto, Péricles de Holleben Mello e Plauto Miró Guimarães Filho. E o resultado da eleição prevaleceu com essa ordem alfabética, com Jocelito sendo o vitorioso. Em 2000, tivemos a novidade do segundo turno, com as candidaturas principais pertencendo ao prefeito Jocelito Canto, disputando a reeleição, e o deputado Péricles de Holleben. Foi a inauguração do voto da eliminação, com a vitória de Péricles, pela forte rejeição ao nome de Jocelito, com o que a cidade conservadora elegeu um prefeito do PT. Mas que, quatro anos depois, rejeitaria a renovação do mandato do prefeito do PT, com o retorno do já então ex-prefeito Pedro Wosgrau Filho, que restabeleceu a oportunidade do voto da preferência, o que viria a se repetir em 2008, na sua disputa à reeleição contra o radialista Sandro Alex. Os dois pleitos seguintes foram clássicos no voto da eliminação, reunindo os deputados estaduais Marcelo Rangel e Péricles de Holleben Mello, e o empresário Márcio Pauliki, com um segundo turno entre  Rangel e Péricles, com a vitória de Marcelo por conta da elevada rejeição ao nome de Péricles, por pertencer ao PT [Partido dos Trabalhadores]. Esse filme viria se repetir em 2016, com Marcelo sendo reeleito pela rejeição ao nome do jovem deputado federal Aliel Machado. Agora, em 2020, voltou a prevalecer o voto da preferência ao nome da professora e vice-prefeita Elizabeth Silveira Schmidt contra a jovem deputada Mabel Canto, especialmente pela força de seus três principais apoiadores, o prefeito Marcelo Rangel, o deputado federal e secretário estadual de Infraestrutura e Logística Sandro Alex, e o governador Ratinho Júnior.

 
“Nos últimos 20 anos, o eleitor ponta-grossense votou por eliminação, e não por preferência”

Para finalizar a resposta à primeira pergunta, a miscelânea é a de sempre, com a evidência de que ninguém “manda” na política da cidade porque não temos nenhum líder, a nivelação se dá por baixo.

Que avaliação o senhor faz do governo Elizabeth Schmidt nesses primeiros cinco meses de governo?

A avaliação é negativa. Ela queimou a largada, na composição de sua equipe, principalmente nos nomes novos que levou para o prédio da Prefeitura. A crise da pandemia, em especial na segunda quinzena de março, abril e maio, se prestou à revelação de uma prefeita medíocre, impondo à comunidade um sacrifício inusitado, com um “fecha tudo” desnecessário e a novidade da estupidez da paralisação do transporte coletivo, em meio a um governo sem direção, sem rumo, sem saber aonde quer chegar. 

 
“A crise da pandemia se prestou à revelação de uma prefeita [Elizabeth Schmidt] medíocre”

Como o senhor analisa as eleições estaduais e nacionais do ano que vem? A eleição do ex-prefeito Marcelo Rangel para senador tem chances reais? O governador Ratinho Júnior tem adversário à altura?

O quadro eleitoral do ano que vem já está, de certa forma, desenhado, com os nomes do presidente Jair Bolsonaro concorrendo à reeleição e a volta vergonhosa do ex-presidente Lula, beneficiado por decisões escandalosas do Supremo Tribunal Federal. Não há espaço para uma terceira via, porque o povo da esquerda, derrotado por Bolsonaro em 2018, não teve competência em se reorganizar, diante do bom desempenho do governo de Bolsonaro, que, a despeito da pandemia do vírus chinês, consegue exibir bons números na economia e um conjunto importante de obras públicas, que o diferencia dos governos que o precederam, de Fernando Henrique Cardoso, do próprio Lula, de Dilma e Michel Temer.

 
“Não há espaço para uma terceira via [nas próximas eleições presidenciais], porque o povo da esquerda, derrotado por Bolsonaro em 2018, não teve competência em se reorganizar”

No plano estadual, o governador Ratinho Júnior continua sendo o único nome, mas sem um desempenho que o transforme numa liderança consistente. Se o seu partido, o PSD, avançar nos entendimentos com Lula, o nome indicado por Bolsonaro para disputar o Palácio Iguaçu poderá ser o grande adversário de Ratinho, com chances reais de vitória. Em relação ao ex-prefeito Marcelo Rangel, com o seu projeto de disputar o Senado, é melhor se organizar para uma nova candidatura à Assembleia Legislativa, repetindo a dobradinha de 2010, com p seu irmão, o deputado Sandro Alex, que deve tentar um quarto mandato na Câmara dos Deputados.

O que o senhor espera da CPI que pretende investigar a Viação Campos Gerais (VCG)? O senhor acredita que a empresa realmente deva ser investigada? Há indícios fortes o bastante para isso, na visão do senhor?

Essa CPI não tem sequer sustentação legal, pois não pode existir inquérito sem um fato determinado. Criar uma comissão para investigar o contrato de 20 anos entre a empresa e o Município, para ver se encontra algum ponto que permita a argüição do cometimento de uma irregularidade, capaz de sustentar uma denúncia de rompimento de contrato, é um desserviço a coletividade. Essa CPI é muito mais produto de uma aversão política contra a empresa, sem o menor senso de responsabilidade quanto ao papel da concessionária na vida da cidade.

 
“Essa CPI [a CPI da VCG] é muito mais produto de uma aversão política contra a empresa”

O senhor é um jornalista veterano. Como o senhor analisa a cobertura da mídia local em relação à política? O senhor acredita que é possível fazer bom jornalismo em Ponta Grossa sem ter uma relação promíscua com o poder?

As redes sociais estão salvando o jornalismo político de Ponta Grossa. Ainda estamos no começo, mas é um bom começo, com indicativo de ser um projeto promissor. A mídia convencional não discute o processo político da cidade. Indiscutivelmente, o bom jornalismo é preciso que mantenha distância da promiscuidade da aproximação com o poder, porque o jornalista tem a missão de informar, de discutir, de questionar, voltado sempre para o interesse público. E isso pressupõe um desejável grau de independência. Aliás, muito mais que o político, o jornalista é uma figura pública, pois, enquanto o político é considerado um homem público ao longo de seu mandato, o jornalista tem uma vida inteira de dedicação à causa do bem público.

 
“O jornalista tem a missão de informar, de discutir, de questionar, voltado sempre para o interesse público. E isso pressupõe um desejável grau de independência”

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