31/05/2021 às 17h54min - Atualizada em 31/05/2021 às 17h54min

CRÔNICA: #vida@morte, por Renato van Wilpe Bach

Inebriados com ideias de redenção e acolhimento, não conseguimos enxergar a precariedade da condição humana diante da morte

Por Renato van Wilpe Bach
Foto: Reprodução
Há quinze anos, escrevia no caderno “Almanaque”, do extinto jornal 'O Estado do Paraná':

No meu cotidiano, fui colocado na condição de testemunha íntima da luta de outros tantos contra a morte, esta sim um inimigo insuplantável. Contra ela não há vitória, tanto que os séculos e as línguas tendem, em sua maioria, a chamar os que a sobrepujam muito mais de “poupados” que de “vencedores”.

Hoje ouvimos (ou lemos) diariamente, na televisão ou nas redes sociais, notícias sobre pessoas que “venceram a batalha contra o câncer” (ou a COVID-19), “derrotaram a doença” ou a morte. 

“Venci a COVID”, além de mote do telejornalismo, daqui a pouco será adesivo, colado nas janelas dos carros. Faltam palavras, claro, para descrever a mortandade que a nossa geração presencia; assim, os chavões abundam, inexatos. 

Algumas doenças são tão difíceis de tratar (ou curar), que entendemos e compartilhamos da emoção, da sensação de alívio, da empolgação que sucede o longo caminho percorrido em busca de uma possibilidade de cura, que afeta pacientes, familiares e até as equipes de saúde. 

Parabéns aos vencedores, torcemos por eles, mas não escaparam da morte. Ela virá, cedo ou tarde. Quando nos livramos dela, qual Garrincha de pernas tortas, não podemos nos esquecer que nesta partida não há gols a marcar, nem vencidos. O drible, quando bem-sucedido, é tudo de que teremos lembrança. Quando cairmos e perdermos a bola, será apenas do conhecimento de terceiros: não testemunharemos a própria morte.

Os que sucumbem ao acaso, ou ao (seu) destino, seja nas mãos de doenças insidiosas como o câncer, ou rapidamente avassaladoras como a COVID-19, merecem, mais que nossos sentimentos (outro chavão), o mesmo respeito que devotamos aos sobreviventes. Se há “vencedores” nessas lutas, não pode haver “perdedores”. 

Uma das primeiras descobertas da filosofia grega foi a inevitabilidade da morte. Esta lhes causava tamanho horror, que não conseguiam imaginar um porvir prazeroso: apenas o inferno estava reservado aos homens, mortais e absolutamente indefesos diante da danação eterna. No inferno grego, Hades, que divide seu nome com o do deus que o comanda, há sofrimento à escolha, em três níveis diferentemente desagradáveis. 

O “céu” é uma invenção judaico-cristã, resposta a nossos anseios de imortalidade e recompensa. Nossa fé, quando presente, é “contra toda esperança”, para citar a Bíblia. 

Não se vence a Morte, sabiam os gregos, sabemos todos, desde sempre. Quando muito, logra-se adiá-la. Regateamos, não com Hades, o deus que habita o submundo (que com ele não tem conversa), mas com o seu pai — Cronos, o Tempo. 

Quando cremos, contudo, é na esperança que reside a resiliência. Como bem disse Sandman, o Mestre dos Sonhos, na obra-prima dos quadrinhos escrita por Neil Gaiman (em breve, série da Netflix), quando desafiado por Lúcifer: 

"Que poder teria o inferno se os prisioneiros daqui não fossem capazes de sonhar com o céu?"
 
A vida da maioria oferece, contudo, mais cenários infernais que oportunidades de sonho. A Morte dos quadrinhos de Gaiman, irmã do Sonho, é jovem, “punk” e linda, além de amiga; aquela que nos vem à memória, mais comumente, é uma caveira encapuzada a passear com uma foice, interrompendo trajetórias. 

Muitos já chamaram a hora dela, da própria Morte, de “a sua hora”. “Todo mundo tem a sua hora” serve até de consolo e pêsames, algo inevitável, quer seja decidida por Deus ou escrita nas estrelas, como se (não) tivéssemos qualquer controle sobre quando, como ou onde. Inebriados com ideias de redenção e acolhimento, que nos são oferecidas desde a infância, não conseguimos enxergar, como os gregos, a precariedade da condição humana diante dela. Se tem algo que não é nosso, na maioria das vezes, é a tal hora. 

Há quem receba a benção, a graça ou a sorte de poder se despedir, com tempo e até alguma graça. Há quem tenha apenas uma oportunidade, e a aproveite, embora sempre fugaz. Já vimos de tudo, nesta vida de médico, entre histórias de amigos, parentes e pacientes. 

Aliás, tirar a sorte é democrático, um costume helênico também, e não deveria nos escandalizar. Não é muito diferente na Medicina: por mais que façamos tudo pelo paciente, por mais que haja escores prognósticos aplicáveis para inúmeras doenças, por mais que a experiência nos permita estimar probabilidades, não somos mágicos ou adivinhos, nem sempre somos capazes de identificar quem fica ou quem vai. 

Mallarmé, poeta francês, imaginava um Deus que jogava dados com o destino, ao acaso. Einstein o refutou (“Estou, em todos os casos, convencido de que Ele não joga dados”), apenas para a (louca) física dos buracos negros (e Stephen Hawking) desdizê-lo. 

Talvez vida e morte sejam mesmo apenas instantâneos minúsculos de transformação de matéria em energia, e vice-versa, desimportantes para o gigantesco universo onde habitamos. A consciência, maior troféu de nossa espécie, parece não ter consistência física, mera expressão de impulsos elétricos desordenados, de algum modo coados, nem sempre capazes de inferir e analisar corretamente o espaço-tempo. As sinapses entre neurônios estão distribuídas em mais de dez dimensões, diz a mídia, o que põe em dúvida nossas crenças e conhecimentos científicos. 

Maturana, o genial epistemologista chileno recentemente falecido, e Varela, seu parceiro, usaram a teoria dos sistemas para redefinir o conceito de vida; trata-se de um sistema "autopoiético": autônomo, produz e regula a si próprio, fechado, em constante relação com o meio ambiente, que o afeta, não diretamente, mas a partir de novas correlações internas. 

De certa forma, lembra Sartre, que afirmou: 

“Não importa o que fizeram de mim, o que importa é o que eu faço com o que fizeram de mim.”

Entre a observação e a realidade, vamos aprendendo. Talvez. Acredito que sim. As verdades tangíveis são conhecidas há tempos: compaixão, empatia, democracia, leis e direitos, saúde única (para humanos, animais e meio ambiente). 

Até lá, além de festejar os poupados, que não nos esqueçamos de evitar a grosseria de chamá-los vencedores. Se não pela incoerência, pela delicadeza para com centenas de milhares de mortos. Que, além de chorá-los, trabalhemos todos para ver pararem as mortes.

RENATO VAN WILPE BACH é médico, escritor e professor 

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