07/06/2021 às 10h32min - Atualizada em 07/06/2021 às 10h32min

ARTIGO: Podemos confiar realmente nas vacinas?, por Elisangela G. Montes

Informações falsas e baseadas em fatos distorcidos podem atrapalhar o processo de vacinação, fundamental para a contenção da pandemia

Por Elisangela Gueiber Montes
Foto: Divulgação
Nos últimos dias, muito se tem falado nas redes sociais sobre uma possível ineficácia das vacinas contra a COVID-19 em uso no Brasil e sobre a possibilidade de algumas, principalmente a CoronaVac, precisarem de uma terceira dose ainda este ano para assegurarem o seu efeito imunizante. No entanto, essas informações são falsas e se baseiam em fatos distorcidos, que podem atrapalhar o processo de vacinação, fundamental para a contenção da pandemia. 

É importante que a população compreenda que todas as vacinas aprovadas pelos órgãos regulatórios passam por uma rigorosa sequência de testes. O desenvolvimento do imunizante começa em laboratório, passa por testes em animais e depois é colocado à prova em ensaios clínicos com milhares de pessoas. Esses ensaios envolvem três fases distintas e ampliam gradualmente o número de voluntários, as faixas etárias e os quadros prévios de saúde, na chamada “Fase 3”.

No caso da CoronaVac, produzida pela empresa chinesa Sinovac em parceria com o instituto Butantan, mais de 12.000 voluntários foram acompanhados no Brasil durante a realização da última fase. Outro ponto importante, que mostra a seriedade da pesquisa, é o fato de esses voluntários serem todos profissionais da saúde, algo que eleva o risco de exposição ao vírus. Para avaliar a eficácia, metade do grupo recebeu o imunizante e a outra metade recebeu placebo, uma substância sem capacidade de desencadear resposta imunológica. Após a incidência de uma quantidade de casos de COVID-19 predeterminada, os dados são comparados entre os grupos, a fim de calcular a eficácia do imunizante. Na conclusão do estudo, foi verificado que a CoronaVac é segura e eficaz após 15 dias do ciclo de duas doses.

Outra questão importante, e que talvez venha trazendo dúvidas a muitas pessoas, é o fato de o valor da taxa de eficácia ser de 50,38 %. Muitos ainda não compreendem o real significado desse número. Para facilitar a compreensão do termo eficácia, pode-se afirmar que, a cada 100 pessoas vacinadas, apenas 50 contrairão a COVID-19. Isso significa que uma metade não vai desenvolver nenhuma forma da doença e a outra metade vai desenvolver apenas formas muito leves e assintomáticas. 

Mas o ponto mais importante do estudo de uma vacina está na prevenção do desenvolvimento da doença em si. No caso da CoronaVac, a pesquisa também revelou que o imunizante é 78% eficiente em evitar casos leves (pacientes que precisam de algum tipo de assistência médica) e moderados (aqueles que exigem hospitalização, mas não cuidados intensivos). 

Além disso, existe a avaliação da efetividade de uma vacina na chamada “Fase 4”, em que é possível verificar o potencial de proteção que o imunizante confere em uma grande população, cidade ou país. No caso da vacina produzida pelo Butantan, por exemplo, foi realizado um estudo na cidade de Serrana, no estado de São Paulo, onde foram imunizados cerca de 95% da população maior de 18 anos. Após o período necessário para que a população recebesse as duas doses do imunizante e fosse capaz de produzir resposta adequada a ele, houve uma redução de 80% dos casos sintomáticos e de 86% nas hospitalizações por COVID-19, além de uma queda de 95% nas mortes. Isso aconteceu no mesmo momento que cidades da região enfrentavam uma das piores fases da pandemia. 

Estudos semelhantes estão sendo realizados com outras vacinas, como a AstraZeneca e a Pfizer, e os resultados têm sido muito satisfatórios e animadores em vários países, que têm boa parte de sua população já vacinada. 

Outro dado, que reforça ainda mais a certeza de que estamos no caminho certo e de que as vacinas são realmente a nossa esperança de voltar a uma vida normal, pode ser visto na redução das hospitalizações e dos óbitos de pessoas das faixas etárias que já foram imunizadas, como parte dos grupos prioritários. Esse dado pode ser observado por meio de informações da Secretária Estadual de Saúde (Sesa) do Paraná, nos quais foi detectada uma queda significativa dos casos graves da doença em idosos e uma diminuição nos surtos de COVID-19, que chegou a mais de 50% no início do mês de maio, em instituições de longa permanência, se comparado ao início de janeiro deste ano. Vale salientar que esse grupo de pessoas foi um dos primeiros a serem imunizados.

Desta forma, podemos afirmar com segurança que as vacinas que estão sendo aplicadas no Brasil são eficazes e são a nossa chance de vermos um futuro diferente, em que todos poderemos voltar a uma vida normal. Mas, para que possamos chegar a esse futuro tão desejado, é muito importante que essa ação seja coletiva, por meio da qual possamos atingir a maior parte da população vacinada com as duas doses (pelo menos 70%) o mais breve possível. Só conseguiremos atingir esse objetivo se fizermos a nossa parte, primeiramente recebendo o imunizante, e depois mantendo os demais cuidados de prevenção até que todos estejamos seguros.

ELISANGELA GUEIBER MONTES é doutora em Ciências Farmacêuticas e professora-adjunta da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

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