01/03/2021 às 13h41min - Atualizada em 01/03/2021 às 13h41min

Artigo: A ignorância do negacionismo, por Daniel Frances

O negacionismo não é novo, não é fruto da geração Trump/Bolsonaro, é fruto de uma sociedade caótica que não se aprofunda mais em nada, que prefere a ignorância

Por Daniel Frances
Foto: Divulgação
Você já tentou debater com alguém que insiste que 2 + 2 é igual a 5? Mesmo que você comprove com todas as teorias, recorrendo aos maiores sábios matemáticos, a mente fechada e radical sempre vai acreditar que o resultado de 2 + 2 é 5. O mesmo acontece com os negacionistas que não acreditam na vacina e na pandemia. Nem 250 mil mortes os fazem deixar de pensar que a COVID-19 não passa de uma “gripezinha”.

O negacionismo se dissemina entre os ignorantes. E, se você é um deles, não se sinta ofendido. Ignorante não é uma pessoa burra, apenas uma pessoa que ignora, que não dá crédito a nada além daquilo que, na opinião dela, merece ser usado como base. Mas onde, então, fica a ciência para os negacionistas? A ciência, como um campo fora da vida cotidiana, não pode estar correta nas suas análises. Afinal, saio todo dia de casa e não pego o vírus. Logo, a máscara que nunca usei é desnecessária, o chope do fim de semana depois do futebol com aglomeração nunca me causou problemas, sem falar no valor imenso da Terra plana!

E, se aquele em que creio e chamo de Mito respalda a minha ideia, aí, sim, é que me vejo legitimado a poder gritar a plenos pulmões (enquanto funcionam) que estou correto e que a vacina e as suas ideias são armas para nos aproximar do comunismo e sermos rastreados por chips escondidos dentro da injeção. Nessas horas me pergunto: o que a China, que tem 1 bilhão e 300 milhões de habitantes, quer saber do meu dia a dia sentado vendo ‘Big Brother Brasil’ e votando na Karol Conká, que até três semanas atrás era menos conhecida que Nego Di? 

O negacionismo não é novo, não é fruto da geração Trump/Bolsonaro, é fruto de uma sociedade caótica que não consegue ler mais que a orelha do livro, que não se aprofunda mais em nada, que prefere a ignorância, e que, como diria Raul Seixas, “fica em casa com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar”.

O negacionismo é primo/irmão da falta de empatia, da falta de solidariedade. É fruto do individualismo, é filho do universo que parece que nunca nos atingirá. E é importante salientar que o negacionismo não está vinculado a classe social. Temos médicos, professores, políticos e juízes que comungam da ideia de que cloroquina e ivermectina salvam. Pergunte ao fígado dos que ingeriram quilos de ivermectina como está lidando com a hepatite que adquiriu! Pergunte aos infartados como foi o dia a dia da cloroquina cardiologicamente nefasta! E, por fim, pergunte aos pais, mães, irmãos, amigos e filhos que tiveram um dos seus na lista dos 250 mil mortos se continuam negando algo ou a ciência quando choram a ausência daqueles que nunca mais respiraram.

OBS.: este artigo foi escrito no mesmo momento que o governo teve novamente de tomar medidas restritivas à circulação de pessoas e de serviços. Agradeço a todos que andaram sem máscara ou a usaram de forma indevida, que foram a festas clandestinas, que nunca deixaram de fazer o seu churrasquinho de fim de semana. Quem agradece também são os seus parentes e amigos que não encontram leitos de UTI no caos da ocupação hospitalar. 

Santo Agostinho tem uma frase para a sua reflexão: “A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las”.

Quem sabe a ficha caia. 

DANIEL FRANCES é historiador e psicanalista


Aviso: As opiniões publicadas neste espaço não refletem necessariamente a opinião do portal NCG.news. Qualquer pessoa ou instituição que, por algum motivo, se sentir afetada pode fazer uso do espaço para publicar a sua reposta. 
Notícias Relacionadas »