19/06/2021 às 15h22min - Atualizada em 19/06/2021 às 15h22min

CRÔNICA: A Guerra de Canudos no Colégio Regente Feijó, por Renato van Wilpe Bach

Quando a “nova” turma chegou, tivemos comportamentos opostos. Nós, calados; eles, rebeldes e bagunceiros. Rapidamente voltariam as suas armas para nós, é claro…

Por Renato van Wilpe Bach
Foto: NCG
Não posso ouvir alguém falar em Guerra de Canudos sem me lembrar do Regentão. Até o meu filho já sabe, observador que é, mesmo quando tento evitar e solto um risinho abafado, para mim mesmo, por dentro. (Em inglês existe um termo para isso. É o verbo “to chuckle”, que significa rir em silêncio, rir para dentro, “inwardly”).

Nada a ver com os sertões de Euclides da Cunha e Antônio Conselheiro. A minha Canudos foi outra.

Naqueles dias de primeiro ano do (então) segundo grau, a nossa turma minguara, com vários colegas trocando de colégio ou de turno. Éramos rapazes de 14, 15 anos — cerca de 15 ou 20 sobreviventes de uma convivência que se iniciara na quinta série. Fechando a classe, colegas vindos de outras escolas; de uma em especial, uns dez. 

O ambiente era outro naquele início de ano letivo. O colégio ancestral, outrora escola normal de Ponta Grossa, passava por mudanças e reformulações. Falava-se, à boca pequena, que muitos professores tinham se aposentado, e que havia dificuldades na reposição, o que ficou evidente quando, ao voltarmos das férias, encontramos uma penca de professores novinhos em folha. 

A nossa turma, reduzida agora a uma gangue, sempre fora muito bem-comportada. Também pudera, uma maioria de nós era genuinamente interessada, e os professores nos queriam bem. Os que sobraram, modéstia à parte, eram das melhoras notas, pequenos “caxias” em busca de conhecimento. 

O período antigamente chamado de “Ginasial”, que percorrêramos juntos no colégio, dera motivos para o apreço. Tivéramos professores de primeiríssima linha, naqueles anos, professores da jovem UEPG, muitos que haviam lecionado para os nossos pais, outros jovens fora de série, que também marcariam gerações.

As viagens de dona Ismênia a Roma, Grécia e Egito logo na quinta série, com aquela estupenda coleção de ‘slides’, foram a isca. A descoberta da história de Ponta Grossa, a partir das aulas na praça, com o professor Orlando, foram a nossa própria ‘Sociedade dos Poetas Mortos’, muito antes do filme, ainda no oitavo ano. 

Quando a “nova” turma chegou, agregando-se à nossa, no primeiro ano, tivemos comportamentos opostos. Nós, calados; eles, rebeldes e bagunceiros. Rapidamente voltariam as suas armas para nós, é claro. Faziam brincadeiras, gozações variadas, punham apelidos na “bichinha”, no “gordo”, no “japa”. E nós, calados. Fazíamos questão de prestar atenção nas aulas, solidários com o rapazinho ali na frente, pouco mais velho que a gente, com a folha de chamada tremendo na mão, em frente à lousa, que lecionava química e só relaxava quando se voltava de costas para a turma, escrevendo com giz. 

Um dia, um dos meninos do outro colégio (com ênfase quase xenófoba) levantou-se para jogar algo no lixo, e, para isso, passou à frente das colunas de carteiras paralelas, por trás do professor, na volta fingindo tropeçar neste, arrancando risos e impropérios de metade da plateia (adivinha qual?).

Em outra ocasião, arrancaram-nos um dos cadernos de literatura, que passavam de mão em mão. A “pagação” foi imediata. “Olha que lindo!”, disse um, o caderno aberto nas mãos, protegido pelos colegas, no intervalo das aulas, assim que começou a ler. “Os coleguinhas escrevem poemas no livrinho de recordações?”

“Ha, ha, ha, será que vão debutar também?”, alguém respondeu. 

“Ih, lista de empréstimo? Como assim?”, disse o primeiro. “Deve ter sacanagem nessa história, isso sim!”

Levou dias até que entendessem do que se tratava. É que tínhamos três proto-escritores na turma: R., H. e este digitador. Dos três, o gênio era R. — alto e magro guru que na sétima série apareceu com um caderno cheio de escritos para lermos, depois outro e mais outro, naquela época já bem mais de meia dúzia de romances satíricos, a maioria pastiches de mistério em que tanto alguns de nós, alunos, quanto professores virávamos personagens.

Eram best-sellers de, no máximo, 40 leitores, mas certamente muito apreciados por todos. O humor ácido de R., a um só tempo exagerado e compassivo, era o espelho onde, pouco a pouco, os alunos se viram, distorcidos, mas reconhecíveis, amáveis até. A lista de assinaturas na última página de cada caderno nada mais era que uma tentativa de R. rastrear com quem cada volume estava. 

A história das novelas nos cadernos foi esquecida, afinal, mas a integração dos alunos ainda estava longe de acontecer. Ah! Esqueci de contar, embora implícito na narrativa, que este não era um colégio misto. Ou até era, só que à noite. De dia, meninos pela manhã, meninas à tarde. Muita coisa nesta história mostra que não há diferença alguma, “folks are folks”, e outras provarão o contrário. 

Y., o japa, estava fulo da vida. Arrancava os próprios cabelos de raiva. “Eles não me deixam prestar atenção! Não calam a boca! Eu preciso passar no vestibular!” Eu mesmo não o reconhecia, e me perguntava por onde andava o fã de Spock, o oriental racional, enxadrista do tabuleiro e da vida. 

As provocações continuavam, e ainda que, vistas sob a lente do tempo, pareçam pueris (como quase todos os problemas adolescentes), incomodavam. Entretanto, nos acostumaríamos a elas, e já começávamos a arremedar e a provocar também. 

A gota d’água foram os canudos. Aqueles canudos que acompanhavam bandeiras de time, ocos por dentro, de plástico preto, sabe? Os meninos enrolavam pedaços de papel em forma de cone, inseriam no canudo e sopravam, usualmente no pescoço de algum colega sentado à sua frente. A pancada doía, precedida de um “pfuuu” que deixava todos em alerta, sucedida invariavelmente de um “ai!” A aula parava, o professor perguntava quem foi, os meninos riam, a aula continuava. 

Numa escalada de violência sem precedentes, Y. foi o primeiro a revidar, para surpresa de todos, trazendo um canudinho fino, daqueles de refrigerante, e soprando bolinhas de sagu cru nos oponentes — mais silenciosas e letais. 

Na hora do recreio, estávamos todos lá, novos e velhos alunos ao seu redor, admirando a astúcia da arminha, fazendo mais provocações. No dia seguinte, eu mesmo levei um canudo de bandeira cortado, e um bom tanto de setinhas de papel. D., S., R., M. e outros da velha gangue também. Logo as aulas se tornariam insuportáveis. 

Reunidos na casa de Y., continuamos a escalada de terror: centenas de setas de papel, canudos de todos os calibres, munições como arroz e feijão (além do sagu), estilingues para jogar porrolhos, clipes e elásticos. Quase tudo chegaria ao colégio na mochila gigante de Y., aluno acima de qualquer suspeita. 

Na hora combinada — intervalo da segunda para a terceira aula —, medramos. O professor novinho ficou na classe por mais tempo, a próxima mocinha chegou cedo, estava dando aula na sala ao lado. Não rolou. Deixamos para o recreio, e, quando este chegou, ambos os exércitos decidiram mudar o local da batalha para o pátio. Acharíamos um lugar (eram três os pátios) longe dos inspetores, com poucos alunos. Descemos, e (surpresa!) não rolou também. Pátios cheios, alunos espalhados, inspetores passeando de lá para cá. 

Já estávamos desistindo quando alguém chegou com a notícia de que havia uma sala em reforma, sem uso, aberta. Por que não fazíamos lá a tal guerra de canudos? Escolhidas as armas e o cenário, fomos entrando despistadamente na sala dois, ao lado da que usáramos na quinta série. As cadeiras empilhadas (para uma reforma ainda não iniciada) viraram barricadas. De um lado, a mesa do professor, a nossa mísera trincheira.
 
O alarido das crianças, lá fora, abafou os nossos gritos de ataque, o pu-pu-pu dos sopros nos canudos, as mãos que jogavam de volta tudo que estava à sua volta. Deve ter durado uns cinco minutos, no máximo, a nossa peleja, encerrada pelo fim das munições. A barricada cedera, a mesa do pregador jazia tombada debaixo de nosso samurai, o chão coberto por um tapete de grãos variados (milho! Não pensáramos nisto!), papéis em todos os formatos, uma camada de setas de bico torto. 

A consciência retornou em um átimo. Que lambança que a gente fez! “Putaqueuspa!”, grita um dos garotos, abraçado com o rival de cinco minutos atrás. Uns riam, aquele tossia, outros ainda imóveis, em choque com a violência da brincadeira. 

Tomei a palavra: “Tá todo mundo bem?”

“Sim”, disseram. 

“Então vamos pensar no que fazer!” 

Em questão de segundos, todos falavam ao mesmo tempo. As ideias mais estapafúrdias surgiram: fugir todo mundo é só voltar amanhã; sair de fininho, um a um; esperar até meio-dia para sair da sala…
 
“Limpar e arrumar tudo”, sugeriu um dos outros. 

“Isso!”, replicou o samurai. 

“Mas limpar como? Impossível!”

E ficamos orbitando essas opções quando me veio a ideia: “Que tal nos apresentarmos todos ao Bastico?”

“Você está louco, não, de jeito nenhum, vamos ser suspensos, expulsos, sei lá. Nossos pais ficarão sabendo”, alegaram alguns. 

“Bastico” era o apelido carinhoso do professor Sebastião, que dirigia com mão de ferro a instituição. Sob a escada, no saguão principal, a “Basticaverna”, onde alunos indisciplinados assinavam o “Livro Preto”: três assinaturas indicavam expulsão imediata. 

“Ele não vai expulsar a turma toda. Nem mesmo suspender, garanto. Vamos convencê-lo de que estamos arrependidos, que iremos limpar a sala, pegaremos vassouras e baldes com a zeladoria, e deixaremos tudo um brinco!”

A ideia venceu. Esperamos o recreio acabar, a formatura, a entrada das turmas, e, quando tudo silenciou, começamos a sair, um a um. De cara encontramos o inspetor Ivo, o mais temido. 

“Que que vocês tavam fazendo naquela sala? É proibido entrar lá!” 

Enquanto procurávamos resposta, ele se viu cercado por 40 alunos, e, lentamente, começou a compreender do que falávamos. Assentiu em levar-nos ao diretor, que, aliás, já vinha ao nosso encontro pelo corredor aberto ao pátio central. 

Surpreendentemente, o Bastico, de ótimo humor, chegou a rir um pouquinho ao murmurar “Mas uns marmanjos fazendo isso…”, e aceitou a oferta. “Que fique claro, contudo, que qualquer infração, eu disse ‘qualquer’, vocês serão imediatamente suspensos!” E saiu resmungando: “Que vergonha, uma turma inteira!”

Assim o fizemos, entregando a sala toda arrumadinha antes da saída. Perdemos duas horas, em que levaríamos falta. O trinco da porta fora quebrado, a turma pagaria e providenciaria o conserto. A brincadeira acabou custando pouco. 

Não muito tempo depois, a história transpôs os muros do colégio e virou lenda urbana. Conhecidos de todos os lugares e escolas, que sabiam que eu estudara no Regente, perguntavam se eu tinha estado na tal Guerra dos Canudos. Em certos relatos, a história tomava tamanho de verdadeira guerra civil, envolvendo uma centena de alunos e os três pátios do colégio, uma Primavera dos Povos estudantil. 

Eu só ria, por dentro. Não negava nem confirmava nada. Sobre o assunto, só conversávamos entre nós. Um “nós” diferente, que agora incluía os meninos oriundos do outro colégio, lá perto de casa.

Nada como uma guerra para fazer amigos. 

Um tempo depois, troquei de escola, por uma série de motivos que não cabem aqui (nada a ver com a guerra, tá?, antes que perguntem). Ao chegar na nova classe, agora mista, no colégio particular, a primeira pergunta que ouvi, é claro, foi: “Você por acaso estava na Guerra de Canudos?”

I did chuckle.


RENATO VAN WILPE BACH é médico, professor e escritor

* Dedicado a Homar P. Antunes Pinto e Denilson Antônio Cavina, in memoriam.

Este texto faz parte da série 'Histórias de Ponta Grossa', do portal 'NCG', em que alguns dos maiores escritores locais produzem crônicas exclusivas e inéditas, verídicas ou não, envolvendo personagens, lendas, acontecimentos ou locais da cidade. 

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