23/06/2021 às 15h47min - Atualizada em 23/06/2021 às 15h47min

Cinco perguntas para Professor Gadini

O professor, pesquisador e candidato do PSOL à Prefeitura Municipal em 2016 e 2020 fala sobre as eleições presidenciais de 2022, o papel das esquerdas diante do próximo pleito eleitoral, o governo Bolsonaro, a administração Elizabeth Schmidt e o transporte coletivo em Ponta Grossa

Da redação
Foto: Reprodução
Sérgio Luiz Gadini, mais conhecido como “Professor Gadini”, é um, mas é três. Além de atuar como professor do curso de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), o gaúcho de Ronda Alta é um reconhecido pesquisador na área de comunicação e um intenso ativista político. Tão intenso que já se candidatou duas vezes à Prefeitura de Ponta Grossa pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) – a primeira em 2016, quando conquistou 6,93% dos votos válidos, e a segunda em 2020, quando conquistou 3,04% dos votos. Na entrevista a seguir, é o Gadini ativista político quem fala sobre as eleições presidenciais de 2022, o papel das esquerdas diante do próximo pleito eleitoral, o governo Bolsonaro, a administração Elizabeth Schmidt e o transporte coletivo em Ponta Grossa. 

As articulações e debates para as próximas eleições presidenciais já começam a se desenhar. Como você avalia o pleito eleitoral de 2022? O eleitor brasileiro se obrigará a votar entre Lula e Bolsonaro, ou deve surgir uma terceira via?

O risco de polarização eleitoral no Brasil existe desde o fim do regime militar [1964-1985], pois apenas a primeira eleição direta para presidente [em 1989] não registrou polarização. A partir daí, o PT [Partido dos Trabalhadores] esteve em todas disputas presidenciais no segundo turno. Portanto, isso não será novidade. O governo Bolsonaro tenta se firmar como opção de continuísmo e conta com o peso e a força da máquina administrativa; os velhos esquemas da política tradicional, como negociatas, liberação de verbas para aliados, trocas de cargos por apoio no Congresso; e a aliança ao Centrão e também ao núcleo empresarial que ainda se beneficia dos favores da gestão federal – por exemplo, sonegação, desregulamentações, desmatamento e desrespeito ambiental…

 
“O estrago que a gestão Bolsonaro está fazendo em praticamente todos os setores pode surpreender e impactar negativamente os planos eleitorais da família e dos aliados”

Neste cenário, se olhar hoje, é até previsível que as duas pré-candidaturas presidenciais mais visíveis sejam consideradas em destaque nas projeções. Agora, é preciso atentar à realidade, pois o tamanho do estrago que a gestão Bolsonaro está fazendo em praticamente todos os setores da vida da maioria da população pode surpreender e impactar ainda mais negativamente os planos eleitorais da família e dos aliados. E, aí, fica uma pergunta: até onde os atuais aliados, que hoje se beneficiam dos desmandos e contam com verbas federais para as suas bases eleitorais, vão segurar por meio do voto e do apoio um governo que, a cada dia, se mostra mais ineficiente e não tem proposta para mudar a situação? Deputados, senadores e até vereadores que votam em tudo que governistas pedem vão mesmo apoiar a família Bolsonaro diante do crescente desgaste em 2022?

Agora, parte da expectativa com uma terceira via, na prática, é de alguns analistas que gostariam de ter uma opção pela direita, inclusive considerando o risco de Bolsonaro naufragar antes do previsto, e também pela dificuldade de sustentar a versão agora conhecida e indefensável do atual governo.

Muito se fala, entre intelectuais de esquerda, sobre uma certa desunião entre as correntes progressistas. Inclusive, alguns cientistas políticos afirmam que essa falta de união pode acarretar na reeleição de Bolsonaro em 2022. Qual deveria ser, na sua opinião, o papel das esquerdas diante do desafio das próximas eleições?

A unidade de que se fala, e que precisa ser compreendida, é para construir as lutas sociais, que podem melhorar a vida da maioria da população. Essa unidade é fundamental e precisa ser construída de forma mais acentuada neste momento em que os desmandos e desrespeitos por parte dos governos federal e estaduais prejudicam diuturnamente. A crescente pobreza é prova de que as lutas precisam ser fortalecidas para combater a política de morte, que banaliza a vida de brasileiros e brasileiras.

O Brasil não pode entrar na onda de que só com eleição vai mudar, pois, até o fim deste governo, qual será o saldo da destruição de famílias e vidas? Só as lutas unificadas, na rua e com todos cuidados de segurança sanitária e distanciamento social, podem forçar o governo a tomar medidas para barrar a onda de mortes e a indiferença com o aumento da pobreza que afeta a todos, inclusive milhões que ajudaram a eleger essa gente que hoje governa para poucos e silencia com a morte diária.

Aliás, os debates em redes sociais, nos espaços e veículos de comunicação e nos parlamentos – câmaras, assembleias e Congresso Nacional – precisam focar na urgência de medidas e políticas públicas, e não em antecipar a disputa eleitoral, enquanto milhares de vidas são roubadas de nosso convívio diariamente pelo descaso e pela má gestão dos governos.

 
"Uma unidade [das esquerdas] apenas para disputar eleição é coisa pontual e, portanto, deve ser consequência das ações concretas de lutas por melhores condições de vida"

Uma unidade apenas para disputar eleição é coisa pontual e, portanto, deve ser consequência das ações concretas de lutas por melhores condições de vida às maiorias silenciadas. E esse é o convite e o desafio que fazemos aos mais diversos setores sociais insatisfeitos com os desmandos em marcha no país, inclusive para quem ainda olha as lutas da janela ou apenas da tela do computador e do celular. Só as lutas coletivas organizadas podem mudar a vida. E, nos momentos de disputa eleitoral, podemos, e precisamos, estar juntos também, mas não apenas em eleição.

E provavelmente diversos partidos, que apostam na mudança da política brasileira, devem apresentar candidaturas ao primeiro turno da disputa eleitoral em 2022, inclusive porque a atual legislação tem cláusula de barreira às legendas que não atingem percentual mínimo de representação em votos por estados. E isso é parte da disputa política. Simples.

Como você avalia o Brasil de Bolsonaro? Na sua opinião, quais foram os setores (administrativos, políticos, econômicos, sociais etc) que mais foram impactados pelo atual governo?

O governo Bolsonaro opera no velho e viciado esquema da política brasileira: bravata, toma-lá-dá-cá – parceria com o Centrão, por exemplo –, e, ao menos até agora, se caracteriza por uma prática que até então não era tão explícita e descarada por parte dos governantes: a mentira e o uso da função de governo para desconversar e atacar quem não concorda com ele, como se pode confirmar com os frequentes ataques a jornalistas que apenas perguntam em entrevistas. Os exemplos são incontáveis e parecem tentar esconder uma incapacidade política para administrar o país. O ataque às liberdades democráticas, como o exercício do jornalismo, infelizmente se tornou rotina no governo, como denunciam frequentemente a Federação Nacional dos Jornalistas [FENAJ], a Ordem dos Advogados do Brasil [OAB] e a Associação Brasileira de Imprensa [ABI].

 
“O governo Bolsonaro opera no velho e viciado esquema da política brasileira: bravata, toma-lá-dá-cá e mentira escancarada”  

Agora, francamente, não existe um único setor no atual governo federal em que se poderia constatar, com alguma tranquilidade, uma administração técnica defensável – inclusive o agronegócio, que se diz beneficiado, é mais pela desvalorização do real frente ao dólar e ao euro do que propriamente por ações econômicas efetivas. O que existe, e isso é fácil demonstrar, é que o governo privilegia e beneficia poucos setores, que ele considera aliados: os militares, com recursos e aumentos salariais, enquanto a maioria dos servidores públicos arca com o congelamento sem reposição do índice inflacionário; os grileiros, que lucram com o desmatamento e a comercialização ilegal de madeira; os sonegadores de impostos, que continuam atuando sem ser importunados; e os vendedores de medicamentos sem comprovação científica contra a COVID-19, que seguem lucrando bem. São alguns dentre diversos casos que marcam um governo para poucos.
 
“Não existe um único setor no atual governo federal em que se poderia constatar uma administração técnica defensável – inclusive o agronegócio, que se diz beneficiado, é mais pela desvalorização do real frente ao dólar e ao euro do que propriamente por ações econômicas efetivas”

Ah, mas tem a economia! “Se fizer muita besteira, o dólar pode ir a R$ 5,00”, disse o considerado poderoso ministro da Economia, em março de 2020. Alguma dúvida da incapacidade administrativa governista? Agora, claro, se perguntar a um deputado do Centrão, que vota em tudo o que governo apresenta no Congresso Nacional e tem verbas liberadas para fazer propaganda eleitoral, provavelmente ele deve dizer que a “economia está melhorando”, como assessores e agências pagas com dinheiro público propagam em grupos de redes sociais, criando uma bolha de ilusão, que não condiz com a realidade vivenciada pela grande maioria da população.

E, enfim, há o descaso com a pandemia. “É só uma gripezinha”, “não sou coveiro”, “tem idiota que diz vai comprar vacina”, propagandeando remédio sem base científica e agindo com injustificada lentidão na compra de vacinas, desde meados de 2020. Esse é um dos emblemas da atual gestão do governo federal. 

Você é um professor e intelectual muito atuante e participativo no que se refere a pensar e discutir a cidade de Ponta Grossa. Como você analisa o primeiro semestre da gestão da prefeita Elizabeth Schmidt, em seus mais variados aspectos?

Os números confirmam que as recentes administrações municipais de Ponta Grossa, de 20 anos para cá, priorizaram políticas de reprodução de vícios e problemas sociais, sem exceção, silenciando ou incentivando uma expansão urbana que foi, e ainda é, apresentada como “crescimento” ou “desenvolvimento econômico”, loteando áreas rurais distantes da área central e, ao mesmo tempo, deixando loteamentos e zonas desocupadas em bairros centrais, gerando uma onda incontrolável de problemas, que nenhum prefeito ou prefeita consegue conter. Desde meados de 1990, a população se tornou refém de acordos da especulação imobiliária, que vereadores e prefeitos fazem de conta que é normal e que sequer discutem, pois envolvem interesses e negociações que ajudam os mesmos em momentos de eleição.

 
“Não há dinheiro para bancar o modelo perverso de cidade que existe em Ponta Grossa, que dá lucro apenas aos especuladores, construtoras e loteadoras. Quem paga a conta, logicamente, é o povo pobre, que precisa morar longe do Centro”

A especulação imobiliária encarece o transporte, pela distância e pela necessidade de linhas para atender moradores. E a cidade espalhada pela ampliação de áreas urbanas em longas distâncias também aumenta o custo da gestão pública em saúde e educação, pois é necessário manter mais postos e escolas em funcionamento, além das demandas de pavimentação e saneamento básico, necessários nos bairros distantes.

Nestes seis primeiros meses da atual administração, o que a prefeita – que foi vice na gestão anterior – fez a esse respeito? Nada! Posso esperar que faça algo? Gostaria muito, lógico, mas não se pode ter ilusão com velhos vícios de gestão pública em Ponta Grossa.

Um exemplo: o projeto do Plano Diretor, em discussão desde 2016, que está na Câmara, deveria ser um marco e uma virada na administração local, desde que a prefeita e a maioria dos vereadores entendessem a importância e a urgência de rever a lógica da especulação urbana com os incontáveis problemas decorrentes do silêncio que impera na Prefeitura. De acordo com uma lenda urbana da cultura popular regional, o problema seria o tal ‘lobisomem da Ronda’, que se habituou aos vícios da velha política nas redondezas do conhecido bairro de Ponta Grossa. E, pois, gestores responsáveis sairiam ilesos também desta vez.

Desde o início da pandemia, a Viação Campos Gerais (VCG) vem enfrentando sérias dificuldades. E isso não só por causa da pandemia e das paralisações determinadas por decretos, mas também por causa do crescimento do transporte por aplicativo (Uber etc). Como você acredita que o transporte coletivo pode sair dessa crise? O que fazer diante desses dois “inimigos” (a pandemia e o transporte por aplicativo)?

O problema do transporte coletivo em Ponta Grossa é de gestão pública, que reproduz vícios políticos e se traduz na incapacidade, por incompetência ou intenção, do que deve ser a função social da administração com serviços essenciais, e aí surge a ilusão com a suposta competência de empresas privadas.

O contrato vigente até 2022 é o exemplo simples da análise acima, pois se trata de Lei aprovada pela maioria de vereadores a pedido do prefeito do PT [Péricles de Holleben Mello] em 2002. O contrato prevê, entre outros itens questionáveis, lucro direto na gestão do serviço, além de remuneração da diretoria, diante da ausência de condições efetivas da Prefeitura na fiscalização necessária e permanente. O que decorre desse modelo é a realidade que aí está, até porque o ex-prefeito seguinte [Pedro Wosgrau Filho], do PSDB, gostou tanto do contrato que decidiu renovar automaticamente por mais dez anos sem qualquer debate com a população.

E, assim, os três problemas centrais – alto custo da tarifa, qualidade, e regularidade nas linhas e rotas – deveriam pautar audiências e debates sobre a próxima licitação do transporte coletivo no município. 

O serviço de táxi privado por aplicativo – 99, Uber e afins – não seria problema, desde que regulamentado e não para dar lucro a acionistas de empresas de fora da cidade e até do país. Exemplos de diversas cidades poderiam ser desenvolvidos em Ponta Grossa, gerando emprego e garantindo mobilidade a baixo custo, mas precisa ser planejado e regulamentado pela Prefeitura e pela Câmara Municipal, seja para atender regiões onde os ônibus ainda não chegam, para gerar emprego e também para controlar o aumento do fluxo de veículos nas áreas centrais. Regulamentar transporte coletivo é política pública.

 
“O serviço de táxi privado por aplicativo – 99, Uber e afins – não seria problema, desde que regulamentado e não para dar lucro a acionistas de empresas de fora da cidade e até do país”

E, por fim, não é financiando empresa privada com dinheiro público que se revolve problema de transporte em nenhum lugar do mundo – e não seria em Ponta Grossa que uma saída desse nível resolveria a situação. Ou seja, de novo, falta iniciativa, capacidade técnica e, acima de tudo, disposição e vontade política para resolver os problemas de administração pública que afetam a maioria da população.

A pandemia não é um problema apenas da gestão local, mas certamente poderia ter menos impactos se a Prefeita compreendesse que não há polarização entre saúde e economia, mas que só o controle da situação – com políticas de redução da mobilidade, programas de renda solidária e rapidez na vacinação –, aliado a medidas de distanciamento social e prevenção, podem assegurar vida à população. Isso é governar para todos e todas. 

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