26/06/2021 às 09h25min - Atualizada em 26/06/2021 às 09h25min

CRÔNICA: O chapéu mágico do poeta, por Lucia do Valle

Ninguém viveria naquele aperto sem reclamar do calor e do cheiro dos cravos deixados para espantar as traças. E por que razão o poeta Ribas Silveira precisaria de espaço? A sua imaginação atravessava paredes, ruas, transpunha rios e mares

Por Lucia do Valle
O poeta Ribas Silveira na idade adulta (Foto: Arquivo pessoal)
Velho, velho cheirando a velho. Nunca entendi o porquê da calça amarrada por um cordão. Cadê a cinta? E o andar arrastado, a boca faltando dentes! Ah, mas era o chapéu Prada que lhe dava a aura de beletrista.

“Não suba aí”, eu ouvia a minha avó gritar. Mas a escada de madeira, com o corrimão retorcido, brilhava, brilhava por ser bem cuidada, brilhava por incitar a curiosidade. Ela levava ao sótão, ao quarto dele, ao santuário do poeta Ribas Silveira. 

Do lado esquerdo, a cama de solteiro, com a base de molas e o acolchoado de penas. O travesseiro ficava no lado oposto à pequena janela. A massa que prendia os vidros há muito secara, e, por isso, eles tremulavam em dias de ventania. Dali se avistava a imponente araucária, do outro lado da rua, bem no meio do terreno baldio. Talvez ali nascera a inspiração para ele cantar em versos: “beleza dos prados princesinos / Nenhum artista poderá pintá-la: / somente Deus com seus pincéis divinos / nas rendas do luar pode estampá-la…” 

A acanhada janela parecia tão insignificante quanto o cômodo apertado, o qual, além da cama, tinha livros espalhados por todos os cantos. Decerto, era a janela para o mundo de sua imaginação, quando compunha versos sobre a região dos Campos Gerais e outras longínquas regiões, fora de sua morada e distante de seu tempo. O teto era íngreme, e quem sofresse de claustrofobia não ficaria ali nem um minuto. Só o gato malhado sentia-se em casa. Afinal, era bem tratado, espantava os camundongos. Talvez em virtude da baixa altura do sótão, na velhice, o homem das letras caminhasse arcado. Ninguém viveria naquele aperto sem reclamar do calor e do cheiro dos cravos deixados para espantar as traças. E por que razão ele precisaria de espaço? A sua imaginação atravessava paredes, ruas, transpunha rios e mares. Ninguém sabia quanto tempo ele passava no abafante refúgio. Fato é que ninguém o via tomando Cine de framboesa no Ponto Azul, nem comendo pipoca na Praça da Matriz, onde gostava de sentar-se e ouvir a missa da tarde. 

Ele cheirava a velharia, mas de sua alma vertia o perfume da modernidade, afinal, a “princesa liberal coordena e apura / o esforço dos titãs da enxada e malho, / estimulando a indústria e a agricultura, / dando a todos esplêndidos agasalhos”. Ele se orgulhava de seus versos sobre os prados princesinos. Adorava o lírico, mas a modernidade avançou rápido desde a inauguração da Estação Ferroviária, então, ele esquecia ser beletrista, e, empregando o lugar-comum, dizia aos amigos do Centro Cultural Euclides da Cunha: “São novos tempos, novos tempos, meus caros!”

Quem o via arrastar os pés nas calçadas da avenida Sete de Setembro jamais diria que a desleixada figura escrevera sobre os antigos persas com a mesma desenvoltura com que escrevera sobre a guerra do Paraguai. A sua grandiosa e pertinaz imaginação sobrepujava o desleixo com o corpo e a saúde. Ele não parecia ser feito de carne e osso, pois que era inteiro palavras.

Jamais entendi o motivo de suas calças estarem sempre amarradas por cordões gastos, mas eu tinha certeza: aquele chapéu era mágico, afinal, de onde viriam tantos versos? Na minha cabeça de menina, pelas minhas contas, eram mais de cem! Ainda guardo o cheiro de cravo, ainda sinto o calor abafado do sótão. Quando a saudade dos meus tempos de menina me rondam, eu me lembro que estou sentada ao seu lado, na Academia de Letras dos Campos Gerais, e que tenho histórias para contar do tempo que, pelas avenidas e praças de Ponta Grossa, sob o chapéu Prada de Ribas Silveira, nasceram versos apaixonados pela terra que ele habitou em sua existência e pelas terras que ele visitou em sua imaginação.

LUCIA DO VALLE é escritora, natural de Ponta Grossa. Doutorou-se em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Foi professora do curso de Serviço Social da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), onde, além da docência, também exerceu cargos administrativos. Publicou os livros ‘O Mercador de Ideias’, em 2012; ‘Entre o Caos e o Bom Humor – enfrentando uma doença crônica’, em 2013; ‘Contos da Primeira Guerra Mundial’, em 2016; e ‘O Guardião de Heildelberg’, em 2020. Foi eleita, em novembro de 2016, para a Academia de Letras dos Campos Gerais, como primeira ocupante da cadeira nº 22. É integrante da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes (APLA) desde 2014. 

Este texto faz parte da série 'Histórias de Ponta Grossa', do portal 'NCG', em que alguns dos maiores escritores locais produzem crônicas exclusivas e inéditas envolvendo personagens, lendas, acontecimentos ou locais da cidade. 

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