03/07/2021 às 12h09min - Atualizada em 03/07/2021 às 12h09min

CRÔNICA: Tombada, por Renata Regis Florisbelo

"… aquela placa não chega a ser uma pedra no sapato da Princesa (dos Campos); seria mais semelhante ao desconforto da acne indesejada que surge na face adolescente em dia de festa"

Por Renata Regis Florisbelo
Foto: NCG
No meio do caminho tinha uma placa. Tinha uma placa no meio do caminho. Não era uma pedra? Sim, na versão original, do Drummond, fazia-se menção a uma desconfortante e intrigante pedra, que se fez marcar pelos versos do poema. Aqui, não chega a ser uma pedra no sapato da Princesa (dos Campos); seria mais semelhante ao desconforto da acne indesejada que surge na face adolescente em dia de festa. Na realidade, era uma placa, fazendo-se notar no meio da calçada.

Passando todos os dias, sem falta, na esquina entre as ruas Contenda e a Colombo, na vila Estrela, não pude deixar de perceber a nova placa. Admito, as placas chamam mesmo a minha atenção, nunca passam despercebidas, em especial pela pitoresca sorte de formas, cores, materiais e artes empregadas num pseudopadrão para se tentar informar a mesma coisa. As que indicam lombada são as piores, e haja imagem de corcova despadronizada pela cidade.

A placa em questão não é de lombada. Ufa, que alívio, uma a menos. A lombada? Não! Uma placa despadronizada a menos para poluir a paisagem. A lombada mesmo até que é divertida. A referida placa é de alguma coisa que, curiosamente, não lembro do que se trata. Entretanto, já assumo compromisso com os leitores de, até o final desta crônica, descobrir o tema. Eu poderia suprimir essa parte e simplesmente deixar para conferir o seu conteúdo informativo quando passar por ela pela enésima vez na próxima manhã, mas confesso a falta de recordação quanto ao seu conteúdo, apesar do incômodo pela situação.

A placa, neste caso, é bem-feita e até bonita, embora este seja um estranho adjetivo para esse tipo de objeto. Tem um brilho diferente, e não estava ali há algumas semanas. Sem mais delongas, vamos ao detalhe pitoresco: ela está tombada. Por certo, foi atingida por algum veículo distraído acompanhado de um motorista igualmente desconcentrado que aplacou em cheio o seu dorso, uma pobre vítima. Resultado: todo dia, ao dobrar aquela esquina, encontro a triste placa tombada, avançando em sentido perpendicular à calçada. É triste a cena. Ela olha para mim e pede socorro. Tornou-se uma placa profundamente infeliz, relegada ao infortúnio de sua desgraçada condição. Para complicar tudo, tenho percebido que a angulação se torna maior a cada dia, já quase paralela ao chão. Fico mortificada em constatar aquela placa quase cadáver e ninguém a lhe ressuscitar.

Em meio ao fatídico tombamento, sobreveio (já ia esquecendo) o pensamento fugidio do que contém a placa. Afinal, assumi compromisso com a verificação. Frágil e inútil informação, já confessei que sequer percebi do que se tratava a comunicação. Intrigada, fiquei com a crônica inacabada e a mente aguçada. Na manhã seguinte, a urgente visualização. A mensagem que agoniza é a proibição de estacionamento para veículos acima de 35 toneladas. Curioso, pitoresco? Estranhei o peso, principalmente considerando que, na mesma rua, outras três placas iguais se sucedem, mas informando o valor máximo de 3,5 toneladas. Creio que algo com a natureza de elevado peso abalou-se contra a placa, tombada, despropositada, na paisagem mal espetada; e, quanto ao conteúdo, provavelmente, equivocada. No meio do caminho tinha uma placa, triste, tombada.

A vida e as suas encruzilhadas. Pouco mais de uma semana depois, eis que me deparo com a placa em sua outrora haste tombada, agora, finalmente, decepada. Do fio da vida fora desligada. No meio do caminho tinha uma placa, arrancada, mortificada, na calçada sepultada.

RENATA REGIS FLORISBELO é escritora, integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais, do Centro Cultural Professor Faris Michaele e da Academia Ponta-grossense de Letras e Artes

Este texto faz parte da série 'Histórias de Ponta Grossa', do portal 'NCG', em que alguns dos maiores escritores locais produzem crônicas exclusivas e inéditas envolvendo personagens, lendas, acontecimentos ou locais da cidade

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