03/07/2021 às 13h26min - Atualizada em 03/07/2021 às 13h26min

RESENHA: O melhor romance sobre o Brasil distópico de hoje, por Miguel Sanches Neto

A história de 'Solução de Dois Estados' guarda uma força de representação do Brasil atual ainda não atingida por nenhum outro autor contemporâneo

Por Miguel Sanches Neto
Foto: Reprodução
Acompanho da produção de Michel Laub desde o início. Agora, saio destruído da leitura de seu romance mais recente – Solução de Dois Estados (Companhia das Letras, 2020, em segunda edição). Não é apenas o seu melhor romance, é o melhor romance contemporâneo brasileiro, fora de todas as nucleações grupais e das conveniências ideológicas. Um livro solitário como é toda obra-prima. O uso de uma estrutura narrativa original não impõe intepretação autoral sobre o que se narra.

A qualidade do romance advém principalmente de uma escolha estrutural de Laub. O romance moderno sempre se aproximou de outras linguagens para implodi-las. Aqui, Laub usa a estrutura do documentário cinematográfico para falar do Brasil. Vivemos uma era de hegemonia da não-ficção, tanto na literatura quanto no cinema e nas artes. Então, o romance nasce nas ruínas de um material bruto, fragmentário, sem edição final – para o desconforto dos leitores acomodados. A história guarda uma força de representação do Brasil atual ainda não atingida por nenhum outro autor contemporâneo. 

Uma irmã de 130 quilos usa o corpo em filmes que emulam os vídeos pornôs para testar o nível de aceitação da diversidade entre os bem-pensantes, a classe progressista. Nestes vídeos, ela escancara a violência não apenas visual mas também real que alimenta os espectadores que não veem a arte mas apenas o naturalismo sexual daquele corpo incômodo. 

Do outro lado, o seu irmão, um pastor evangélico e dono de uma academia de musculação (pretenso self-made man), que ganha poder no Brasil pré-eleição presidencial. Os irmãos se odeiam e não conversam entre si, mas um acusa o outro. A mediação é feita por uma cineasta alemã, viúva de um brasileiro morto violentamente por uma bala perdida, que entrevista separadamente os dois, depois que a irmã leva uma surra com uma barra de ferro durante uma performance de nudismo num encontro de intelectuais em um centro cultural de um banco na Avenida Paulista.

O romance é um conjunto de fragmentos destas duas longas entrevistas, entremeados por comentários chulos sobre os filmes da irmã e vídeos de conversão da organização evangélica Império. 

Com isso, desaparece a voz autoral, que reivindicaria isso ou aquilo. É o leitor que deve editar este material e chegar a uma verdade sobre ele. Solução de Dois Estados é um livro-armadilha para o leitor. O que ele pensa sobre a artista obesa que conjuga em seu corpo nu o ódio da plateia? O que ele pensa do irmão oportunista, que arregimenta uma legião de zumbis  desnorteados, de ex-criminosos, para a sua religião altamente politizada, fazendo deles milicianos sem cérebros, apenas músculos? O que ele pensa dos intelectuais esclarecidos que se silenciam diante da violência sofrida pela artista de 130 quilos? O que ele pensa sobre a cineasta alemã que produz filmes sobre o ódio entre grupos rivais depois de ter perdido violentamente o seu marido?

Esta ausência de julgamento no corpo da narrativa faz do romance uma obra além do moralismo bem-intencionado, que deixa sempre claro o lado certo da realidade. Não é nada militante e, no entanto, escancara o crescimento do poder dos milicianos. Este o grande feito artístico de Michel Laub, fazer um grande livro político sobre o Brasil sem cair na cilada das certezas, gerando no leitor um desconforto por ter que construir uma visão própria e provisória sobre um material social e político que o atinge diretamente. Se vemos no livro como nasce um deputado miliciano, vemos também como o silêncio de uma classe progressista, patrocinada por bancos generosos que controlam os limites da arte aceitável, faz do bom gosto e da conveniência a sua prisão.

Romance poderoso, incômodo, muito além das cartilhas que produzem livros em série sobre o Brasil, Solução de Dois Estados ficará como a grande obra de um país em guerra civil, de ódios extremos entre irmãos.

MIGUEL SANCHES NETO é escritor, professor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG)

 
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