03/07/2021 às 13h54min - Atualizada em 03/07/2021 às 13h54min

O dia que punks e metaleiros se renderam ao baião em um bar de Ponta Grossa

“O que é mais punk do que você chegar em um lugar punk e tocar uma coisa totalmente diferente do punk?”

Por Daiani Martins Machado
Foto: Divulgação
Era um domingo de julho de 2017, final de tarde, quando os seis músicos, com roupas coloridas, chegaram ao local da apresentação. Logo pensaram que talvez não coubessem todos no palco, pois, além de muitos, ainda havia os instrumentos, bastante diversos. O bar possuía uma boa estrutura em equipamentos, o que permitiu à baterista não precisar levar o seu instrumento completo, podendo tocar com o que já tinha no local. O resto do grupo… Bom, esses tiveram que dar um jeito e se acomodar no espaço.

O local em questão é o CBGBar, também conhecido como “Bar do Regis”, localizado no bairro da Palmeirinha, em Ponta Grossa, e na ativa desde 2007. É possível perceber, ao entrar no bar, que esse é um espaço para quem gosta de rock’n’roll, punk e derivados. Com o cenário característico dos pubs da cena, o local tem um ambiente de penumbra, mesa de sinuca, banquetas no balcão, pôsteres e adesivos de bandas, e, na caixa de som, não apenas clássicos como AC/DC, mas também bandas autorais da cidade que deixam os seus trabalhos por lá. Pensando assim, dificilmente uma banda com toques de outros estilos teria oportunidade de se apresentar no espaço. Mas essa ideia estava prestes a mudar.

O grupo, que arrumou um jeito de fazer todos os integrantes e instrumentos caberem no palco do CBGBar, era o Chave de Mandril, conhecido na cidade por fazer todo mundo dançar com a sua mistura de sons e estilos. Na estrada desde 2014, a banda toca Mutantes, Tim Maia, Cassia Eller, mas também Zé Ramalho, Alceu Valença, Gonzaguinha e Luiz Melodia, mesclando os sons de guitarra e bateria com agogô, sanfona, caxixi e triângulo. Uma banda tão diferente, que toca música brasileira ritmada, puxando para o forró, baião, xote, com uma pegada psicodélica, talvez não fosse a melhor pedida para um dos bares mais undergrounds da cidade. Mas o que se viu naquele dia foram pessoas dançando, outros disfarçando, e até a galera do heavy-metal batendo o pé ao som da banda. “Nós somos bem tranquilos quanto aos locais onde vamos tocar. Mas não nos imaginávamos tocando em bares como o CBGBar, justamente por causa do público. A gente está acostumado a fazer as pessoas dançarem, e nesse caso foi muito bacana”, lembra Nana Holz, baterista da Chave.

Mente aberta 

O show foi realizado no festival 'Elefante Azul Psicodélico', que contou com a presença de outras bandas da cidade. Eventos como esse só são possíveis devido à mente aberta daqueles que fazem parte da cena e acreditam que o cenário pode ser compartilhado entre todos que fazem boa música e bons trabalhos. “O bar é um ambiente de amigos para amigos, onde o respeito é a base para todo evento. A ideia é que as bandas tenham liberdade para mostrar a sua arte, o seu talento, o seu trabalho, assim como outros eventos culturais que já aconteceram aqui, como mostra de poesia, artesanato e tatuagem. O propósito do bar é que as bandas cresçam. Eu acredito no potencial delas e do que elas podem trazer para as pessoas com o melhor da música autoral ou cover”, destaca Regis Daniel Erdmann, proprietário do CBGBar.

Eventos como os promovidos pelo CBGBar aproximam músicos que, teoricamente, não tocariam juntos em outras circunstâncias, criando cenários desconexos que, à primeira vista, parecem não se misturar. “O que é mais punk do que você chegar em um lugar punk e tocar uma coisa totalmente diferente do punk? O punk é isso, é quebrar a parede, é ser diferente de tudo aquilo que todo mundo acha que é normal. Isso é uma atitude punk”, enfatiza Rômulo André, vocalista da Chave.

Um ato de rebeldia, de contestação, de ser diferente, e estar tudo bem. Casos como esses demonstram que a cena local pode ser compartilhada para crescer e se desenvolver como cultura, economia e sociedade, dentro de um emaranhado de sons, de posturas, de ritmos, de gostos, de respeito, de talento, de profissionalismo, de criatividade. A identidade da cena não é necessariamente fixa, pronta e acabada. É essa mistura de punk com baião, de rock com sertão, de experiências diversas, que forma o que somos.

DAIANI MARTINS MACHADO é formada em Comunicação Social – Jornalismo e Direito. Especialista em Direito Digital e Compliance e Mestre em Ciências Sociais Aplicadas. É doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais Aplicadas da UEPG e sócia da Scream.me, consultoria e assessoria em Economia Criativa.

Notícias Relacionadas »