06/07/2021 às 14h28min - Atualizada em 06/07/2021 às 14h28min

CRÔNICA: Qualquer coisa a gente se encontra na torre, por Kleber Bordinhão

A importância da München Fest para um adolescente morador da Santa Paula era enorme. A gente esperava o ano todo por aquela semana. Isso, claro, depois que a minha mãe se rendeu, me deixou ir à festa e jogou tudo na mão de Deus

Por Kleber Bordinhão
Foto: Israel Kaé
Todo mundo está sentindo falta de uma aglomeração. Pelo menos quem não andou por aí frequentando festinha clandestina. Tem gente dizendo que nunca mais vai negar um convite para sair. As minhas saudades de gente reunida tiveram um gatilho curioso. Dia desses encontrei aqui em casa um vale-chope da München Fest. Foi o meu ingresso de R$ 5,00 para um filme de dezenas de lembranças.

É quase certo que, além do costumeiro colorido exagerado que se dá às memórias, eu pese ainda mais a mão em alguns trechos desse relato. Mas, por favor, me entenda, a importância da München Fest para um adolescente morador da Santa Paula na virada do século era enorme. A gente esperava o ano todo por aquela semana. Isso, é claro, só a partir de 1998, ano que minha mãe se rendeu, me deixou ir à festa e jogou tudo na mão de Deus. 

Também é preciso entender que, antes de tudo, a München Fest era a festa do álcool. Esqueça o lance tradicional. Era a esbórnia. Dez dias entre novembro e dezembro em que o Centro de Eventos recebia todo tipo de bêbado existente. De iniciantes a profissionais. Uma versão concentrada e com sérias restrições orçamentárias (também dos frequentadores) da Oktober Fest.

Ela tinha início meses antes, quando a Prefeitura anunciava quem iria juntar-se ao Capital Inicial e completar o line-up da festa. As atrações escolhidas geravam reações apaixonadas. Os roquistas, inconformados em terem a sua cota preenchida pela banda de Dinho Ouro Preto, bradavam aos quatro cantos dos Campos Gerais que eram vítimas do sistema. O pessoal mais intelectual denunciava a baixa qualidade musical dos artistas. Enquanto os fãs do sertanejo e do pagode lamentavam o fato de seus shows preferidos terem sido marcados para um dia de semana. O único grupo satisfeito era o das crianças: o domingo, último dia da festa, sempre era reservado para elas. Se o álcool era liberado nesse dia, não sei.

Eu já tive vários primeiros dias de München. Desde os early days, quando nos juntávamos em uma tropa e marchávamos para a Santa Terezinha sob o efeito de toda sorte de sabor de batida baianinha, até os dias de desfile pelas avenidas da cidade. O desfile de abertura da festa vale eu me estender um pouco. Era algo surreal se pensarmos hoje. Uma dúzia de jovens bêbados desfilava aos berros sobre carrocerias de caminhões. Mandavam beijos, abrações e jatos de vômitos aos concidadãos, que, orgulhosos, respondiam com… eu não lembro como respondiam. Mas o absurdo não termina aí. Depois de rondar pelo Centro, os caminhões percorriam, quase sempre em alta velocidade, a avenida Visconde de Taunay com a carga de ébrios protegidos pela graça e mão divina.

A entrada do Centro de Eventos era uma praça de guerra. Alguns soldados ansiosos, ou não acostumados com a batalha, jaziam ali mesmo no estacionamento. As hordas que desciam dos ônibus secavam o que ainda tinha sobrado dos coquetéis de cola e juntavam-se na fila ao resto dos foliões que deixaram para comprar o ingresso na última hora. Conheço histórias de aventureiros com poucos recursos que saltavam as cercas dos fundos do Centro de Eventos e, num pega-pega valendo um esculacho, fugiam dos seguranças e tentavam alcançar o Shangri-lá do chope.

Estando lá dentro, tendo você pagado a sua entrada ou ostentando barro até os joelhos, a primeira coisa a se fazer era ir atrás da fila para comprar os vales-chope e presenciar uma enganosa sensação de civilidade. Porque logo depois, para trocar os tickets pelos copos de 500 ml, era um caos. Lembre a imagem de um pregão da bolsa de Nova York nos anos 80 ou da geladeira da 'Família Dinossauro' sendo aberta e escolha a sua metáfora.

E é a partir daqui que a imprevisibilidade, misturada com o chope, dava o tom da festa. A única coisa certa é que você dificilmente voltaria para casa com quem veio. Todo mundo se espalhava. Tinha os dançarinos do pavilhão: uma pipoca de carnaval alemão em que se misturavam canções tradicionais e inserções esporádicas de Modern Talking e Molejo. Uns corriam para achar um lugar bom para ver o show da noite. Outros preferiam ir para o parque e colaborar para a chuva de dinheiro e celulares que os Terminators da vida proporcionavam. E havia também outra alternativa, aliás, a minha preferida, a de ficar parado bebendo. 

No meio de tantas variáveis, só havia uma constante: a torre. Caso tivesse perdido o seu celular, a rede de telefonia tivesse caído, os seus créditos ficassem zerados ou o seu namoro acabasse, o combinado era sempre se encontrar na torre. Claro que o procedimento só funcionava se você conseguisse chegar até ela. Porque, às vezes, caminhar tornava-se difícil.

De súbito, uma leve tontura começava a dividir o controle do teu corpo com a euforia. De repente, você começava a salivar mais que o normal. Talvez um incômodo soluço surgisse para piorar as coisas. E, pronto, você estava a um vômito de tornar-se um Walking Dead de München Fest. Eles estavam por toda a festa, arrastando-se e murmurando palavras inaudíveis, que se misturavam com a baba de regurgito Kaiser; sendo enxotados por barbies fascistas nas redondezas da praça dos boy; sentados com os braços cruzados sobre os joelhos, emergindo de vez em quando a cabeça para a superfície borrada e torcendo para que alguém os reconhecesse antes do fim da festa; encarando o próprio reflexo no espelho do banheiro, saudosos dos seres humanos que foram algumas horas antes. Para estados mais graves, havia sempre o antídoto, a boa e velha glicose.

Seja lá qual fosse o seu destino, na alta madrugada tinha início o arrastão. Funcionários da Prefeitura, dispostos um do lado do outro, varriam aos gritos os sobreviventes e o pouco da dignidade que lhes restavam. Os últimos malucos que dançavam pelados no espelho d’água levavam o derradeiro empurrão e eram acossados até as catracas da saída. Como em Las Vegas e Tijuana, o que acontecia na München Fest ficava na München Fest. Poucas promessas sobreviviam à subida da Ronda. 

Em 2018, a festa voltou para o Centro, lugar onde a primeira edição foi realizada. Segundo a Prefeitura, um resgate da proposta inicial da festa. Para mim, um festival de chope artesanal, óculos escuros e barba comprida. O certo é que, no pós-pandemia, precisamos de uma torre para a gente se reencontrar. Bloco da XV? 

KLEBER BORDINHÃO é escritor, autor de livros de poesia e crônica

Este texto faz parte da série 'Histórias de Ponta Grossa', do portal NCG, em que alguns dos maiores escritores locais produzem crônicas exclusivas e inéditas envolvendo personagens, lendas, acontecimentos ou locais da cidade

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