06/07/2021 às 21h04min - Atualizada em 06/07/2021 às 21h04min

CRÔNICA: Adeus à placidez da Placidina, por Mário Sérgio de Melo

Quando notamos os sons da ferrovia ao lado de casa no silêncio da madrugada, primeiro pensamos que fosse sonho ou ilusão. Não, não era! Seria assombração?

Por Mário Sérgio de Melo
Foto: Reprodução
A Vila Placidina fica entre o centro de Ponta Grossa e a Vila Estrela; estão nela o Hospital da Criança, Chácara Margherita Masini, Polícia Federal, Regional de Saúde e UPA Santana. Muitas vezes é confundida com a Vila Estrela, que na verdade começa mais além. Ela já fez jus à placidez do nome, mas as mudanças chegaram.

Este incógnito bairro é cortado pela Rua Balduíno Taques, caminho para Curitiba, Palmeira e Vila Oficinas. Há 25 anos moramos em casa na Vila Placidina, a 30 metros da Balduíno. Quando a família aqui chegou, o silêncio reinava à noite, apesar da proximidade da via de saída da cidade. Era como se morássemos num bucólico vilarejo do interior. A calma do lugar nos animou a plantar árvores frutíferas no pequeno jardim em frente à casa. Nele, sabiás, sanhaços, bem-te-vis, guaxos, saís-azuis vêm bicar pitangas, acerolas e carambolas. Árvores generosas, amiúde carregadas. E pardais, canários, avoantes, chupins e rolinhas vêm também ciscar a quirera que lhes esparramamos. Tico-ticos desapareceram. Foram sumindo, ao mesmo tempo em que proliferaram os chupins. Decerto efeito das extremosas mães tico-tico, que, indulgentes, alimentam grandes filhotes de chupins. Logo os chupins não terão quem choque os seus ovos. Um alerta aos humanos e seus parasitismos.

Na calçada na frente da casa, uma sibipiruna alterna épocas desfolhadas com verdes folhas jovens e floradas amarelas. Suas vagens se contorcem e rompem ao sol, arremessando as sementes. Projéteis que ricocheteiam ruidosos nas vidraças, anunciando a primavera. Outros pássaros frequentam a sibipiruna, mormente quando ela está florida: cambacicas, gaturamos, coleirinhos, beija-flores, saíras-preciosas. Isso tudo nos transporta a uma atmosfera campestre, a apenas mil metros da praça da matriz. 

Mas a placidez da Vila Placidina não resistiu ao “progresso”. Carros e motos barulhentos, veículos policiais, ambulâncias e bombeiros com sirenes disparadas, vêm nos revelando que não estamos no vilarejo, mas sim na cidade que é agitado polo regional. E, nos últimos anos, uma novidade: alta madrugada, às vezes ouve-se o apito e o ronco dos motores a diesel de locomotivas. Com tanta nitidez que parece que estão correndo pela Balduíno. Por algum sortilégio, a diurna avenida viraria via férrea nas horas mais recônditas da noite? 

Quando notamos os sons da ferrovia ao lado de casa no silêncio da madrugada, primeiro pensamos que fosse sonho ou ilusão. Não, não era! Seria assombração? Cheguei a sair para o quintal para perceber melhor de onde vinham aqueles desarrazoados ruídos. Eles eram bem reais, vinham mesmo da Balduíno. Mas por lá não passava nenhuma locomotiva a marcar com seus berros e sacolejos o trajeto percorrido. De onde vinham então aqueles estranhos sons?

Fantasiei que aparições de antigos trens deveriam estar assombrando o que antes fora a estrada de ferro que atravessava Ponta Grossa. Trens fantasmas! Teria sido esse o motivo do nome da torcida do time de futebol da cidade? Para compensar a fantasia, fui procurar nos mapas a ferrovia mais próxima. Ela está muito longe, lá para os lados da Nova Rússia. Viriam de lá os sons que ouvíamos no silêncio da noite?

Enfim reconhecemos que não eram só os sons da fantasmagórica ferrovia que tínhamos passado a escutar. Os raros veículos ruidosos que percorriam a Balduíno durante a noite também nos chegavam com uma intensidade que não conhecíamos. Será que antes eles não aconteciam? Ou algo na cidade estava fazendo que eles chegassem a nós com mais força?

Numa manhã de dia útil, ao sair de carro da garagem de casa, notamos mais um sinal das mudanças no bairro: a rua estava tão cheia de carros estacionados, que um descuidado motorista parou obstruindo parte da guia rebaixada em frente ao portão. Não chegava a impedir a saída, mas a dificultava muito. Distraidamente, pensei que era mais um efeito dos gigantes prédios de mais de 20 andares recém-construídos bem no quarteirão do outro lado da Balduíno. Os carros eram de moradores ou de trabalhadores nos muitos apartamentos da urbe que cresce para o alto, enquanto o espaço no chão parece encolher.

De repente caiu a ficha: os prédios! Eram eles os responsáveis pelos sons noturnos! Não eram trens fantasmas! Decerto, sobretudo em noites com ventos favoráveis, os sons da ferrovia, bem audíveis lá na distante Nova Rússia, são trazidos pelo ar até os enormes anteparos de concreto e vidro, e refletem-se na vizinhança como se de fato os trens estivessem ali. 

E os colossais blocos de concreto não só nos trouxeram as locomotivas à Balduíno. Eles são imensos tapumes. Retalham o que antes era o nosso vasto azul do dia ou o borrão de estrelas das noites sem névoa. Roubam-nos o horizonte, o sol, o céu onde passeávamos nosso senso de vastidão. Um fenômeno de propagação e reflexão do som nos monólitos que brotam incontíveis e, ao mesmo tempo, de invasão da janela do firmamento por onde divagávamos nossas cismas.

O “progresso” vem confinando às lembranças o tempo da plácida Vila Placidina.

MÁRIO SÉRGIO DE MELO é geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG e membro da Academia de Letras dos Campos Gerais

Este texto faz parte da série 'Histórias de Ponta Grossa', do portal NCG, em que alguns dos grandes escritores locais produzem crônicas exclusivas e inéditas envolvendo personagens, lendas, acontecimentos ou locais da cidade

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