07/07/2021 às 16h24min - Atualizada em 07/07/2021 às 16h24min

CRÔNICA: Caniba, o pescador, por Newton Schner Junior

Num mundo que enfatiza desejos cada vez mais mirabolantes, no mundo da correria e das metas em cima de metas, Caniba era um dissidente por nada querer nem nada possuir

Por Newton Schner Junior
Foto: Arquivo pessoal
Quando os campos de trigo e soja se abrem e os nossos olhos tocados pelas luzes de um sol tímido alcançam o horizonte mais distante, quando centenárias araucárias imponentes nos saúdam e logo nos cansamos com o sobe e desce das ruas intermináveis e a confusão dos cruzamentos e rotatórias e dos trechos que agora mudaram de sentido, estamos lá mesmo – em Ponta Grossa.

Lá nessa cidade, mais especificamente pelas bandas do Bonsucesso, na apertada rua Bela Vista do Paraíso, numa casinha de madeira, vivia um sujeito que atendia pelo nome de Caniba. Caniba era loiro quase albino, olhos azuis como o céu numa manhã de outono, pele de um rosa avermelhado que só um polaco que se atraca nos gole é capaz de ter. Língua presa, dentes destacados e uma forma simples de falar que remete ao dialeto já esquecido de sua terra.

Sem exageros filosóficos, já que não era lá muito dos livros, de maneira muito orgânica tinha ele, por princípio, ser um homem simples e livre. Num mundo que enfatiza desejos cada vez mais mirabolantes, o mundo sem tempo, da correria, dos prazos e das metas em cima de metas, Caniba era um dissidente por justamente nada querer nem nada possuir. Em vez das complicações, a grande meta, para ele, era poder reduzir a sua vida a uma fórmula simples: continuar sendo quem ele era por essência.

Caniba era simprão, divertido, humilde, atencioso e prestativo. Por isso não era de surpreender que a sua companhia fosse tão agradável. Podia estar com o pessoal da vila, com a polacada da família, com um chefe que era dono de uma grande rede concessionária, com algum dono de bar ou algum cliente, sempre o queriam bem. Volta e meia estava rodeado de gente. E, justamente por isso, poucos sabiam do seu ímpeto para a solidão.

Num sábado, ele voltava a pé do trabalho. Chegava em casa, saudava a mãe, vestia uma calça camuflada surrada, preparava varas e minhocas, pegava uma mochila, subia até o mercadinho e comprava algum querosene fiado e, sozinho, sem que isso significasse ser sozinho, carpia o trecho rumo ao Kalinoski ou a Uvaia.

Parando de bar em bar, saudando esse ou aquele, já que era quase como um vereador da vila, Caniba proseava sempre respeitando o seu próprio dicionário, a sua única lei. Ele não dizia “Meu Deus” mas sim minhazarma. Qualquer pessoa, para ele, era inseto. Qualquer bebida alcóolica, querosene. Qualquer som pesado, diabeira ou tosqueira. Estando nervoso, dizia que esse ou aquele inseto era, na verdade, também um caipora mardiçuado do djanho.

Durante um tempo, teve o Caniba também a sua tosqueira, a sua banda. Ao tocar, ele queria saber de ver gente. E, em especial, a sua gente. Então, distribuía os ingressos e até comprava-os a mais para o pessoal da vila, que aparecia em frente ao palco em forma de uma legião. Era o Esticado, o Bruxo, o Fito, o Vino, o Sapo, o Verdadeiro Sapo, o Pão com Banha, o Drácula e outros tantos insetos com apelidos estranhos. Ele tocava fora do tempo, a guitarra era tão chiada quanto um chuveiro na época de inverno, mas não importava: aquela era a tosqueira, a banda do Caniba. E os insetos gritavam loucamente o seu nome.

Ainda que não fosse lá muito da igreja, com os braços cheios de tridentes e demônios que ele escondia do patrão evangélico com camisetas de manga comprida, Caniba sempre pedia a bênção dos mais velhos. Todo homem acima dos 50 anos em um bar era chamado de senhor. Para qualquer comentário, entre uma e outra dose de querosene, dizia Graças a Deus, Deus que ajude, Deus que pague.

Ser aquilo que se é por essência. Esse era o pensamento que aflorava, sobretudo, nas suas horas solitárias e pescando longe de tudo e de todos. De cócoras, em silêncio, com um cigarro do Paraguai no canto da boca e como que a meditar, recordando quando a vida era composta de shows e bandas e sons e mulheres e aventuras e mais noites que dias, agora só e com um punhado de minhocas na sacola do mercadinho da vila, Caniba observa a isca que lentamente se movimentava sobre as águas. Com sorte, levará alguns bagres para casa e fará a mãe feliz. Sem sorte, dará mais um trago do querosene na verada do rio e carpirá o trecho passando entre os milharais.

Voltará então bêbado a pé pela estrada de pó.

Algumas vezes levando peixe, outras não. 

Mas sempre sendo ele mesmo.

Como assim ele o foi.

NEWTON SCHNER JUNIOR é professor de alemão, pianista e integrante da Academia de Letras dos Campos Gerais

Este texto faz parte da série 'Histórias de Ponta Grossa', do portal NCG, em que alguns dos grandes escritores locais produzem crônicas exclusivas e inéditas envolvendo personagens, lendas, acontecimentos ou locais da cidade

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