08/07/2021 às 07h30min - Atualizada em 08/07/2021 às 07h30min

Torturas, regras absurdas e terror: no PR, mulher foge de cativeiro onde ficou mantida um ano

Além de sofrer variadas agressões, a mulher era submetida a uma bizarra rotina de proibições, como, por exemplo, falar palavras terminadas em "i"

Por 'O Paraná'
Foto: Reprodução
Uma mulher, vítima de tortura e que era mantida em cativeiro, conseguiu fugir e procurar ajuda na Delegacia da Mulher na noite do dia 23 de junho último, no município de Toledo, informa 'O Paraná'. Apesar de ter ocorrido no mês passado, o caso voltou a repercutir nas redes sociais por conta do alto grau de violência física e psicológica inflingida sobre a vítima, bem como por causa das exigências absurdas do abusador

Cabelos raspados, feridas mal cicatrizadas, língua com marcas de ferimentos, cortes feitos com faca por toda a extensão do rosto. Após ser mantida por um ano em cativeiro pelo marido, onde era submetida a torturas físicas e psicológicas, V. L. conseguiu fugir e permanecer escondida até amanhecer, quando procurou a Delegacia da Mulher.

Casada há 13 anos com o agressor, com quem tem um filho de 12 anos, a mulher relatou em depoimento uma rotina de muita violência e humilhação. O agressor foi preso em flagrante pelos crimes de tortura, lesão corporal, ameaça, sequestro e cárcere privado. Ele foi encaminhado à carceragem da Cadeia Pública de Toledo, e a mulher está em um abrigo seguro e sigiloso com o filho.

Rotina perturbadora 

A vítima, o agressor e o filho viviam em uma residência alugada no Jardim Gisele, em Toledo. Ela relata que o marido sempre foi agressivo, mas as agressões se limitavam a tapas no rosto. Em junho de 2020, no entanto, o homem passou a ficar muito agressivo e passou a questionar a vítima sobre relacionamentos anteriores. "Se ela não desse as respostas que ele queria ouvir, ele ficava muito agressivo e lhe dizia coisas como 'Essa resposta não fecha com a minha investigação', 'Isso não bate com o que eu estou investigando, não está certo', e perguntava de novo", detalha o Boletim de Ocorrência (B.O.).

Pela casa, a vítima era obrigada a escrever vários lembretes, a partir de frases ditadas pelo marido, como: "Se eu mentir para o meu marido, eu vou fazer 100 cortes com a faca quente no meu rosto"; "Se eu não contar a verdade para o meu marido, eu vou furar a minha língua com pregos".

Além dos lembretes, o homem mantinha na casa um caderno de regras. Entre elas, uma lista de palavras que não poderiam ser ditas pela mulher. Caso ela infringisse alguma das regras, era castigada. A polícia apreendeu o caderno. Nas seis páginas que constam nos autos do inquérito policial, aparecem palavras como: "você acha"; "talvez"; "não sei"; "pode ser"; "que dor"; "não aguento mais"; "olha só o meu rosto"; "afeto"; "amigo"; "oportunidade". As regras também incluíam a proibição de gritos de dor, bem como comentários sobre o corpo. Ela também era proibida de falar palavras que terminassem com a letra "i".

Além de agredi-la, marido a obrigava a se autolesionar. "A vítima tem muitos hematomas que, segundo ela, são de agressões antigas, e alguns que ela mesma teve de fazer, como, por exemplo, cortar a própria orelha e furar a própria língua com pregos", detalha o boletim.

A vítima relatou que era impedida de ir ao hospital e se curava com receitas caseiras. Entre as lesões feitas pelo esposo, o agressor chegou a lhe quebrar o nariz com socos. Socos dados com toalha úmida enrolada na mão e que lhe deixaram as orelhas inchadas. Ele também a agredia com cabo de vassoura. "Ele fazia ela colocar agulhas na boca. Já fez ela costurar a própria boca com fio de linha de costura e com linha de pesca. Ela está com o rosto cheio de pequenos cortes, que são feitos com uma faca esquentada. Ele lhe aplicava esses castigos frequentemente”, destaca o registro.

Segundo a vítima, o agressor a mantinha vigiada através de duas câmeras de segurança. O filho do casal, conta a vítima, foi manipulado pelo pai e, na noite em que fugiu, chegou a levar um tapa no rosto do próprio filho.

Atendimento 

A Associação Tenda Mariellas, organização pela defesa ampla e universal das mulheres, acompanha a vítima desde a fuga. Através do coletivo, a vítima já teve acesso a atendimento médico e psicológico, bem como a um lugar seguro para estar com o filho. O menino também já foi encaminhado para acompanhamento do Conselho Tutelar.

Na última segunda-feira (5), o coletivo, acompanhado pelo Coletivo Juntas, esteve em audiência com o prefeito de Toledo, Beto Lunitti, e com a secretária municipal de Políticas para as Mulheres, Jennifer Teixeira, para informar sobre a situação e exigir atendimento imediato ao caso. Os dois coletivos também apresentaram exigências de implementação e ampliação de políticas públicas voltadas a mulheres.

Entre as exigências para o caso, estavam a concessão de aluguel social em local seguro e sigiloso, bem como auxílio emergencial para mãe e filho, atendimento médico e hospitalar emergencial para ambos, além de tratamento psiquiátrico e psicológico. Ainda, diante do quadro de alienação parental sofrido pela criança, exigiram que, em todo o atendimento dado a mãe e filho, fosse trabalhada a restituição e fortalecimento dos vínculos familiares.

Da parte da Prefeitura de Toledo, na pessoa do prefeito Beto Lunitti, houve comprometimento com as pautas e exigências apresentadas, com a promessa de que não será tratado como caso isolado e que haverá trabalho contínuo para avançar nas políticas públicas para as mulheres. Os coletivos afirmam que irão acompanhar e cobrar o cumprimento do compromisso realizado.

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