08/07/2021 às 21h13min - Atualizada em 08/07/2021 às 21h13min

CRÔNICA: O vento que passa, esse ficou, por Luiz Fernando Cheres

Tudo se foi, tudo se perdeu. Entretanto, ainda há o beijo do vento, o vento de hoje é o vento daquela infância. Então vou a um boteco, e não compro doces, não bebo; apenas bebo o vento da rua XV

Por Luiz Fernando Cheres
Foto: NCG
Um amigo perguntou se sempre morei nesta cidade; como respondi “sim”, ele concluiu que devo conhecer bem o lugar e ter inúmeras amizades antigas. De fato, isso deveria ser a realidade.

Mas não é.

Nasci em Ponta Grossa, somente morei em Ponta Grossa, ainda moro, e com certeza já não moro na cidade onde nasci; esta cidade, esta minha cidade, tão minha, ela é muita mudança e quase nenhuma permanência, mais rio que pedra. Da Ponta Grossa de meu nascimento, naquele fim do inverno de 1962, sobrou pouco, talvez alguns casarões, a geografia acidentada. E a avenida, a rua XV... 

Porém nada sobrou, inclusive a avenida, a rua XV; basta olhar as velhas fotografias para ver: as nossas ruas são outras ruas. E mais, o Ponto Azul nem existe, virou apenas um nome, a bela catedral foi ao chão, o mercado municipal, tudo acabou.  Onde está a gente das ruas da infância, o leiteiro, o telegrafista, as senhoritas — todos se conheciam — onde estão todos? Que fim levou o movimento na estação do trem, a agitação das pessoas comprando bilhetes da loteria estadual, enquanto aguardavam a encomenda que vinha pelos trilhos até o Centro da cidade?

Ainda temos a cachoeira, as pombinhas da lenda, Vila Velha. Daquela remota cidade, há também o vento, o vento que levava os chapéus dos senhores e, para deleite dos jovens mancebos, levantava a saia das senhoritas, expondo joelhos e anáguas. Hoje, com joelhos banalizados e anáguas fora de moda, o vento esparrama papéis, estraga guarda-chuvas, joga cisco nos olhos. Ousado, levanta saias e vestidos, um triunfo de mil e uma maneiras, ou quem sabe revelando muita intimidade, esperança ou um segredo de Victoria. Esse mesmo vento que sempre passa, ele permanece. 

Pois eu desconfio que permanecem as pessoas que passaram.

De vez em quando, entro no boteco onde papai comprava doces; a poeira das prateleiras parece centenária, e os meus olhos, o meu nariz, as mãos, todos os sentidos voltam ao passado. Sinto o gosto do doce, sou capaz de ver papai ali, ouvir a sua voz conversando com o homem do balcão, sentir o cheiro da pele, dos cabelos de meu pai. Quase lhe toco as mãos. Mas papai se foi, e se foi minha mãe. Ela não me levará novamente para tomar sorvete na tradicional rua Santos Dumont, eu e ela tentando um minguado equilíbrio nas pedras lisas de uma calçada já antiga naquela época, e que não está mais lá. Aí o homem de trás do balcão me entregava o delicioso sorvete, sem saber que me marcava com lembranças. Depois, eu e mamãe afundávamos a rua repleta de lojinhas dos "turcos"; ali se praticavam preços baixos para produtos populares. Isto é, preços baixos somente após inúmeras tentativas de pechincha. 

Se a chama da vida de mamãe se apagou, nunca se apagou o carinho da voz dela, a luz de seus olhares. Isso tudo ainda me ilumina a alma. De certa forma, quem partiu não partiu; quem partiu, na verdade, é o que de melhor ficou. Meu grande amigo de infância morreu, e ele está aqui, ao lado, dentro de mim. O sopro da vida de minha tia se foi; mas não, minha tia jamais se foi, pois percebo o calor de sua pele na minha pele e sinto a sua respiração.

Da enorme serraria, sobreviveu a chaminé, como símbolo das distantes recordações impregnadas além dos olhos, no coração. Penso nos rapazes que tomavam o ônibus comigo, nas mocinhas das tardes do Cine Império, penso no menino entregando o jornal nas casas; deles, tenho seus sorrisos tímidos, um sorriso fechado: ponta-grossense. Se nem todos morreram, os vivos já não são os mesmos.

Portanto, ando só. Na multidão, somos sós. Ninguém tem tempo para nada. Ninguém conhece ninguém, estou repleto de estranhos e desconhecidos. Tudo se foi, tudo se perdeu. Entretanto, ainda há o beijo do vento, o vento de hoje é o vento daquela infância. Então vou a um boteco, e não compro doces, não bebo; apenas bebo o vento da rua XV, e ele me põe bêbado. Tirando os que já morreram, e que, morrendo, ficaram, resta agora ao menos o vento da rua XV, bagunçando cortinas, penteados, saias e vestidos. Esse vento que passa, esse também ficou.

LUIZ FERNANDO CHERES é escritor, autor de “Um Beijo Longe dos Lábios” e “Amar não é Preciso”. Ocupa a Cadeira nº 11 na Academia de Letras dos Campos Gerais

Este texto faz parte da série 'Histórias de Ponta Grossa', do portal NCG, em que alguns dos maiores escritores locais produzem crônicas exclusivas e inéditas envolvendo personagens, lendas, acontecimentos ou locais da cidade

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