13/07/2021 às 15h48min - Atualizada em 13/07/2021 às 15h48min

CRÔNICA: Três retornos e uma estreia, por Giovani M. Favero

Entramos no Germano Krüger lotado, e a alegria do cirurgião era nítida. Parou no vendedor de amendoim, comprou uns dez pacotinhos e saiu distribuindo para as crianças ao redor

Por Giovani Marino Favero
Foto: Reprodução
Foram cinco anos interessantes para muitas pessoas de nossa cidade entre 2008 e 2012. O primeiro destaque foi a volta do Operário ao futebol de maneira séria. Em 2008, com um grupo profissional gestor, o Fantasma jogava novamente a série B do Campeonato Paranaense. A torcida, como sempre, estava animada. O inverno frio daquele ano foi marcado por bons jogos, só para quem gosta do time mesmo. Era, e é, maravilhosa a maneira única da torcida, sempre com bom humor, tiradas maravilhosas, cantos com o português correto, rimado e com sotaque. 

No segundo semestre de 2009, o curso de Medicina retornava na UEPG após um momento de suspensão. A cidade e a universidade estavam animadas com esse importante divisor de águas. É uma graduação que modifica para sempre uma região, amplia o sistema de saúde, a assistência, a economia, a gastronomia e a cultura. 
Junto com a volta do curso, vieram vários médicos docentes de outras localidades, que passaram a contribuir também didaticamente e cientificamente com a região. 
 
A volta do Fantasma foi sempre na crescente. Em 2010, estava na divisão principal do Campeonato Paranaense e, após mais de uma década, disputava um Nacional, a série D, e por muito pouco não subiu para a C logo de início. Ficou no caminho após não conseguir vencer o Madureira do Rio de Janeiro, mas, com uma campanha ótima e uma defesa exemplar, fez um campeonato honesto, de gerar mais motivação e esperança para o torcedor.

Em 2011, o clube continuou evoluindo, vencendo os times da capital paranaense e conseguindo uma classificação inédita para a Copa do Brasil do ano seguinte. 
 
No ano de 2012, o curso de Medicina já atingia o seu terceiro ano de atividades e, dentre os vários docentes que vieram a trabalhar no curso, um deles se tornou amigo de todos da disciplina de Anatomia, o brilhante cirurgião plástico Alfredo Duarte. Com formação em microcirurgia, mestrado, doutorado e um carisma único, logo se tornou um dos preferidos dos alunos e dos colegas professores.
 
O acaso interveio e, nesse período, ele morava no mesmo prédio que eu. O trabalho junto e os cafés de quarta pela manhã ampliaram essa amizade. Em uma quarta-feira, dia 7 de março de 2012, abordei Alfredo e falei: "Hoje vamos no Germano". Obviamente, ele nem sabia o que era isso, mas concordou. Comprei os ingressos para a geral. É onde a emoção está, afirmei. Um pouco antes do jogo, mandei um SMS para ele subir e tomar um copo de uísque, para chegar animado à peleia. Fomos a pé ao estádio, encontrando o técnico de Anatomia, Jeiel, que nos esperava em frente à entrada da Curva do Diabo.
 
Nesse momento, o professor médico falou com alegria: "Fazem mais de vinte anos que eu não vou a um estádio de futebol. Costumava ir ao Couto Pereira quando criança, adolescente, mas, com a vida que escolhi, fica difícil. Como é legal poder voltar a ver um jogo de perto."

Entramos no estádio lotado, e a alegria do cirurgião era nítida. Parou no vendedor de amendoim, comprou uns dez pacotinhos e saiu distribuindo para as crianças ao redor. Ninguém sentava naquele jogo. Era a estreia do Operário na Copa do Brasil, tendo como adversário o Juventude de Caxias do Sul, com destaque para um jogador que viera da seleção brasileira de futebol de salão. 

 
O jogo foi um massacre do time gaúcho. No primeiro gol, Alfredo quase comemorou, pois não estava familiarizado com as cores do glorioso Fantasma da Vila. Foram quatro gols dos visitantes. Sentamos na arquibancada ao final da partida, tristes pelo resultado, mas contentes com a amizade e o bom tempo passado juntos. Um desconhecido ao nosso lado comentou em voz alta: "Acabou o sonho da Libertadores."
 
GIOVANI MARINO FAVERO é pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e escritor

Este texto faz parte da série 'Histórias de Ponta Grossa', do portal NCG, em que alguns dos maiores escritores locais produzem crônicas exclusivas e inéditas envolvendo personagens, lendas, acontecimentos ou locais da cidade

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