14/07/2021 às 11h07min - Atualizada em 14/07/2021 às 11h07min

Em tempos de Netflix, única videolocadora de PG resiste e permanece aberta

Com mais de 9 mil fichas cadastradas, locadora está aberta há 20 anos e não pretende fechar

Por Cássio Murilo
Foto: Cássio Murilo
O costume de alugar filmes perdeu espaço entre os hábitos da população mundial diante do avanço da tecnologia. Com a crescente oferta de serviços de streaming como Netflix e com a facilidade com que a pirataria opera, as videolocadoras foram fechando as portas nos últimos anos. 

Em Ponta Grossa, uma delas sobrevive ao tempo e segue em funcionamento na avenida Carlos Cavalcanti, região do bairro de Uvaranas. A Aneisa está aberta há 20 anos, sendo oito deles sob o comando de Ana Cristina Ferreira. O nome da empresa resulta da fusão dos nomes Layn Ane e Isabela, filhas da proprietária.

Com mais de 9 mil fichas cadastradas, a locadora conta com quase 12 mil títulos em DVD e blu-ray no acervo, incluindo séries e filmes de gêneros diversos. Um dos mais recentes é Mulher Maravilha 1984, lançado em dezembro de 2020. "Por conta da pandemia, tem vindo poucos lançamentos. Os que já eram para ter vindo estão chegando agora", conta Ana.


Menina dos olhos

A empresária explica que ela e as filhas eram clientes da locadora antes de se envolverem com a empreitada. A filha mais velha foi a primeira a trabalhar no local. Com o tempo, todas estavam empregadas. Quando o antigo proprietário resolveu fechar, Ana assumiu o negócio. "A nossa família sempre gostou muito de filmes. É um ramo encantado. A videolocadora é a minha menina dos olhos", relata.

O afeto move o trabalho de Ana, que pretende transmitir o mesmo encanto sentido por ela e pelas filhas ao frequentar o local. Segundo a proprietária, a importância em perpetuar a experiência de entrar em uma videolocadora é algo que se faz de geração em geração. "Hoje recebemos clientes que eram crianças na época e que trazem os filhos para conhecer. É muito bonito ver isso e tentar manter essa tradição", afirma. 

Apesar da transmissão de experiências, Ana comenta que as gerações mais recentes não se interessam muito em conhecer o espaço. Segundo ela, o perfil do público frequentador é próximo da chamada "meia idade" (35-58), que viveu a época em que se pagava multa por devolver uma fita VHS não rebobinada.


Toque 

Em comparação com os serviços de streaming, Ana observa que a experiência mais "sensorial" de se locar um filme é o grande diferencial de uma videolocadora. "Hoje em dia, não se tem mais o 'toque' das coisas, perdeu-se a sensibilidade. O pessoal quer voltar a sentir mais as coisas. É muito legal ver a reação de alguém que entra em uma locadora pela primeira vez. Você vê o olho brilhar", observa. 

As questões afetiva e sensorial são essenciais para que um empreendimento dependente de mídia física sobreviva a tempos de serviços digitais e pirataria. Mesmo com a concorrência chamada de "desleal" por Ana, a proprietária garante que consegue manter um público fiel, que busca uma experiência diferenciada e mais tátil em tempos de excessiva virtualidade.


Por amor 

Quando questiona sobre como seria ver alguém entrar, em pleno 2021, no ramo de videolocadoras, Ana é categórica: "Tem que amar, pois não é fácil. Até janeiro do ano passado, éramos cinco videolocadoras na cidade. Entre janeiro e março, fecharam três. Em agosto, fechou mais uma. Somos a única em funcionamento, mas não quero pensar que somos a última", aponta. 

Mais do que um negócio, Ana acredita no legado da locadora em questões culturais. A aposta dela é que possa haver um revival, como aconteceu, por exemplo, com o disco de vinil, dado como obsoleto na década de 1990 e revalorizado atualmente.

"Tudo é uma questão de moda. Se a gente ainda está aqui, é porque ainda há o nicho de clientes", reflete, destacando a vantagem financeira da locação. "No streaming, há quem pague para assistir apenas um filme por mês. Aqui, você pega apenas quando quer e paga somente quando pega. Cada produtora cria o seu serviço e cobra por ele. Aqui você tem todos disponíveis." 


Questão de Honra 

Sobre o futuro da videolocadora, Ana é direta ao dizer que não pretende fechar. "Eu torço para que as locadoras voltem. Talvez não aconteça com o mesmo glamour de antigamente, mas eu permanecerei em funcionamento para honrar todos aqueles que precisaram fechar", conclui.


SERVIÇO

Videolocadora Aneisa

Endereço
: avenida Carlos Cavalcanti, 3360, Uvaranas

Funcionamento: de segunda a sábado, das 10h30 às 20h

Telefone: (42) 3027-5424

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