30/07/2021 às 14h47min - Atualizada em 30/07/2021 às 14h47min

ARTIGO: O voto de papel, por Mário Sérgio de Mello

Os trambiques que se podem fazer com o voto de papel, num país como o Brasil, fizeram que aqui se buscasse um meio considerado imune à fraude

Por Mário Sérgio de Melo
Foto: Reprodução
Era o ano de 1985. Disputa acirradíssima para a Prefeitura de São Paulo. As pesquisas de boca de urna indicavam vitória apertada, por uns poucos por cento, do candidato Fernando Henrique Cardoso, estrela da oposição à ditadura recém-finda. Em segundo lugar, o meteórico político Jânio Quadros, o “varre, varre vassourinha” da década de 1960, cuja renúncia à presidência engendrou o golpe de 1964. FHC, confiante nas pesquisas, jactancioso, chegou a sentar-se na cadeira de prefeito; a cena inundou o noticiário. No dia seguinte, Jânio, então surpreendentemente já confirmado o vencedor, jocosamente borrifou inseticida antes de sentar-se na mesma cadeira em que FHC prematuramente sentara-se na véspera.

O resultado apurou que Jânio venceu por estreitíssima margem, os mesmos poucos por cento que a boca de urna erroneamente havia atribuído de vantagem a FHC. Os analistas puseram-se a tentar entender o que acontecera. Especialistas em eleições e seus resultados notaram que a histórica cifra de cerca de 10% de votos brancos, naquela eleição, tinha caído para 1%! Acharam então uma explicação para a inesperada vitória de Jânio: os votos em branco tinham sido preenchidos durante a apuração, pelos próprios apuradores, grande parte deles fanáticos seguidores do conservador ex-presidente renunciado, ferrenhos opositores dos críticos da ditadura. Como o era FHC.

Nos rincões do interior do Brasil e das periferias das grandes cidades, o voto de papel era prevaricado de outra engenhosa maneira. Cédulas em branco obtidas ilegalmente iam parar na mão de prepostos “cabos eleitorais”, cúmplices de políticos criminosos. Nas filas nas portas das seções eleitorais, sob os olhos conluiados de supostos fiscais, o “cabo eleitoral” entregava uma cédula já preenchida ao eleitor, que era a cédula que ele deveria depositar na urna. A cédula em branco que ele recebia dos mesários deveria ser entregue, à saída, ao mesmo “cabo eleitoral”, em troca de uns níqueis para um lanche, ou a promessa de um emprego ou algum privilégio para si ou para a família. O “cabo eleitoral” preenchia então a cédula em branco e a passava para o próximo eleitor da fila. Os políticos inescrupulosos eram eleitos por esse esquema, mas as promessas eram esquecidas. As fraudes também eram esquecidas pelos eleitores, na eleição seguinte continuavam a dar resultados.

Esses e outros trambiques que se podem fazer com o voto de papel, num país tão complexo e sujeito à corrupção como é o Brasil, fizeram que aqui, mais que em qualquer outro lugar do planeta, se buscasse um meio considerado imune à fraude. Chegou-se então às urnas eletrônicas, testadas incansavelmente, consideradas invioláveis. Uma façanha elogiada em todo o mundo, inclusive Europa e EUA. 

Retornar ao voto de papel seria retornar à fraude eleitoral. Quem proclama que tal retorno seria o contrário é quem quer que o Brasil volte ao tempo em que as eleições eram a época de arrebanhar os currais eleitorais para eleger políticos ímprobos e corruptos. E quem quer ver o Brasil perpetuar-se como o país do futuro, a eterna colônia explorada do presente.

MÁRIO SÉRGIO DE MELO é geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG

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