11/08/2021 às 10h43min - Atualizada em 11/08/2021 às 10h43min

ARTIGO: Humana Medicina, por Renato Van Wilpe Bach

É crucial ensinarmos futuros médicos a pensar o cotidiano, para bem acolher a todos que os procurem

Por Renato Van Wilpe Bach
Foto: Reprodução
De todas as ciências, a mais humana é a medicina. E incluo no conceito até a medicina veterinária, ainda e sempre, também, medicina. 

De todas as artes, a mais humana é a medicina, pois trabalha a própria anima nobile, buscando (de modo cruento ou farmacológico) a reparação de órgãos e seres. A veterinária, quando exercida com técnica e respeito, é “humane”, que na língua inglesa fica mais corretamente traduzida por “humanizada” que por “humana”, inferindo que se deve tratar a outros seres vivos “como se fossem humanos”. 

Tratar o paciente como ser humano — nisto consiste a humanização em medicina. 

Confesso que gostei da ideia, quando entrou em voga nos longínquos anos 1980, mas não do termo. “Precisamos humanizar o atendimento” soava, para o menino estudante de medicina que eu era, uma sensação de desprezo pelo passado, como se disséssemos que todo o progresso até ali fora… desumano. 

Medidas concretas e absolutamente necessárias de humanização foram implementadas nestes quase 30 anos de vida médica, minando a minha muda restrição à palavra. Um dia, li que a humanização serve para nos lembrar que somos humanos, que atendemos humanos, especialmente quando assoberbados de trabalho ou imersos em tecnicalidades e protocolos. Com isso eu podia concordar. Fiz as pazes com o termo e passei a explicá-lo assim aos meus alunos. 

Em 30 trinta anos de carreira, fui testemunha ocular da substituição paulatina da anamnese e do exame físico pela mera solicitação de exames (ou pior, a prescrição presuntiva sem exame do paciente); do modelo profissional liberal pelo mercantilismo, o subemprego e a pejotização; da queda da qualidade na formação acompanhada da abertura de novas escolas nem sempre adequadas; e aproximei-me do pensamento de velhos mestres que há décadas nos profetizaram tudo isso: a (verdadeira) medicina está morrendo. 

Mas como, se agora somos “humanos”? “Humanizados?” Melhores que no passado, no dizer sempre arrogante de cada nova geração? 

Acolher sem preconceito, saber ouvir, respeitar a intimidade e o pudor do paciente, não julgar, orientar sem humilhar. Ver, além do diagnóstico, a pessoa que sofre as consequências, não só da doença, como do tratamento. Obter o consentimento livre e esclarecido (de modo real, não só no papel) do paciente através da explicação prévia e detalhada dos procedimentos médicos, incluindo o livre arbítrio dele na tomada de decisões; saber comunicar decisões difíceis e notícias definitivas. 

Por toda a prática da medicina, é mister saber dialogar com pessoas de todas as idades, gêneros (hoje há mais que dois), cores e credos. Guardar segredo e respeitar a privacidade inatacável das liberdades civis e individuais é o credo que norteia a classe médica desde Hipócrates, que jurou há 2.300 anos: 

Sobre aquilo que vir ou ouvir respeitante à vida dos doentes, no exercício da minha profissão ou fora dela, e que não convenha que seja divulgado, guardarei silêncio como um segredo religioso. 

Mas como aproximar-se do paciente (agora cliente, como propõe o mercado) sem conhecê-lo? Ignorando o seu contexto social, econômico, cultural, por desconhecer o próprio país? Mal compreendendo as suas motivações por jamais ter sido convidado a filosofar, no sentido nato da palavra, que é debater causas e origens? 

Por outro lado, como substituir, de supetão, o modelo utilitário dos ensinos médio e fundamental por metodologias ativas se os alunos foram condicionados a decorar mais que aprender? 

A Arte, a História e a Filosofia precisam voltar urgentemente para o currículo de nossos jovens médicos. É uma das respostas mais amplamente difundidas pelas universidades mundo afora. A medicina, além de prática de saúde, é também uma prática social, e são interdependentes as habilidades médicas e as condições institucionais que permitem o melhor uso daquelas, por exemplo. A impossibilidade de realizar tratamentos médicos pela extrema pobreza é outro. 

Neste contexto, apresentamos aos alunos de Anatomia artistas renascentistas que foram cruciais para o desenvolvimento do conhecimento sobre o corpo humano, sendo inclusive responsáveis pelos primeiros estudos cadavéricos após a Idade Média. Introduzimos aulas de anatomia pediátrica, tema por muito tempo negligenciado nos programas de cursos brasileiros. E temos uma disciplina chamada Pediatria Social, em que debatemos temas caros aos cuidados com crianças e adolescentes, a partir de um viés histórico e sociológico. Desde o início, o curso conta com uma disciplina de Bioética, e inúmeras outras oportunidades de debate em fóruns temáticos sobre temas relevantes com enfoque social. 

É pouco? Não o sabemos. A grande questão não é enfileirar apresentações teóricas enfadonhas sobre humanidades em medicina, mas, a partir de exemplos históricos ou modelos teóricos, operacionalizar o aluno para resolver dilemas éticos cotidianos que só a práxis médica lhes trará. 

Métodos avaliativos como os OSCE (Exame Clínico Objetivo Estruturado), por exemplo, onde as habilidades e atitudes são observadas in loco pelo professor, são excelentes formas de avaliar o desempenho de alunos de medicina para além do mero conhecimento teórico. Mapas conceituais e ensaios se juntam a monografias e artigos científicos nos currículos destes, num esforço de formação que vai além da informação. 

Sim, acredito que a escola também deva educar. Em tempos de disseminação maciça de desinformação, de radicalizações ideológicas variadas, de desestruturação do tecido social pela pandemia, pela violência doméstica, pelos feminicídios e assassinatos de transgêneros sempre em alta, pela violência sempre crescente contra as nossas crianças, é crucial ensinarmos futuros médicos a pensar o cotidiano, para bem acolher a todos que os procurem, lidando com seus próprios preconceitos de forma íntima, que não afete a relação médico-paciente. 

E se já formos humanos, humanizados pela relembrança constante de nossa humanidade, por que não estudarmos um pouco mais destas ciências… humanas?

RENATO VAN WILPE BACH é médico, professor e escritor 

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