10/08/2021 às 10h08min - Atualizada em 10/08/2021 às 10h08min

Cinco perguntas para Álvaro Góes

Presidente do Grupo Gestor do Operário fala sobre a situação financeira do clube na pandemia, a volta do público ao estádio Germano Krüger, a previsão para a entrada na Série A do Brasileiro, os seus planos enquanto gestor e a sua possível ida para a política

Por Lucas Couto
Foto: José Tramontim
Desde o segundo semestre de 2014 ocupando a presidência do Grupo Gestor do Operário Ferroviário Esporte Clube (OFEC), Álvaro Góes conseguiu repetir no Fantasma o mesmo sucesso que o notabilizou entre os empresários da cidade. Em sete anos de gestão, Góes já conseguiu entrar para a história do clube ao conquistar títulos inéditos na trajetória do alvinegro: o Campeonato Paranaense de 2015, a Taça Paraná de 2016, o Campeonato Brasileiro da Série D em 2017 e a conquista da Série C e da Divisão de Acesso do Paranaense, ambas em  2018. Hoje, com o clube em sua terceira temporada na Série B, o presidente revela que a sua principal meta é conquistar o acesso à Série A, que escapou por pouco no ano passado. Na entrevista a seguir, Góes fala sobre a situação financeira do clube na pandemia, a volta do público ao estádio Germano Krüger, a previsão para a entrada na Série A do Brasileiro, os seus planos enquanto gestor do clube e a sua possível ida para a política. 

Sem público nos estádios há um ano e meio, todos os clubes brasileiros têm segurado investimentos e até cortado gastos para permanecer no “azul”. Como a pandemia afetou a realidade financeira do Operário?

Primeiramente, não é só o Operário que está nessa gangorra. Se você pegar o Corinthians e o Grêmio, você observa que eles estão sofrendo nas competições que disputam por falta de investimento. Para nós, por exemplo, isso atrapalha porque o torcedor representa 33% do nosso orçamento. O nosso orçamento gira em torno de R$ 16 milhões, e, para o final deste ano, teremos um deficit de quase R$ 4 milhões, o qual nós não sabemos como e nem de onde vamos tirar para poder cobrir. As nossas apostas estão na volta do público aos estádios, claro que isso de acordo com o avanço das vacinações. A nossa esperança está nisso, porque, caso não aconteça e eventualmente o Operário não suba para a Série A, para o ano que vem nós teremos que fazer uma redução brusca em todas as nossas despesas, inclusive na montagem do elenco. Se não for assim, podemos criar uma dívida muito grande, e isso nós não queremos.

Dirigentes dos clubes brasileiros vêm debatendo sobre a volta do público nas arquibancadas. Esse apelo ganhou mais força após a final da Copa América e o jogo do Flamengo em Brasília, pelas oitavas de final da Libertadores. Sobre esse assunto, qual é a sua posição? Teremos torcida no Germano Krüger em breve?

Nós, enquanto representantes do Operário Ferroviário, já fizemos um pedido junto à Prefeitura para a volta da torcida no estádio. Assim que tivermos o aval do município, iremos até a CBF [Confederação Brasileira de Futebol] pedir a liberação por parte deles. Agora, é claro que nós não podemos ser irresponsáveis a ponto de fazer essa reabertura sem tomar os devidos cuidados. Na minha opinião, o público no Germano Krüger precisa estar vacinado, utilizando máscara e álcool em gel, e seguindo todas as normas para termos mais segurança. É algo 100% seguro? Talvez não. Mas lá estaremos em um local aberto, diferente das festas com mais de 300 pessoas e o cinema, que são ambientes fechados e já possuem liberação para funcionamento. Essa volta também não é instantânea, mas, sim, gradativa, para que tenhamos muito mais tranquilidade.

Para o retorno, temos trabalhado com a questão da biometria, que é uma forma de privilegiar o torcedor que continuou conosco nesse período complicado, acabando com o que acontece, às vezes, de o cara vender a carteirinha dele e usar o Operário para ganhar um dinheiro. A nossa intenção é valorizar mais aquele torcedor que contribui, para que ele continue indo ao estádio nas melhores condições que nós podemos oferecer.

Lá em 2015, você falava muito a respeito de, em cinco temporadas, levar o Operário à Serie B do Brasileiro. Esse momento chegou, o Operário já está na terceira temporada seguida na competição. Existe uma meta de em quanto tempo vocês imaginam colocar o clube na Série A do Brasileiro?

Nós temos um projeto engavetado que se chama ‘Operário 15 anos’, que, como o nome já anuncia, é um conjunto de ideias que demonstram aquilo que nós queremos para o Operário daqui a 15 anos. Esse projeto já era para ter sido lançado no ano passado, mas foi engavetado por conta da pandemia. Nesse projeto, o sócio-torcedor participa integralmente, assim como as empresas que nos patrocinam. Nele, detalhamos em quanto tempo queremos chegar à Série A, e, assim por diante, chegar a outras competições. A nossa ambição maior com esse plano é, que ao final desses 15 anos, o Operário já tenha participado de, pelo menos, uma edição da Copa Libertadores da América.

Mas esse projeto não tem como andar sem o sócio-torcedor. Por isso, não lançamos ainda. Assim que as coisas se normalizarem, iremos expor o nosso plano, que nada mais é do que a visão que essa administração tem para o Operário. Particularmente, para mim, o objetivo sempre foi a Série A. O pessoal até fala que o Operário não quer subir para a primeira divisão, mas isso é mentira. Quem não quer estar na série A? Eu quero. E acredito que, nesse segundo turno, estaremos muito fortes na disputa por esse acesso.

No final da temporada passada, você chegou a declarar que estaria de saída do comando do Grupo Gestor. No entanto, voltou atrás, afirmando que sofria uma pressão interna para continuar e que outros nomes importantes do comando alvinegro sairiam com você. Dito isso, quais são os seus planos atualmente?

Naquela época eu agia mais com o coração, e, passando pela pressão que sofremos nas redes sociais, eu fiquei bastante irritado, porque essas pessoas se escondem nesses espaços para falar um monte de besteira, e isso foi me enchendo de um jeito que fez com que eu tomasse essa decisão. Teve o episódio também em que a torcida foi em frente à minha loja e acabou sendo uma grande dor de cabeça, porque isso repercutiu muito mal com os patrocinadores também. Exemplo disso é a DAF, que saiu do patrocínio da camisa por essa sequência de episódios. Outras empresas também saíram por causa disso. Então, todas essas coisas fizeram com que eu tomasse aquela decisão.

Então, eu cheguei para outro diretor e falei que ia sair, mas, em contrapartida, também recebi muita pressão por parte da nossa diretoria para que eu não deixasse o cargo. Eu não cedi integralmente já de primeira. Antes fiz um combinado de que sairia somente depois de organizar a casa, manter os patrocinadores e garantir para o sucessor um ambiente que ele pudesse tocar com tranquilidade. No entanto, quando sentamos para negociar os patrocínios, tivemos a posição de que as renovações aconteceriam somente se eu continuasse como presidente. Dessa forma, acabei sendo voto vencido, e, para o bem do clube, eu continuei. Mas posso dizer que aprendi bastante. Inclusive, nem redes sociais eu tenho mais. Decidi parar de dar ouvido a essas coisas. O torcedor é passional. Quando o time ganha, está tá tudo perfeito. Quando perde, nada presta.

Muitos dirigentes de futebol são sempre ventilados a cargos públicos importantes. Exemplos disso são Guilherme Belintani, presidente do Bahia e, Romildo Bolzan, presidente do Grêmio. Ambos já foram cotados a disputar eleições a prefeito e a governador. Você mesmo foi ventilado como um nome forte para disputar a Prefeitura de Ponta Grossa no ano passado. Existem planos para Álvaro Góes na politica?

Eu agradeço, porque vários dirigentes partidários me procuraram, inclusive o senador Álvaro Dias. Até mesmo o pessoal do governo estadual ventilou o meu nome para uma possível candidatura, o [empresário] Marcio Pauliki me procurou para ser vice na chapa dele, enfim. Mas eu particularmente acho que ainda não chegou a hora do Álvaro ir para a política. Eu tenho muita coisa para fazer no Operário ainda. Quero alcançar esse acesso para a primeira divisão. Trabalhando dessa forma, eu sinto que contribuo com a cidade tanto quanto um prefeito, porque fazemos, através da nossa boa gestão no clube, a cidade ser bem vista em todo o Brasil, e, de quebra, também trabalhamos para dar alegria ao nosso povo.

Essa nossa boa gestão fez com que fossemos reconhecidos no Brasil inteiro. Hoje é mais fácil de trazer um jogador para o Operário, porque ele sabe que aqui a gente faz as coisas de maneira correta. Acredito que essa forma de administrar o clube, e com o sucesso que eu tive à frente das minhas empresas, faz com que naturalmente as pessoas fiquem ventilando o meu nome na política. Mas eu tenho uma visão de política muito diferente. Por exemplo, eu não acredito que um prefeito tenha que basear a sua relação com a Câmara de Vereadores através de troca de favores. A gente viu isso com o Bolsonaro. Ele não ia conseguir governar se não tivesse fechado com o Centrão. Eu não ia me dar bem com esse tipo de postura. Sou uma pessoa que gosta das coisas certas e sem malandragem. Mas, mesmo com todas essas ponderações, não tenho preconceito com a política. Acredito que, na oportunidade certa e na hora certa, eu poderia me lançar na política, sim. Penso que eu poderia ajudar a resolver e fazer muitas coisas boas pela nossa cidade. Tenho certeza disso. Mas isso deixamos mais para a frente [risos].

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