12/08/2021 às 09h09min - Atualizada em 12/08/2021 às 09h09min

CPI da Covid vai pedir indiciamento de Bolsonaro por charlatanismo e curandeirismo

Senadores consideram que o presidente colocou em risco a saúde dos brasileiros

Por 'Jornal Nacional'
Foto: Reprodução
A cúpula da CPI da Covid anunciou que vai pedir o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro por charlatanismo e curandeirismo, por ele defender o uso de remédios sem eficácia comprovada no tratamento da Covid, informa o 'Jornal Nacional'. Nesta quarta-feira (11), senadores ouviram o diretor de uma empresa farmacêutica responsável por bancar propaganda desses medicamentos.

Jailton Batista é diretor-executivo da Vitamedic, uma das principais produtoras de ivermectina do país - remédio contra vermes e parasitas, mas que acabou incorporado ao chamado kit Covid, indicado pelo presidente Jair Bolsonaro e outros governistas para tratamento contra a Covid, apesar de não haver nenhuma evidência científica. Na pandemia, o faturamento da Vitamedic aumentou 29 vezes.

O relator, Renan Calheiros, do MDB, mostrou vídeos do presidente Jair Bolsonaro defendendo, em várias ocasiões, o uso do medicamento e perguntou se as falas ajudaram nos negócios.

Jailton: Em junho e julho, quando a pandemia teve um pico muito acentuado, teve uma demanda também muito maior do nosso produto.

Renan: O senhor, ao longo desses 40 anos, tem notícia de algum outro presidente que propagandeou qualquer medicamento útil ou inútil, como o caso da ivermectina?

Jailton: Não.

Randolfe Rodrigues (Rede/AP), vice-presidente da CPI: O senhor relatou aqui que, em junho e julho, no pico da pandemia, houve um aumento do faturamento das vendas.

Jailton: Houve um aumento da demanda.

Randolfe: Houve um aumento da demanda, do faturamento, das vendas.

Jailton: É.

O líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho, do MDB, saiu em defesa do presidente.

Bezerra: Isso foi em função da demanda que ele explicou, porque os médicos receitavam...

Renan: Sim, eu fiz: “Por que continuou vendendo para tratamento da Covid depois de demonstrada a ineficácia do produto?” É uma pergunta pontual, concreta.

Bezerra: Porque os médicos recomendavam.

Jailton Batista admitiu que a Vitamedic não realizou pesquisas científicas sobre a eficácia da ivermectina no tratamento da Covid, mas disse que a empresa continuou a vender o medicamento para esse fim, mesmo depois que a farmacêutica americana Merck, que criou o remédio, publicou estudo atestando que a ivermectina não tem efeito contra a doença.

Ele admitiu também que a Vitamedic bancou anúncios publicitários da Associação Médicos pela Vida, que promove o tratamento sem eficácia. De acordo com Jailton, os anúncios custaram R$ 717 mil.

Randolfe: Gastaram dinheiro com isso para aumentar os lucros; e não gastaram dinheiro investindo na pesquisa científica sobre a eficácia de medicamentos.

Jailton: Esclareço que o manifesto não foi para a ivermectina. O manifesto não tem nenhum caráter...

Fabiano Contarato (Rede/ES): Isso em Direito Penal chama-se estelionato: Artigo 171: obter vantagem indevida, induzindo ou mantendo alguém em erro, mediante artifício, ardil, ou qualquer outro meio fraudulento.

Renan: E o custo foi pago em vidas. Está aqui a tragédia.

Depois do depoimento, a cúpula da CPI anunciou que deve propor o indiciamento do presidente Jair Bolsonaro pelos crimes de curandeirismo, charlatanismo, medicina ilegal e publicidade enganosa. Os senadores consideram que o presidente colocou em risco à saúde dos brasileiros ao recomendar medicamentos sem eficácia comprovada contra a Covid.

“A caracterização penal, na hora certa, que couber, não tenham nenhuma dúvida, eu queria repetir, o relatório a conterá. Essa é uma decisão reforçada pela maioria da Comissão Parlamentar de Inquérito e efetivamente por tudo que está sendo investigado”, disse Renan.

Acareação

A CPI também aprovou uma acareação entre o ministro Onyx Lorenzoni e o deputado Luís Miranda, que denunciou irregularidades no contrato para compra da vacina Covaxin. Os dois apresentaram versões diferentes sobre a documentação enviada pela Precisa Medicamentos ao Ministério da Saúde.

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