20/08/2021 às 14h03min - Atualizada em 20/08/2021 às 14h03min

ARTIGO: Os 76 anos do diretório municipal do PCdoB de Ponta Grossa, por Elton Barz

Nestes quase 80 anos de vida, mesmo no período de clandestinidade, o PCdoB esteve ativamente presente na vida ponta-grossense

Por Elton Barz
Foto: Divulgação
Nos dias 25, 26 e 27 de março de 1922, grupos admiradores da Revolução Russa (1917), entre eles sindicalistas, profissionais liberais e livre pensadores, se reuniram em Niterói (RJ) para fundar o então denominado Partido Comunista do Brasil, com a sigla PCB, encontro considerado o primeiro congresso do partido.

Na metade de 1924, o V Congresso da Internacional Comunista (ou III Internacional) admitiu a nossa organização partidária como a sua seção brasileira oficial. Criava-se assim o mais antigo partido em funcionamento hoje no país e o primeiro partido de âmbito nacional do Brasil.

Umas das maiores dificuldades que o partido enfrentou foi, com certeza, os mais de 60 anos de ilegalidade forçada pelos mais diversos governos. Mas, mesmo assim, o então PCB esteve a frentes de inúmeras lutas importantes para o Brasil.

Para relembrar, destaco a da luta pela reforma agrária (primeiro partido a lançar manifesto) e pela criação, manutenção e reforço de empresas estatais estratégicas, como a Petrobras, Eletrobrás e Siderúrgica Nacional, entre outras.

Participou ativamente da luta pela democracia e integrou as mais diversas Frentes Amplas para a defesa de um país democrático e justo. Luta Pela Anistia, Diretas já, constituintes (partido participou ativamente da redação das Constituições de 46 e 88), Fora Collor, luta contra o desmonte do Estado Nacional nos governos neoliberais e sempre esteve presente na organização do movimento sindical, de juventude, mulheres, negros, da diversidade e demais movimentos sociais.

Em função do grande período em que esteve na ilegalidade, os primeiros diretórios estaduais e municipais surgiram no bojo da redemocratização da década de 40, entre os anos de 1945 e 47, e assim também ocorreu no Paraná. Vale lembrar que estávamos no pós-guerra e no período de redemocratização e da elaboração da Constituição de 1946.

O partido teve, no trabalho de elaboração da nova Constituição, a participação do senador Luis Carlos Prestes e mais 14 deputados, dentre os quais Carlos Marighela, Jorge Amado, Mauricio Grabois e João Amazonas. O partido teve cerca de 8,6% dos votos válidos e era a quarta maior força política daquela Assembleia constituinte. O partido elegeu bancadas na Bahia, Pernambuco, Distrito Federal, Rio de Janeiro (Guanabara), São Paulo e Rio Grande do Sul.

No Paraná, nesta conjuntura, o partido elegeu o deputado estadual, Jose Rodrigues Ferreira Neto, e a primeira mulher vereadora em Curitiba (primeira parlamentar feminina do Paraná), Maria Olympia Carneiro Mochel. Na fase entre 1922 e 1940, o partido teve, no estado, forte presença de sindicalistas especialmente ligados ao sistema ferroviário, nos portos de Paranaguá e Antonina, e em algumas atividades, como sapateiros e gráficos.

O partido era o centro da esperança da internacionalização da Revolução Russa de 1917 e, assim, atraiu mulheres e homens com a vontade de construir um novo mundo. No caso do Paraná, tínhamos também descendentes de ex-ativistas da Colônia Cecília (que existiu como experiência socialista inovadora no final do século XIX em Palmeira) contribuindo no início da nossa organização.

O partido, entre 1937 e 1944, sofreu grande repressão, especialmente depois do que ficou conhecido como "Intentona Comunista". O partido, em 1943, foi reconstruído na Conferência da Mantiqueira e preparou os quadros para o período de redemocratização que o Brasil começava a passar. No Paraná, a sigla se reconstruiu em torno do protagonismo de seu grande líder na época, Luis Carlos Prestes, e ainda de núcleos de pessoas do sindicalismo anteriormente construído, entre eles, os ferroviários.

O Partido Comunista do Brasil agremiou uma boa parcela de trabalhadores, como os ferroviários e os estivadores, imprimindo uma forte coesão identitária de esquerda com características prioritariamente solidaristas e associativistas, geradas lentamente a partir das experiências vividas no mundo do trabalho e na organização operária. 

A anistia, em abril de 1945, e o novo código eleitoral de 28 de maio, decretados com o fim do Estado Novo, permitiram a legalização e o registro oficial do Partido Comunista do Brasil (PCB) após décadas de clandestinidade e proscrição. Com a abertura política, a diretiva dominante entre os comunistas consistiu na defesa da democracia a partir da ampliação da participação política popular e da eleição de uma Assembleia Nacional Constituinte.

Ponta Grossa, como maior entroncamento ferroviário do sul do Brasil, teve uma participação importante da ferrovia e dos ferroviários no seu desenvolvimento enquanto centro urbano. Era constante a manifestação dos ferroviários nos jornais da época sobre os caminhos da política nacional, do Paraná e da cidade. O protagonismo dos trabalhadores ferroviários na vida social, esportiva e política de Ponta Grossa se mostrou de extrema importância, e foi desse agrupamento que vieram cerca de 20 operários que formaram o núcleo inicial do nosso primeiro diretório municipal do partido na cidade.

Precisamos lembrar a contribuição de João Antunes de Oliveira, Dino Colli (que hoje dá nome a uma organização da torcida do Operário Ferroviário Esporte Clube), Umberto Moro e dos ferroviários Miguel Pan e Manuel Mocelin, para o partido chegar à sua organização de 1945.

No dia da reunião inaugural do nosso diretório municipal, em 20 de agosto de 1945, a prisão do casal Olga Benário e Luiz Carlos Prestes foi o fato mais lembrado, recordado inúmeras vezes nos discursos dos camaradas comunistas ponta-grossenses.

O martírio e a redenção de Prestes não foram menos exaltados, tanto que o dia de sua libertação, 18 de abril de 1945, se transformou em uma data para ser relembrada e comemorada, e, principalmente, um momento para fazer denúncias aos cárceres autoritários do Estado Novo. 
 
A reunião foi acompanhada pelo quadro importante dos comunistas paranaenses Julio Manfredini, a quem coube, em nome do futuro diretório estadual, na pessoa de Walfrido Soares de Oliveira, futuro secretário-geral do partido no Paraná, dar posse à nova organização partidária que já começava com duas organizações de base, uma entre os ferroviários e outra dos profissionais liberais, chamada de Olga Benário Prestes.

Nestes 76 anos de vida, mesmo no período de clandestinidade, o PCdoB esteve presente na vida ponta-grossense. Sempre fomos ativos nos movimentos comunitários e sindicais. Nos movimentos estudantis, ajudamos a consolidação de Ponta Grossa como centro universitário e na ampliação da educação como direito fundamental de todos e todas.

Por meio do movimento estudantil e comunitário, veio a nossa atuação dentro da luta do transporte coletivo da cidade, que chegou até agora na nossa Organização de Base dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Transporte Coletivo. Muitas campanhas pela redução da tarifa e melhoria do transporte público foram dirigidas pelo nosso partido.

Lembro que, nesse período, no campo institucional, tivemos dois vereadores e uma vereadora, elegemos um deputado federal, que é, até hoje, o mais votado da história da cidade, e participamos do governo Péricles de Holleben Mello na área da participação popular do Orçamento Participativo. Muitas lutas realizadas e outras tantas a se realizar.

A nossa meta é a construção dos caminhos da equidade. Termino lembrando Olga Benário Prestes, saudada na nossa primeira reunião do diretório municipal, na sua carta de despedida a Luis Carlos Prestes, no dia anterior à sua morte por execução em um campo de concentração nazista: "Lutei pelo bom, pelo melhor e pelo justo do nosso povo."

ELTON BARZ é professor de história e historiador, e presidente estadual do PCdoB do Paraná

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