23/08/2021 às 11h07min - Atualizada em 23/08/2021 às 11h07min

CRÔNICA: Hortifruti do Tozetto, por Aline Sviatowski

A menina, no colo do pai, não deixa o temor impedi-la. Senta-se no chão, em um local onde não é possível enxergarem-na, e espera pacientemente a sua próxima vítima

Por Aline Sviatowski
Foto: Reprodução
Nos anos noventa, caminhar pelos corredores do tradicional mercado ponta-grossense poderia ser uma aventura divertida, ou irritante ─ dependendo das posições dos astros e das suas conjugações, dos níveis hormonais na corrente sanguínea, do extrato bancário ou mesmo da quina da cama; afinal, sempre é possível cair em ruínas ao bater a extremidade rica em receptores sensoriais do quase inútil dedinho.

Na entrada do mercado, os olhos cobertos por sobrancelhas grossas e a boca fina recolhida para baixo do tapete de bigodes do fiscal de loja fitavam o homem segurando sua filha no colo. Sentado nas redondezas da prateleira de jornais, cumpria o aterrorizante papel de poderio foucaultiano aos transgressores da ordem daquele estabelecimento comercial.

A menina, no colo do pai, não deixa o temor impedi-la. Com a destreza de esconder-se, caminha furtivamente até as ilhas de frutas. Ilha de banana. Ilha de chuchu. Ilha de batatas: a preferida. Senta-se prontamente no chão, em um local onde não é possível enxergarem-na, e espera pacientemente a sua próxima vítima.

O homem de calças largas, sapato escuro e blusa de moletom parecia ranzinza o suficiente para receber ogivas de batatas. Antes, precisava praticar ─ no chão ao lado de um senhor. Na ilha ao lado e na de tomates. Tudo certo, a mira estava calibrada. Observando os movimentos do desconhecido de face sisuda, escolheu o momento exato na sua tática precisa.

E um clarão de batatas surgiu. O homem deu um leve sobressalto. “Batatas”. Atingido por duas batatas. Retirado da introspecção que o remetia aos problemas da vida adulta, buscou perturbado ao seu redor. Olhou para cima. Olhou sobre os ombros. Sua face enrugada denunciava a irritação por ser retirado de suas lamentações internas. Remoendo seus problemas, observou a menina encolhida aos risos.

Prontamente abriu um sorriso largo, devolvendo as batatas à menina e devolvendo à sua face uma serenidade esquecida nos últimos dias.

Repreendida por seu pai, mas aos risos, a menina divertia-se com suas pequenas transgressões. A próxima? Afundar as órbitas oculares dos peixes da peixaria. Ao menos, até que seja pega em flagrante delito pelas tecnologias de monitoramento do século XXI.

Aos vencedores, as batatas... Mais precisamente, as do mercado ponta-grossense.

ALINE SVIATOWSKI é estudante em Ponta Grossa 

* Esse texto faz parte do projeto 'Crônicas dos Campos Gerais'. Para saber mais e participar, clique aqui

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