24/08/2021 às 09h15min - Atualizada em 24/08/2021 às 09h15min

ARTIGO: Wilson Simonal é rei, Sérgio Reis não é Simonal, por Renê Hellman

Sérgio Reis não é Wilson Simonal. O velho sertanejo, grande fazendeiro, que é bem informado e já foi deputado federal, não tem o direito de alegar desconhecimento dos mecanismos da política brasileira

Por Renê Hellman
Foto: Divulgação
Nelson Motta conta, em seu livro Noites Tropicais, os bastidores da ascensão e queda de Wilson Simonal. O Brasil vivia os anos de chumbo da Ditadura Militar, a classe artística enfrentava perseguições, mas Roberto Carlos e Simonal reinavam absolutos. E o sucesso deste último não se resumia a lotar shows no Brasil. Seus discos e seus shows eram grandes sucessos em toda a América Latina.

A esquerda torcia o nariz para Simonal e suas letras ufanistas. Era considerado um alienado pela sua própria classe, que armava barricadas artísticas com músicas e peças de protesto contra a mal-dita-dura. E, por causa de uma briga com seus sócios, por dinheiro, armou-se contra Simonal a versão do cantor dedo-duro, que supostamente tinha contatos no DOPS, o temido departamento responsável pela mais cruel repressão aos inimigos do regime.

E Simonal, que apenas “entendia de pilantragem, louras e carrões” (e música), passou a ser considerado um inimigo dos inimigos do regime, apesar de nada entender de política. O ódio pelo sucesso e pela arrogância de Simonal foi, certamente, potencializado por ser ele “o primeiro negro a chegar lá, no ponto mais alto do show business, a vender milhões de discos, a cantar para milhões de pessoas”.

Simonal acabou-se. Caiu em desgraça. Morreu pobre e só. Jamais foi perdoado. Jamais se fez justiça ao seu legado.

Em 2021, no terceiro ano do governo de Jair Bolsonaro, o país vê crescer o risco de um golpe de Estado, com ameaças concretas pronunciadas pelas mais altas autoridades do governo.

Bolsonaro, forjado no conflito, deixa de lado a guerra contra os moinhos de vento do inexistente kit gay, da inexistente mamadeira em formato de pênis e em favor da ineficaz cloroquina, e passa a lutar contra os ministros do Supremo Tribunal Federal, mais precisamente Luís Roberto Barroso, o atual presidente do TSE, e de Alexandre de Moraes, o futuro presidente do TSE, tribunal responsável pelas eleições.

Antevendo as dificuldades que terá em reeleger-se, com a economia combalida, com o desemprego que só aumenta, com a ausência de gestão federal da pandemia, com o atraso na compra de vacinas e com os números assustadores sobre as mortes na pandemia, o presidente da República estica o fino fio da democracia e ameaça o rompimento.

Seus gritos antidemocráticos, embora engasgados por um providencial soluço, fazem eco em alguns setores da sociedade, que, por motivos vários, alguns com consciência do que fazem e outros por pura falta de noção das consequências dos seus atos, fomentam as agressões do ensandecido presidente. 

Há quem se habilite a ser porta-bandeira dos arroubos autoritários de Bolsonaro e mobilize as pessoas ao seu redor para a inglória luta de destruir as instituições democráticas. Nesse grupo encontram-se pessoas de todo tipo, ruralistas, caminhoneiros, juristas e até mesmo alguns artistas, como o cantor Sérgio Reis, que foi a público convocar manifestações em favor do governo Bolsonaro, com uma pauta claramente antidemocrática: afastar os 11 ministros do STF, nem que seja na marra.

As reações foram imediatas e duras. Colegas artistas cancelaram suas participações no ex-novo álbum de Sérgio Reis, fãs queimaram seus discos em sinal de protesto, amigos afastaram-se e, por ordem do ministro Alexandre de Moraes, a Polícia Federal fez buscas na residência do cantor. Suas ameaças ao Supremo e ao Senado estão sendo investigadas.

Sérgio Reis admite seu erro em entrevista ao jornalista Roberto Cabrini, da TV Record (uma das poucas emissoras confiáveis para os fiéis do bolsonarismo) e afirma querer desculpar-se com os ministros do STF. Suas desculpas terão que ser à distância, pois há a proibição de que ele se aproxime dos togados. Alega estar sofrendo com o abandono dos amigos e a reação dos fãs, mas não se arrepende e pede respeito à “vontade do povo”.

Parece contraditório – e é – que Sérgio Reis reclame das reações contra si e, ao mesmo tempo, não se arrependa do apoio às investidas antidemocráticas de Bolsonaro, afirmando que está do lado do povo. 

Há, claramente, uma confusão com o conceito de povo. Para Sérgio Reis, os fãs que agora o rejeitam e os amigos e colegas que dele se afastam não são “o povo”. Para ele, o povo é composto por aqueloutros que concordam com o afastamento arbitrário dos 11 ministros do STF, para que Bolsonaro, tal como Hugo Chávez, possa compor uma corte à sua imagem e semelhança.

Nada mais antidemocrático do que usar “o povo” como conceito para justificar medidas que fragilizam dessa maneira a democracia.

E nem mesmo a vontade da maioria poderia ser considerada para uma agressão tão grave às instituições democráticas. Essas instituições têm, justamente, esse papel de serem contramajoritárias, ou seja, o dever de tomar decisões impopulares naqueles momentos em que a vontade da maioria contrariar os princípios fundantes do Estado Democrático de Direito.

Houvesse um ordenamento jurídico democrático na Alemanha nazista, talvez Hitler não tivesse conseguido aniquilar 6 milhões de seres humanos, mesmo com o apoio da maioria dos alemães, alucinados com o mito de então.

Que a democracia sobreviva. É por essa sobrevivência que está agindo o “impopular” STF nesse momento. Diante da inércia vergonhosa do Procurador-Geral da República e da covardia do Parlamento, comandado pelo mesmo Centrão, vendável por qualquer cargo ou merreca orçamentária, que Bolsonaro jurou combater na sua campanha, o STF tem sido o último bastião da democracia, a última barreira de contenção do autoritarismo do presidente da República.

E por isso é o alvo da vez.

A guerra de Bolsonaro contra o Judiciário não se trata de um enfrentamento democrático ou de um abalo temporário na convivência entre os poderes. Não. Está claro que essa guerra artificialmente produzida e fantasiosamente baseada na defesa das liberdades individuais e da transparência, tem por finalidade desestruturar a frágil democracia brasileira, criar desculpas para uma insurreição após a sua provável derrota nas eleições de 2022 e criar uma cortina de fumaça para esconder aquilo que de fato deveria estar sendo discutido atualmente no Brasil: crescimento econômico, políticas de sustentabilidade ambiental, rede de proteção social, garantia de saúde pública para todos e os crimes na gestão da pandemia.

Quem embarca nessa viagem alucinada, ainda que inconsciente das graves consequências que isso causa ao país, não pode ser considerado um inocente útil. Depois de tantas demonstrações públicas de desapreço às instituições democráticas, mesmo o mais desinformado dos brasileiros não pode alegar ignorância. 

Por isso, Sérgio Reis não é Wilson Simonal. O velho sertanejo, grande fazendeiro, que conviveu por mais de 60 anos nas altas rodas culturais brasileiras, que é bem informado e que já foi, inclusive, deputado federal, não tem o direito de alegar desconhecimento dos mecanismos da política brasileira. 

Se Sérgio Reis vai a público e inflama os seus comparsas para que pratiquem atos de desapreço à democracia, ele não é uma vítima de linchamento virtual. Sérgio Reis não é Simonal, porque sua queda em desgraça não se deu por um boato. Há materialidade do ato e a autoria foi confessada. Há gravações que não soam como música. E não basta pedir perdão.

Simonal deixou seus versos na partida e só cantigas para se cantar. Nada semelhante a Sérgio Reis, com seu sofrido coração que não é de papel, que há de suportar, numa longa viagem de chalana pelo caudaloso rio do processo judicial, as consequências de apoiar as ilegítimas, inconstitucionais e inconsequentes investidas contra a democracia brasileira. Não basta pedir perdão.

RENÊ HELLMAN é professor do Departamento de Direito Processual da UEPG

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