02/09/2021 às 08h13min - Atualizada em 02/09/2021 às 08h13min

ARTIGO: Pornografia, uma indústria de malefícios, por Jussara Prado

Além dos efeitos sociais e comportamentais, a pornografia torna o cérebro do consumidor desse tipo de conteúdo idêntico ao de um dependente químico

Por Jussara Prado
Foto: Reprodução
O vício em pornografia é um obstáculo à saúde física e mental cada vez mais presente na vida das pessoas. A empresa Quantas, especializada em pesquisas e consumo de mercado, divulgou em 2018 que 22 milhões de brasileiros já assumiram consumir esse tipo de conteúdo, sendo que, destes, 76% são homens e 24% são mulheres. O levantamento também descobriu que os consumidores de pornografia no Brasil predominam na classe média, sendo 14% da Classe A, 49% da Classe B e 37% da Classe C.
 
A partir das respostas dos entrevistados na pesquisa, concluiu-se que a pornografia era utilizada como uma "pílula de estímulo" e que "dá vazão a fantasias, desejos, frustrações e permite viver o prazer livre que hoje se concretiza em imagens". Os principais motivadores listados na pesquisa da Quantas foram:

• Ver e aprender situações/posições;

• Sentir prazer livre e individual;

• Proporcionar a criação compartilhada;

• Válvula de escape em casos de desilusão, solidão ou carência.

O consumo de pornografia em nossa sociedade não vem de hoje. Esse tipo de material já era encontrado em revistas, fotografias, vídeos, entre outros meios. Mas, com o avanço da tecnologia e da internet, o acesso à pornografia ficou a um clique de distância. Com a pornografia virtual, uma pessoa consegue ver mais garotas em cinco minutos do que os seus ancestrais em várias gerações.

Em um estudo sobre os impactos da pornografia realizado pelo pesquisador canadense Simon Louis Lajeunesse, em 2009, não foi possível encontrar rapazes que não fizessem uso de pornografia, tornando a pesquisa inviável. 
É como se todos os meninos de dez anos fumassem cigarro e não houvesse nenhum grupo que não fizesse isso, e, dessa forma, poderíamos facilmente ver o câncer de pulmão como algo normal de se acontecer entre os jovens. 

Apesar de ser amplamente disseminado, é importante destacar que o consumo da pornografia não faz parte de um processo natural e saudável do desenvolvimento humano. Para alguns, pode até ser difícil acreditar que uma atividade sexual possa viciar, afinal, sexo é algo saudável, não é? Sim. Mas a pornografia na internet não é sexo. E é completamente diferente do sexo real.


O primeiro impacto causado por esse embate entre fantasia e realidade é a comparação dos corpos, tanto do próprio corpo quanto do corpo da (o) parceira (o) em relação aos atores. Corpos reais possuem estrias, celulite, pancinha de chope aqui, pneuzinhos ali, e pelos (inclusive nascemos com eles, não sei se todo mundo está sabendo disso). Já os atores realizam inúmeros procedimentos estéticos -- sem contar o photoshop que é adicionado aos vídeos.

Homens que consomem pornografia tendem a diminuir a empatia, podendo desenvolver quadros de ansiedade e depressão, baixa satisfação sexual, disfunções sexuais e comportamentos sexuais de risco, como a não utilização de camisinha (característica dos vídeos pornográficos). Além disso, tendem a pressionar as suas parceiras a terem um corpo ideal, o que nos leva a outro tópico.

A objetificação das mulheres realizada nos pornôs é consumida, aprendida e propagada pelos consumidores. É possível verificar um status de desigualdade de gênero, quando os vídeos reafirmam os estereótipos da "urgência biológica insaciável" do homem; quando a mulher é usada apenas para satisfazer os desejos do homem; quando o clímax das cenas é a ejaculação masculina; e quando a gratificação feminina é geralmente ignorada.

Um estudo mostrou que, em 97% das cenas de relações heterossexuais com conteúdo sexual explícito, a ejaculação do homem sobre o rosto ou o corpo feminino era focado e centralizado. Esse tipo de conteúdo só estimula a violência contra a mulher, contribuindo para a reprodução de situações de desrespeito.

Também existem os diversos conteúdos que incentivam o uso da autoridade, profissão, idade e posição durante o ato sexual. Um estudo mostrou que, de 282 personagens de 45 filmes pornográficos, os personagens masculinos eram, em 62% dos casos, profissionais ou homens de negócio, enquanto a submissão feminina era representada em profissões como assistentes, secretárias e donas de casa em 58% dos casos.

Dentro dessa tendência de colocar o homem em posição de vantagem, também são criadas personagens infantilizadas, com trajes escolares, voz infantil e ausência de pelo pubiano, reafirmando a figura da autoridade e do poder masculino. Na prática, conteúdos como esses ensinam e incentivam a prática do assédio e do abuso em relações de poder dentro de organizações, instituições religiosas e de ensino, relações afetivas, familiares e de qualquer outro tipo.

Para além dos efeitos sociais e pessoais, a pornografia age diretamente em uma área do cérebro que nos direciona à busca de recompensas. As atividades neurológicas do cérebro de um viciado em pornografia são idênticas às de um dependente de drogas. Logo, a necessidade e a busca pelo prazer passam a ser cada vez mais intensas, fazendo com que o usuário acesse conteúdos cada vez mais pesados e o comportamento da pessoa passe a ser orientado no sentido de obter satisfação com ações compulsórias.

O consumo assíduo de pornografia contribui para que homens desenvolvam expectativas irreais sobre as mulheres, dificultando a sua própria satisfação e resultando em diversas disfunções sexuais.


Diante desse cenário, movimentos antipornografia como o 'Recuse a clicar' têm alcançado cada vez mais pessoas que decidem parar de consumir esse tipo de conteúdo. A sua principal pauta é o não acesso a sites pornográficos, que possuem uma indústria obscura de objetificação de mulheres em variados níveis e aspectos, banalizando a violência e suscitando outros crimes, como o tráfico sexual, a pornografia infantil, o estupro e outros. 

A pornografia pode seriamente prejudicar os relacionamentos, principalmente o seu com você mesmo, no quesito da autoestima e da autoconfiança. Ela distorce o significado do amor e da intimidade de muitas formas, prejudicando a sua saúde física e mental. É importante pontuar que existe acompanhamento psicológico para quem decide parar de acessar tais conteúdos, podendo retornar a uma vida mais leve e saudável. 

JUSSARA DORETTO BENETTI DO PRADO é psicóloga (CRP 08/25852). E-mail: jussaradbprado@gmail.com. Telefone: (42) 9-9827-3225. Instagram: @psicologa.jussaraprado

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