06/09/2021 às 16h35min - Atualizada em 06/09/2021 às 16h35min

ARTIGO: Patriotismo sem bandeira, por Renê Hellman

Um bom exercício de patriotismo, para além do culto vazio a uma bandeira, seria seguir, na essência, o que fazem os norte-americanos: valorizar a própria cultura

Por Renê Hellman
Foto: Divulgação
Brasil amado não porque seja minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo do meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,
Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.

 
(Mario de Andrade, “O poeta come amendoim”, poema dedicado a Carlos Drummond de Andrade)


Em uma entrevista disponível no YouTube, para o Museu da Televisão Brasileira, concedida em 23 de abril de 1999, Tônia Carrero, uma das maiores atrizes brasileiras de todos os tempos, conta como o cinema brasileiro foi boicotado pela influência dos norte-americanos: “o americano pagou para o FMI só nos emprestar dinheiro com a condição de não se fazer cinema; o americano é amigo do cinema dele, da cultura dele. É uma parte do mundo tão inteligente, que chegou à conclusão de que a cultura é a maior divulgação de um país”.

Ninguém duvida que os estadunidenses saibam vender bem os seus produtos culturais. Tanto é que os maiores produtos culturais e os padrões de qualidade da música, do cinema e da TV sejam norte-americanos. O mundo foi colonizado culturalmente pelos Estados Unidos da América. O Brasil também. 

Ariano Suassuna, em engraçadíssima conferência também disponível no YouTube, intitulada “Você já foi à Disney?”, citando Machado de Assis, faz importantes reflexões sobre o Brasil real e o Brasil burlesco, representado ali por uma elite econômica que enxerga os padrões norte-americanos de vida como sendo os ideais. Nesse contexto, ter ido à Disney seria requisito para ingresso no restrito clube dos brasileiros de alto nível. Ariano não havia ido e causou decepção em sua interlocutora afortunada com orelhas de rato.

Essa situação é representativa de como a colonização cultural dos norte-americanos, especialmente sobre o Brasil, opera. E ela pode ser percebida, inclusive, em movimentos sociais que vão além da cultura das artes propriamente dita. Nos últimos dias, dado o anúncio das manifestações em favor do governo federal no dia 7 de setembro, é possível ver em várias residências a bandeira brasileira tremulando.

Em nome do patriotismo, abre-se espaço para a bandeira brasileira, tal qual fazem os estadunidenses nas comemorações do seu Dia da Independência. Nem mesmo como patriotas os brasileiros conseguem produzir um ato genuíno.

Um bom exercício de patriotismo, para além do culto vazio a uma bandeira, seria seguir, na essência, o que fazem os norte-americanos: valorizar a própria cultura. Patriota brasileiro que se preze deve, antes de tudo, conhecer e valorizar aquilo que o Brasil produziu de melhor na cultura das artes. 

Na literatura, temos medalhões como Machado de Assis, José de Alencar, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Mário de Andrade, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Monteiro Lobato, Cecília Meirelles, João Cabral de Mello Neto, Mário Quintana, Cora Coralina, Ariano Suassuna e tantos mais.

Em música, o Brasil produziu artistas de nível altíssimo: Tom Jobim, Chico Buarque, João Gilberto, Tim Maia, Dona Yvone Lara, Dorival Caymmi, Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil, Elis Regina, Milton Nascimento, Os Novos Baianos, Inezita Barroso, Pixinguinha, Luiz Gonzaga, Noel Rosa, Paulinho da Viola, Cartola, Jorge Ben Jor, Adoniran Barbosa, Villa-Lôbos, Ney Matogrosso, Lupicínio Rodrigues e mais uma lista quase interminável de gênios do som.

Na dramaturgia, Nelson Rodrigues deixou um legado de peças teatrais de qualidade inconteste... e os profissionais do palco? Procópio Ferreira, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Tônia Carrero, Lima Duarte, Sérgio Britto, Paulo Gracindo, Marília Pêra, Eva Wilma, Tarcísio Meira, Chica Xavier, Glória Menezes, Raul Cortez, Antonio Fagundes, Cacilda Becker, Bibi Ferreira, Dercy Gonçalves, Zezé Motta, Glória Pires,  Maria Clara Machado, Paulo José, Irene Ravache, Tony Ramos, Aracy Balabanian, Nathalia Timberg, Walmor Chagas, Milton Gonçalves, Marco Nanini, Marieta Severo e muitos, muitos mais.

Um patriotismo real passa por conhecer a cultura das artes do próprio país e por valorizá-la, não porque seja melhor do que as artes de outras gentes e, sim, porque é a tradução do próprio espírito de um povo, das conexões que nos unem e nos fazem filhos de uma terra.

Um patriotismo construído sobre a ideia de que uma bandeira nos representa é nada mais do que brisa que passa. Não há sustentação e nem durabilidade.

O real patriotismo passa pela renúncia ao efêmero e deve ser construído sobre as bases sólidas daquilo que nos explica e nos coloca diante do espelho. Nossas artes têm essa capacidade de nos mostrar o que nos faz essencialmente brasileiros.

O Brasil real é também índio e preto; é da floresta, do rio, do mar e da selva de pedras; é das colônias de alemães, italianos, japoneses, holandeses e poloneses; é dos pampas e é dos pântanos. O Brasil real é dos nossos pratos, danças, cantos, festas, orações, santos e entidades; é dos cosmopolitas e dos caipiras; é dos malandros e das rezadeiras.

Que a independência tão desejada não seja declarada contra nós mesmos. Que nosso real patriotismo permita que possamos nos conhecer e nos reconhecer, e que, um dia, independentes, consigamos marchar sobre todos aqueles que negam as características que nos fazem brasileiros e que querem nos impor um americanismo de segunda linha, inclusive no campo da política.

Que os brasileiros se declarem independentes do pensamento que nos colonizou e nos coloniza, impondo-nos até mesmo uma cópia mal ajambrada do golpe de Estado dos caubóis irracionais e autoritários das terras da América lá de cima.

RENÊ HELLMAN é professor do Departamento de Direito Processual da Universidade Estadual de Ponta Grossa

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