06/03/2021 às 17h45min - Atualizada em 06/03/2021 às 17h45min

Aforismos da pandemia, por Miguel Sanches Neto

Breves reflexões sobre a vida, a literatura e, é claro, a pandemia, de fevereiro de 2020 a fevereiro de 2021

Por Miguel Sanches Neto
Foto: Luciane Navarro / UEPG
Fevereiro de 2020

Dia 22

Aula de economia
Escrever é agregar valor ao detalhe.

Março

Dia 22

As baratas só saem à noite porque não nos suportam.

Dia 27

– Por que não quer a quarentena? 
– Não sabe conviver consigo mesmo.

Dia 29

Conclusão rápida: desaprendemos a esperar.

Abril

Dia 2

Nas crises, pessoas comuns se tornam grandes figuras; grandes figuras viram meras caricaturas.

Maio

Dia 3

Escrever um livro é uma forma de nos roubarmos de nós mesmos.

Dia 7

– Já não sei o que pensar. 
– Mas ninguém nos tira o ter pensado.

Dia 11

Túnel do tempo
Eu estava pesquisando em uma biblioteca em Roma, o livro era belíssimo. Cansado de tanto ler, apoio o rosto no imenso volume aberto, macio e acolhedor. E acordo às 4 da manhã, o rosto enfiado em meu travesseiro aqui em casa.

Dia 17

Uma linha depois de outra linha, eis minha frequência cardíaca.

*

É do ofício do escritor fazer home-office.

*

O maior cemitério é a nossa memória.

Dia 28

As meias verdades são sempre grandes mentiras.

Dia 31

Só madruga quem tem medo da morte.

*

Visão de futuro dos escritores
Prevendo a expansão do coronavírus, Jerome David Salinger se isolou em Cornish em 1953 e viveu em quarentena até morrer em 2010.

*

– Veio perguntando se não podia arranjar umas laranjas do meu quintal. Tão bonitas. Apanhei meia dúzia e dei, alegrinha de tudo. Logo, metade das crianças da vila estava pedindo também. Mandei meu velho cortar as árvores e joguei tudo na rua. Nunca viram tanta fruta.

Junho

Dia 9

O escritor sozinho já é uma aglomeração perigosa.

Dia 11

Biblioteca imaginária
Quem lerá os livros que nunca serão escritos?

Dia 17

O poema nasce como cogumelo em esterco depois das chuvas.

*

E disse o escritor: eu creio neu.

*

Educação a distância
Quando me lembro de minha professora do primário.

Dia 25

Não há grande escritor sem obra extensa. Há escritores de grandes obras, que não são grandes escritores por terem escrito pouco.

Julho

Dia 18

Tenho muito, mas muito medo de quem só vê nos outros os defeitos.

Dia 20

Cultivava inimigos como um jardim de espinhos.

Agosto

Dia 1

Por iniciativa dela aumentaram as plantas em casa na pandemia. 
Por falta de iniciativa dele, diminuiu o estoque de bebidas.

*

– Por que publicar dois livros ao mesmo tempo? 
– São um casal.

Dia 5

Propaganda de sabonete
A realidade nos suja; a ficção nos limpa.

*

Quando uma época só lê não-ficção, há algum distúrbio intelectual grave.

*

Escrever o primeiro romance é fácil. Difícil é escrever o último.

Dia 22

Sucesso
Um grande escritor nunca será totalmente descoberto.

Dia 23

Perder grandes amizades é ter partes do corpo amputadas.

Dia 29

Meu pequeno quintal tem a extensão dos voos das aves.

Setembro

Dia 7

O escritor, este ladrão de memórias.

Outubro

Dia 12

Se perdemos 432 trilhões de células por dia, do menino que fui só resta em mim hoje a memória.

Dia 14

Não há professora ou professor que não tenha deixado algo positivo na gente. Todos são rios que passam por nós e, com sua força, nos movem a um lugar que, sem eles, nunca chegaríamos.

Dia 17

Um único bom livro expõe a impostura da produção de um período.

Dia 28

Há dois tipos clássicos de falsos escritores. Os que acham que têm uma grande história e isso basta; os que creem possuir um estilo e isso é tudo.

Dia 30

Empreendedorismo literário 
Ser escritor é fazer acontecer um mundo que não existe.

Novembro

Dia 16

A segunda-feira dura duas vezes mais do que a sexta, e cinco vezes mais do que o sábado. É uma semana inteira.

Dia 21

No amor, somos sempre estagiários.

Dia 24

O nono planeta 
O maior planeta do Sistema Solar é nosso pequeno umbigo.

Dia 30

Todo ano é pleno, mesmo aquele que perdemos.

*

O tempo do amor não admite os ponteiros do relógio.

Dezembro

Dia 6

O silêncio é um sim para dentro.

Dia 7

No Brasil, é preciso sobretaxar as grandes fortunas e as grandes ignorâncias, que na maioria das vezes se sobrepõem.

Dia 11

Ao escrever estamos apaixonados; ao revisar, discutimos a relação.

Dia 16

Bom gosto literário 
O escritor tem ódio gratuito a termos e expressões com muito uso.

*

Intolerância 
Há palavras que me provocam uma irritação estética.

*

O bom ficcionista: poeta que se oculta atrás de palavras aparentemente banais.

Dia 21

Em todas as áreas, vivemos a era da cartilha. Qualquer complexidade, ai que chatice!

*

Pela cartilha que cada um segue a humanidade vai ficando cega.

Dia 30

Mágico de extremos, sumiu-se de si mesmo.

Janeiro de 2021

Dia 9

Cotação
Não se perdoa a inteligência que não se vende.

Dia 12

Escreve-se mais com silêncios do que com eloquência.

*

Se você não consegue arrumar uma frase incômoda é porque o texto não precisa dela.

*

Um capítulo de romance bem feito precisa ser um soneto em versos brancos e com métrica aberta.

Dia 15

Escrever é bebedeira. Revisar é ressaca.

Dia 21

Como não sabia escrever uma grande narrativa, empilhava palavras.

Dia 22

Credibilidade não tem nada a ver com crédito.

Dia 26

As madrugadas sempre foram seu melhor agora.

*

Os livros ensinam silêncio. Ensinam-nos a nós mesmos.

Dia 27

Um escritor não quer apenas ser lido. Um escritor quer ser livro.

Dia 30

– Mestre, por que este apego tão profundo à vida? 
O velho escritor estava arcado sobre a mesa de trabalho. Os 90 anos haviam destruído quase tudo nele, menos a perspicácia do olhar e a força da mão com a caneta vermelha. 
– Porque tenho que terminar a revisão deste livro.

Fevereiro

Dia 13

Os amantes se acham invisíveis e desfilam em público o seu desejo.

Dia 15

Fim da cansativa jornada de trabalho. Com o que sobra de energia, tenta inventar um pássaro.

Dia 25

Há formas de pensar que são tão estéreis quanto os passos nas esteiras. Não nos tiram do lugar.

MIGUEL SANCHES NETO é escritor e reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa

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