17/09/2021 às 13h50min - Atualizada em 17/09/2021 às 13h50min

ARTIGO: Patriotismo verde-amarelo, por Mário Sérgio de Melo

O Brasil nunca foi tão devastado e servil aos interesses do mercado internacional como está sendo agora, em prejuízo das necessidades da gente brasileira

Por Mário Sérgio de Melo
Foto: Reprodução
É irrefutável, Bolsonaro e seus seguidores lograram apropriar-se de dois dos maiores símbolos da pátria Brasil: a bandeira nacional e a camisa da seleção brasileira de futebol. Que força têm (ou deveriam ter) esses símbolos para a identificação do brasileiro com sua pátria! A bandeira, assim nos é ensinado desde que somos crianças, tem as cores das matas, da riqueza do ouro ─ que representa os recursos naturais ─, do céu. A camisa canarinha representa a redenção do complexo de vira-lata que pôs de joelhos a autoestima nacional, após a humilhante derrota para a celeste uruguaia em 1950, perante um Maracanã lotado, garganta muda, dignidade enlameada. Só em 1958 e 1962, na Suécia e no Chile, resgatamos a confiança de podermos ser vitoriosos. O futebol, simbolizado pela camisa canarinha, foi o nosso redentor.

A escolha desses símbolos pelo bolsonarismo é bem coerente: o mote do governo atual, “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”, faz supor que a pátria seja uma prioridade, junto com a fé religiosa. Vale refletir sobre esta declarada intenção de patriotismo.

George Orwell ─ pseudônimo do autor inglês Eric Arthur Blair ─ escreveu no final de 1940 o ensaio "O leão e o unicórnio: o socialismo e o gênio inglês" (no livro Por que escrevo, Penguin Companhia das Letras, 2021). Esse texto ganha importância pelo fato de ter sido escrito logo após a Retirada de Dunquerque, o episódio em que 300 mil soldados ingleses, vencidos e sitiados pelas avassaladoras forças alemãs, foram evacuados por um "milagroso" esforço dos proprietários de embarcações civis, que arriscaram a vida para salvar os conterrâneos. No ensaio, Orwell conjetura que a Inglaterra só não seria invadida e dominada pelas forças nazistas se o patriotismo fosse mais forte que a luta de classes, existente desde sempre, mas acirrada pelas ideias trabalhistas e socialistas que naquele momento varriam a Europa. A bem sucedida Operação Dínamo, que resgatou os vencidos soldados ingleses, foi uma demonstração de que a unidade nacional do povo inglês não tinha se esgarçado.

E no Brasil atual? Aqui a luta de classes é muito diferente daquela de 1940 na Inglaterra. Parafraseando Darcy Ribeiro, no Brasil a casa grande não é uma instituição histórica, é uma estrutura mental. Isto fruto da mais longeva escravidão do mundo recente, que perdurou por mais de três séculos. O trabalhismo no país é incipiente, e seguidamente golpeado cada vez que alcança algum progresso. A luta de classes por aqui é uma luta desigual; a casa-grande dominadora não mostra intenção de ceder seus privilégios em favor da unidade nacional; a massa assalariada não alcança discernimento e organização suficientes para negociar direitos com equidade. A casa-grande não abdica de seus privilégios. A senzala ─ a classe trabalhadora ─ não consegue alforriar-se. O que esperar de patriotismo?

A atual apropriação da bandeira e da canarinha tem outros significados. Quem exibe esses símbolos tem consciência do que seja patriotismo? O governo atual está permitindo ─ e incentivando ─ destruir as matas, está entregando para o mercado internacional os recursos naturais, as empresas estatais, o alimento produzido no país, com graves consequências, no risco de crise hídrica e humanitária, apagão, encarecimento de alimentos, combustíveis, gás e serviços como correio, luz e água. O Brasil nunca foi tão devastado e servil aos interesses do mercado internacional como está sendo agora, em prejuízo das necessidades da gente brasileira. Nunca os símbolos de patriotismo foram tão desvirtuados.

A construção da nação Brasil depende de avançarmos em dois fundamentos: a ideia de pátria superar as rupturas da luta de classes; a soberania nacional impedir a venda do país para o mercado internacional.

MÁRIO SÉRGIO DE MELO é geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG

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