24/09/2021 às 10h00min - Atualizada em 24/09/2021 às 10h00min

Cinco perguntas para Edilson Fogaça

Figura onipresente nas campanhas de alguns dos maiores nomes da política local e afiado observador do mundo político brasileiro, o contador, empresário, professor e ex-vereador Edilson Fogaça fala sobre o governo Jair Bolsonaro, economia, a gestão da prefeita Elizabeth Schmidt e o seu futuro como político

Da redação
Foto: Reprodução
Desde 1996, o empresário, contador e professor Edilson Fogaça trabalha nas campanhas eleitorais para a Prefeitura de Ponta Grossa de quase todos os grandes nomes da política local. Em ordem cronológica, o empresário atuou como contador nas campanhas de Plauto Miró Guimarães Filho em 1996; de Jocelito Canto em 2000; de Pedro Wosgrau Filho em 2004 e 2008 (nesse caso, também como coordenador); de Marcelo Rangel em 2012 (também como coordenador) e 2016; e, de forma mais indireta, da atual prefeita Elizabeth Schmidt e do vereador Filipe Chociai (nesse caso, para o Legislativo) em 2020. Em meio a tudo isso, Fogaça cumpriu um mandato como vereador em 2009 e se tornou um dos profissionais mais requisitados do município na área da contabilidade. Declarando-se neoliberal, o empresário é muito ativo nas redes sociais, onde publica comentários afiados sobre política e economia. Na entrevista a seguir, ele fala sobre o governo Jair Bolsonaro, economia, a gestão da professora da Elizabeth e o seu futuro como político. 

Além de já ter atuado como vereador e de ser uma pessoa que circula pelos bastidores da política, você é muito ativo nas redes sociais. Entre os assuntos que aborda, está a pessoa e o governo do presidente Jair Bolsonaro, de quem é muito crítico. Na sua visão, o Brasil não avançou em nenhum aspecto sob o governo Bolsonaro? Como, enfim, você avalia o atual governo?

Ser crítico a um governo seria algo sistêmico e pragmático. Não creio que eu o seja com relação ao governo Bolsonaro. Nas redes sociais, não se critica o governo e seu plano de governo, e sim os atos e fatos praticados por esse governo. No caso do Bolsonaro, ele mesmo, dentro de seu planejamento de mídia, gera as críticas e ele mesmo difunde as mesmas no sentido de permanecer na mídia. É algo novo. Nunca vimos o próprio governo gerar atos e fatos polêmicos para gerar mídia e manter uma linha de comunicação direta com o seu eleitorado. 

Como me considero neoliberal, as ideologias pregadas e difundidas pelo Bolsonaro, como planejamento estratégico de mídia, acaba gerando criticas prontas, e não só minhas, mas de todos que não são seus eleitores e não coadunam com a sua forma de pensar e agir. Nesse sentido, quando você compartilha nas redes sociais esses fatos e atos praticados pelo próprio Bolsonaro, a sua base eleitoral acaba achando que isso é uma critica ou, pior que isso, uma critica sistemática. O que não procede. 

Ele defender a cloroquina, por exemplo, para o seu eleitorado é o certo, mas para quem acredita na ciência, como eu, não é a coisa certa a ser feita. Também a questão do uso de máscaras, distanciamento social e assim vai. Na questão ideológica de difundir o “white power” [poder branco], a homofobia, o racismo, o sexismo, por exemplo, o Bolsonaro gera essas ideologias para o seu eleitorado, que infelizmente pensa como ele nessas questões. Ao você compartilhar e replicar isso discordando, gera uma falsa impressão de que você é oposição ou crítico ao governo. Mas pergunto: esse posicionamento contrário a tudo isso não deveria ser uma coisa natural das pessoas de bem e dos chamados “cristãos”?

Quando ele adota indexação do combustível ao dólar, e essa indexação eleva o preço da gasolina a R$ 7,00 o litro, ele culpa os governos estaduais pelo valor da gasolina, quando na verdade a culpa é da indexação do preço dos combustíveis em dólar. Então, como defender essa afirmação dele? Não tem como, porque não é verdade, pois o ICMS [Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços]
 não é o culpado pelo preço de R$ 7,00 da gasolina. A mesma coisa com o gás de cozinha a R$ 96,00 o botijão. Não é culpa dos governadores nem do ICMS, pois no próprio site da Petrobras e da Agência Nacional de Petróleo [ANP] consta a composição do ICMS, que é de 14,50% em todos os estados da federação.

Quanto aos pontos positivos do governo, são quase nulos. No tocante à corrupção, ele acabou com a Lava-Jato, entregou o Ministério da Saúde ao Centrão, bem como boa parte do comando do governo. Na questão ambiental, até ministro envolvido com contrabando internacional de madeira da Amazônia tivemos. Nas politicas públicas, não avançamos na distribuição de renda e na geração de empregos, se bem que nesse aspecto podemos dar um desconto em face da pandemia. Hoje vivemos uma crise hídrica sem precedentes, na qual faltou celeridade na tomada de decisões para amenizar e planejar como passar por esse caos que se aproxima. Na questão econômica, vemos o flagelo da inflação voltar com força no país, massacrando a classe média com o alto custo dos gêneros alimentícios.

Aprendi que, no Brasil, a classe intelectual vota na esquerda, e esses são cerca de 20% do eleitorado. Aprendi que a elite social e econômica vota na direita, e essa representa cerca de 20% do eleitorado. Aprendi que, em toda eleição para presidente, 20% do eleitorado vota em branco / nulo ou não vai votar. E, finalmente, aprendi que 40% do eleitorado não está nem aí para direita ou para esquerda, nem para ideologia ou religião. Esses, que são a classe média, vota com a barriga em sua maioria, ou seja, vota se a economia estiver boa, se houver empregos e se o mercado estiver acessível para comprar comida. Neste sentido, entendo que o governo Bolsonaro está "derretendo" em sua popularidade por esse motivo. Os que votam com a barriga estão, neste momento, contra o Bolsonaro e mais saudosistas do primeiro governo do Lula, que realmente foi bom para todo mundo, seja de esquerda ou de direita. O primeiro governo do Lula foi fantástico. O segundo foi meia boca e os da Dilma foram um fracasso total.

Enfim, temos muito pouco a comemorar da atual gestão do Bolsonaro.

Um dos principais argumentos dos apoiadores do presidente, quando se trata de defender o governo dele, é dizer que a "corrupção acabou", que não se vê mais corrupção nas altas esferas da política. Na sua visão, esse argumento é válido? O governo Bolsonaro realmente acabou com a corrupção?

A corrupção nunca acabou e nunca acabará. Onde houver poder e dinheiro, haverá corrupção. O que temos é uma falta de transparência do que está acontecendo. Bastou uma CPI [Comissão Parlamentar de Inquérito] ser instalada e vimos o quanto de corrupção está tendo no Ministério da Saúde. E se fossem instaladas CPIs para investigar outras áreas? O governo Bolsonaro moveu céus para acabar com a Lava-Jato e acabou. Esse talvez tenha sido o maior erro e traição das propostas dele ao povo brasileiro. O que se vende é uma falsa narrativa de que não há mais corrupção ou que a corrupção diminuiu. Mas diminuiu com relação e em comparação a quê? Ao governo do PT? Mas essa será sempre a comparação? Roubar menos que o PT? Muito pouco e muito pobre esse argumento. 

Além disso, o governo Bolsonaro criou o "orçamento secreto". Pelo simples fato de ter criado um "orçamento secreto", significa que gastos secretos estão sendo realizados e, se são secretos, não tem como fiscalizar. Por que haveria necessidade de criar um "orçamento secreto" senão para a prática de atos ilícitos com o dinheiro público? Se não há corrupção, então por que esconder, tornando secretos os gastos com o dinheiro do povo?

Além da política, você também faz comentários sobre economia, uma área que conhece com propriedade. Muito se fala, principalmente entre direitistas, que um dos grandes vilões da economia brasileira são os impostos abusivos. Você concorda com essa afirmação? São os impostos que minam o poder de compra do brasileiro ou há outros fatores?

Não, não são os impostos abusivos, até porque não são abusivos. A nossa carga tributária é de 36% do PIB [Produto Interno Bruto]. A dos EUA é de 34% do PIB, a da Inglaterra é de 38% e a da França é de 36%. O problema é que se gasta mal o que se arrecada. Esse é o vilão maior da nossa sociedade: a má gestão dos recursos públicos oriundos dos impostos.

Empresários sempre vão achar que os impostos são muitos, mas lembremos que quem paga os impostos não são os empresários e sim os consumidores. Os impostos fazem parte do preço de venda que os empresários compram pelos seus produtos e serviços. Assim, quando um empresário não "paga" os impostos, significa, na verdade, que ele ficou com o dinheiro dos impostos que os consumidores pagaram e não repassou ao governo. Portanto, é um desvio do dinheiro publico. Empresários não pagam impostos. Quem paga, portanto, é a população que consome os seus produtos e serviços.

O que mina o poder de compra da população é a inflação dos produtos e serviços e a baixa remuneração. A baixa remuneração é o grande problema da distribuição de renda e da fomentação do mercado de consumo. Hoje, pelo IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], quase 75% da população brasileira vive com renda familiar de até R$ 1.860,00 por mês. É muito pouco. Não tem como fomentar o consumo com o poder de compra e de consumo da população tão baixo. É um ciclo vicioso. 

O governo do PT [Partido dos Trabalhadores] cometeu um suicídio quando criou o microcrédito. Fomentou programas como 'Minha casa, Minha vida', 'Minha Casa Melhor' etc, injetando bilhões na economia, com o endividamento de curto prazo da população que ganha até R$ 1.860,00 por mês. A pessoa tinha TV de LED de 50 polegadas e morava em casa de chão batido. Tinha micro-ondas em casa e não tinha luz. Tinha moto e não tinha dinheiro para a gasolina. Foi uma loucura, que acabou com a crise de 2016 e 2017. Mas o governo Bolsonaro achar que a solução é a livre iniciativa e deixar tudo a cargo do setor produtivo e empresarial, e achar que esses vão resolver os problemas do país, também não é a solução.

A prefeita Elizabeth Schmidt caminha para o seu décimo mês de governo. Até o momento, como você avalia o governo da professora? Em quais pontos você acredita que ela tem acertado e em quais poderia melhorar?

A prefeita tem, dentro das limitações de orçamento e da pandemia, feito o que está ao seu alcance. Na gestão da pandemia, foi muito bem até agora. Mas temos que esperar mais um pouco para chegarmos a uma conclusão de sua gestão. Ainda é muito cedo.

Você já exerceu um mandato como vereador em Ponta Grossa e chegou a ser cogitado como pré-candidato a prefeito pelo PMDB. Quais são os seus planos na política? Pretende disputar um cargo eletivo novamente?

Eu participei de todas as campanhas para prefeito de Ponta Grossa: em 1996 como contador da campanha do Plauto [Miró Guimarães Filho] a prefeito; em 2000 como contador da campanha do Jocelito Canto a prefeito; em 2004 como candidato a vereador e como contador da campanha do [Pedro] Wosgrau a prefeito; em 2008 como candidato a vereador e como coordenador no segundo turno da campanha do Wosgrau a prefeito; em 2012 como candidato a vereador e, no segundo turno, como coordenador de equipes de campanha do Marcelo Rangel a prefeito; em 2016 como contador da campanha do Marcelo Rangel a prefeito; e, em 2020, participei da campanha do vereador Felipe Chociai de forma mais direta e, de forma mais indireta, na campanha da professora Elizabeth. Em 2020, a minha participação foi mais limitada por problemas de saúde na família, que agora já estão superados, graças ao bom Deus. Tudo na vida tem o seu tempo. O meu na politica como candidato já passou. 


 
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